segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

COP21: Apesar do Show, o Copo Está 80% Vazio (por Daniel Tanuro)

Daniel Tanuro, ambientalista/ecossocialista belga
A Conferência do Clima (COP21, em Paris) levou, como esperado, a um acordo. Ele entrará em vigor a partir de 2020 se for ratificado por 55 dos países que são signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e que representem pelo menos 55% das emissões globais de gases de efeito estufa. À luz das posições tomadas em Paris, esta dupla condição não deve levantar qualquer dificuldade (embora a não ratificação do Protocolo de Quioto pelos Estados Unidos mostra que surpresas são sempre possíveis).

sábado, 19 de dezembro de 2015

O Irrelevante, o Insuficiente e o Necessário. Parte III: INDCs

Vilarejo de "Needmore", no Texas, onde
nunca moraram mais do que 100 pessoas
Abrimos parênteses neste momento na série de artigos de balanço do Acordo de Paris para retomarmos outro conjunto de publicações, intitulada "O Irrelevante, o Insuficiente e o Necessário", no qual já analisamos o plano de mudanças climáticas de Obama e as metas de mitigação apresentadas pelo Governo Dilma antes da COP21. Na verdade, neste ponto, as duas séries se cruzam, pois o Acordo de Paris depende inteiramente das chamadas INDCs, as Contribuições Pretendidas Nacionalmente Determinadas (Intended Nationally Determined Contribution)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Balanço da COP21. Parte II: Urgência não pode ser apenas uma palavra

Neste artigo dou prosseguimento à análise iniciada no anterior, a Parte I, em que centrei no aspecto das contradições entre o objetivo anunciado de limitar o aquecimento global a uma anomalia de temperatura "muito abaixo de 2°C" ou mesmo de no máximo 1,5°C acima dos valores médios pré-industriais e a falta de definições claras de como cumprir tal objetivo. Como mostrarei, apesar de proclamadas a urgência e a gravidade da situação, o Acordo de Paris não é condizente com o evidente quadro de emergência climática e com a necessidade de compensarmos pelo enorme atraso no início das medidas necessárias para evitar um caos climático completo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Balanço da COP21. Parte I: 1,5°C no Acordo de Paris.

O clima está na UTI
Um paciente sofre de uma doença seríssima, que tende a se agravar mais e mais se não for tratada. Por muito tempo a doença foi ignorada, ou relegada a algo secundário ou menor, até que os primeiros sintomas começam a aparecer e os últimos exames mostram que a situação é bem mais grave do que se pensava. Diante desse quadro, alguém acharia suficiente que a família enfim reconheça que a doença existe, que "voluntariamente" o paciente decida tomar algum medicamento mas sem que se diga em momento nenhum, de forma clara, quais são o tratamento e o remédio corretos e que, na melhor das hipóteses, se deixe no ar a mensagem genérica de que é preciso adotá-los, mas sem falar de quando aumentar a dosagem e quando fazer intervenções cirúrgicas e que não se comprove a garantia de fontes de financiamento para o tratamento como um todo? Apesar de reconhecer que teriam sido dados alguns passos para finalmente combater a doença (algo que era negado), eu não ficaria satisfeito de modo algum.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Entrevista concedida ao IHU

Segue a COP21, cujos resultados ainda são incertos faltando poucos dias para o encerramento do prazo previsto para fechamento do seu documento final. Lobbies de empresas poluidoras e governos cujos compromissos com grandes emissores são explícitos continuam servindo de grande obstáculo para se avançar além do que as contribuições pretendidas (as "INDCs") já submetidas nos oferecem, isto é, trocarmos o forno a lenha pelo - na melhor das hipóteses - cozimento em banho-maria.  Em entrevista que concedi ao IHU (Instituto Humanitas Usininos), deixei minhas impressões iniciais sobre o andamento da Conferência. Após sua conclusão, deverei apresentar meu balanço.


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Furacão Patrícia: amostra das tempestades de um planeta cada vez mais superaquecido

"Cogumelo" atômico sobre
Hiroshima

Hoje temos 43% mais CO2 do que na era pré-industrial (os famigerados 400 ppm) e mais do dobro do metano. Isto já aqueceu o planeta em praticamente 1°C. A cada segundo, em função do excesso desses e outros gases de efeito estufa na atmosfera, produzidos pelas atividades humanas (queima de combustíveis fósseis para energia e transporte, desmatamento, agropecuária), o sistema climático terrestre acumula o equivalente à energia de 4 bombas de Hiroshima. É uma quantidade formidável.

Nada menos do que 93% desse calor extra é armazenado nos oceanos. Ele é, então, passado à atmosfera de várias maneiras: em enorme quantidade, mas de forma relativamente lenta, como quando da ocorrência de El Niños muito intensos como os de 1997/1998 e, agora, o de 2015/2016; ou de forma explosiva, através de ciclones tropicais: os furacões e tufões. Esta última parece ser uma forma particularmente eficiente para oceanos superaquecidos se livrarem de suas "bombas de Hiroshima", afinal, a cada segundo, um grande furacão libera energia equivalente a 10 delas.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A "outra" bomba de carbono: nossa dieta. Parte II - Churrasco de Planeta

Apesar do "pum" emblemático, a maior
parte do metano produzido pelos rumi-
nantes sai mesmo é pela boca...
Inicio este segundo artigo da série, destacando, dos dados mostrados em artigo anterior, o fato de que cerca de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa se devem única e exclusivamente à fermentação entérica, havendo fortes indícios de que a ampla maioria dessas emissões se deva ao gado bovino (de corte e leiteiro). É algo da ordem de 2 bilhões de toneladas de CO2-equivalente, mesmo sem considerar todos os outros aspectos ligados à pecuária: do desmamento à decomposição de esterco, do uso de fertilizantes para o pasto ao transporte de insumos e, claro, do próprio produto.

É esse aspecto que faz com que - exclusivamente do ponto de vista climático, sem incluir ainda outros aspectos socioambientais - a carne bovina seja provavelmente a pior escolha possível como fonte protéica. Unindo dados da FAO com informações da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCAUSP), chega-se à conclusão de que ela é disparadamente a mais carbointensiva.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A "outra" bomba de carbono: nossa dieta. Parte I - Devorando a Terra

No Mandir, debatemos o papel da nossa
dieta nas mudanças do clima global
Como parte das iniciativas do tipo "roda de conversa" que estamos denominando de "Entrando no clima", no último dia 30 de Setembro estivemos no Restaurante Mandir, para debater o vínculo entre alimentação e as mudanças climáticas. Além da minha fala, houve intervenções do Vaikuntha Prasada, nosso anfitrião, do Roberto Araújo e da Neila Santos, o primeiro especialista em gastronomia e a segunda vinculada à agroecologia, que abordaram respectivamente aspectos cultural e social da produção de alimentos. Aproveito esta postagem para repassar um pouco da discussão que fizemos por lá e ampliá-la em alguns aspectos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O Irrelevante, o Insuficiente e o Necessário. Parte II: É pouco, Dilma! É pouco!

Dilma anunciou, finalmente, a proposta de contribuição
voluntária do Brasil para redução de emissões de gases de
efeito estufa. Os números até impressionam à primeira vista,
mas as metas estão longe da ambição necessária e do que é
possível para o Brasil, como grande emissor.
Foram anunciadas pela presidente Dilma Rousseff, neste domingo, em Nova Iorque, as metas brasileiras de redução de gases de efeito estufa. O site do Planalto divulgou que "o Brasil pretende reduzir em 37% as emissões de gases de efeito estufa até 2025" e "para 2030, segundo a presidenta, a ambição [sic] é chegar a uma redução de 43%". O documento oficial está disponível neste link.

O que pretendemos mostrar é que 43% de redução das emissões em relação a 2005 é, na verdade, pouco, que esse número aparece inflado em relação ao que deveriam ser metas reais, e que, portanto, se há uma palavra que não faz sentido ser usada aqui é "ambição".

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

É simples: Eles estão errados!

Vamos dar um basta ao disco arranhado do negacionismo?
Nosso conhecimento sobre o mundo, por mais que avance, sempre será limitado, parcial e, por isso mesmo, nossas verdades precisam ser encaradas como incompletas e até mesmo provisórias. Isso vale para qualquer tema, inclusive... o clima global.

Mas a perda da ilusão da "verdade absoluta" e fechada não pode nos conduzir a um relativismo grosseiro em que toda e qualquer "opinião" seja válida. Ou à ideia (desprovida de sentido) de que não podemos chegar a aproximações cada vez melhores da realidade, a um entendimento do mundo que nos cerca, de seus elementos e relações que melhor condiga com o que se verifica ao nosso redor e nos permita fazer previsões cada vez melhores sobre o seu comportamento. No caso do clima e das mudanças climáticas, precisamos saber que perguntas já têm resposta nítida e quais não têm.

domingo, 23 de agosto de 2015

Lutamos pelo Clima! Lutamos pelo Futuro!

Juventude disposta a lutar em defesa do clima e do futuro
Os últimos dias foram muito intensos para mim no que diz respeito ao debate climático junto à sociedade. Na quarta-feira, 19/08, estava dialogando com a juventude da periferia sobre "Clima e Água", no Liceu de Messejana, em atividade do Coletivo Socioambiental (constituído de moradores/as dos bairros do Jangurussu e Palmeiras e arredores, aqui em Fortaleza). No dia seguinte, foi a vez das companheiras e dos companheiros do MST, com quem discuti mudanças climáticas e seus impactos no semi-árido, seca, crise hídrica e modelo de desenvolvimento. Ainda na quinta-feira (20/08), tive a oportunidade de falar na Rádio OPovo, ao lado dos colegas de academia Prof. Aécio de Oliveira (Economia Ecológica/UFC) e Jeovah Meireles (Geografia/UFC), numa prévia do excelente debate que travamos dois dias depois.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O Irrelevante, o Insuficiente e o Necessário. Parte I: Obama.

Em comparação com a irresponsabilidade completa com a qual
os EUA têm lidado com a crise climática, desde que ignoraram
Kyoto, o novo plano de Obama parece ser ambicioso. Mas o
que discutiremos é que o plano, embora não seja irrelevante, é
claramente insuficiente e aquém do necessário. Fora isso, há
contradições óbvias nas posturas de Obama, por exemplo, ao
não ter escutado os apelos para barrar a exploração de petróleo
no Ártico (próximo à costa do Alaska) pela Shell. 
Há alguns dias, o presidente dos EUA, Barack Obama anunciou, com grande estardalhaço da grande imprensa mundial, e também com uma forte dose de entusiasmo de segmentos do movimento ambientalista, o lançamento de um "Plano de Energia Limpa". É fato que, tendo perdido a oportunidade de adotar medidas sérias para conter as mudanças climáticas quando o cenário no Congresso lhe era mais favorável, instituir regulações através da EPA (a Agência de Proteção Ambiental) e outras iniciativas à base da caneta presidencial se tornaram provavelmente a única via para alguma redução minimamente séria das gigantescas emissões de CO2 de seu país. Mas embora o anúncio tenha ganho muito destaque midiático, assim como as chamadas iniciativas voluntárias de quase todos os países industrializados, o plano de Obama está longe de dar conta das necessidades mínimas de combate à crise climática. Sair do irrelevante não significa chegar ao necessário. Afinal, no meio, existe... o insuficiente.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Vem aí a Marcha do Clima!

Ano passado, quase 400 mil pessoas marcharam nas ruas de Nova Iorque às vésperas de uma reunião da ONU, preparatória para a COP-20, que iria se realizar em Lima. Outras manifestações aconteceram em diversas outras cidades do mundo, da Europa à Austrália, da Ásia à América Latina. Foi uma evidência clara de que a luta contra as mudanças climáticas não é mais apenas o brado de meia dúzia de cientistas e ambientalistas contra um inimigo invisível e algo que não diga respeito à grande maioria da população. E como tudo indica que o "movimento climático" irá crescer, isto é algo que certamente vai incomodar as corporações ligadas direta ou indiretamente à extração e uso de combustíveis fósseis (petroquímicas, mineradoras empresas de energia, montadoras de automóveis e, claro, os bancos que as financiam) e responsáveis por outras emissões de gases de efeito estufa, como o agronegócio. Até porque é comum que a massificação das mobilizações tenha relação forte com a presença de indígenas, populações da zona costeira, atingidos por eventos extremos, a juventude e outros setores mais vulneráveis e impactados e, portanto, em conflito com tais segmentos do capital. Quem acha que a luta contra as mudanças climáticas é "coisa de pequeno-burguês" é porque nunca esteve com um agricultor do sertão que sabe o que significa mais calor e mais seca, ou com um indígena que percebe, já, o desequilíbrio do ambiente em sua volta, ou do jovem e o/a trabalhador/a da cidade pequena que já sofre com desabastecimento de água, ou com o pescador que teve sua pequena casa destruída pelo avanço do mar ou com a marisqueira que não consegue mais apanhar o marisco que lhe dava sustento.

Quero destacar, na construção desse movimento, o seu caráter eminentemente internacional, planetário, e ao mesmo tempo aberto e horizontal, uma ampla avenida para debater que tipo de transformação social e política de fato precisamos. Abaixo, reproduzimos artigo de Ricken Patel, da Avaaz, publicado no periódico britânico "The Guardian", em que ele faz uma caracterização e convocação da "People's Climate March", que poderíamos traduzir como "Marcha Popular do Clima" ou "Marcha do Povo pelo Clima".

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

"Saldo de Carbono" negativo: Com 400 ppm de CO2 já adentramos a zona de perigo.


O debate em torno de um acordo climático geralmente considera que 2°C e 450 partes por milhão (ppm) são os "limites seguros" de temperatura e de concentração de CO2, respectivamente. "John" Schellnhuber, o cientista que assessorou o Papa Francisco na elaboração da Encíclica "Laudato Sí", costuma dizer que a diferença entre um aquecimento de 2°C e 4°C é a civilização humana. Na opinião dele e da ampla maioria da comunidade científica que lida com impactos das mudanças climáticas, um aquecimento de 4°C provocaria alterações tão radicais no sistema climático terrestre, nos ecossistemas, no ciclo hidrológico, na frequência e intensidade de eventos extremos e outros fatores, que seria simplesmente inviável qualquer estratégia de adaptação para tal cenário.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Recordes de Temperatura em 2015: Moedas Improváveis

A probabilidade de um lançamento de moeda resultar em "cara"
ou "coroa" é de 50% para cada lado. Mas no que diz respeito ao
clima, todas as nossas apostas estão inteiramente erradas.
Nada menos que 145 estações de medição de temperatura tiveram recordes de temperatura máxima em 2015. Somente 11 tiveram recordes de mínima. É o que têm mostrado os últimos dados de extremos.

Em alguns casos, esses recordes de temperatura foram recordes nacionais. Os países que tiveram novos máximos absolutos de temperatura em 2015 foram: Alemanha (40,3°C em Kiztingen), Gana (43,1°C em Navrongo), Guiné Equatorial (35,5°C em Bata), Suíça (39,7°C em Genebra) e Venezuela (43,6°C em Coro). E como ainda não concluímos o verão do Hemisfério Norte, essa lista ainda pode se ampliar. Até porque, como "bola da vez", deve ser o Iraque que irá enfrentar uma onda de calor com possibilidade de superação de recordes (como o de 51°C de maior temperatura já registrada em Bagdad).


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Shell no Ártico: quem é o cerne do problema nunca será "parte da solução"!

Início da carta das petroquímicas à UNFCCC e à COP21. O
documento diz "Estamos prontas a fazermos nossa parte"...
Como? A resposta, logo abaixo, é "aumentando a fatia do
gás natural em nossa produção" (o que envolve, em outras
coisas, o famigerado "fracking").
Há poucos meses, a Shell assinou (com toda a demagogia que tem direito) uma carta endereçada a Christiana Figueres, Secretária Geral da Convenção-Quadro da ONU para Mudanças Climáticas e Laurent Fabius, Presidente da COP21. Nessa carta, ela e outras companhias, incluindo a BP, reconhecem que a crise climática é real: "entendemos que a tendência atual das emissões de gases de efeito estufa está acima daquilo que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) afirma ser necessário para limitar o aumento de temperatura a não mais do que 2 graus acima dos níveis pré-industriais". O texto surpreende pelas manifestações de aparente boa vontade, como "estamos prontos para fazer a nossa parte" e " manifestavam seu desejo de "queremos ser parte da solução" que chegam - vindas de onde vieram - a soar completamente falsas. Chega a admitir a necessidade de um "preço sobre as emissões de carbono".

Mas dizem por aí que a prática é o critério da verdade e, especialmente no caso da Shell, a contradição entre o dito e o feito é um abismo.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Por Água Abaixo

A agenda em resposta ao aquecimento global é um verdadeiro
fiasco, considerando que pelo menos desde o terceiro relatório
do IPCC (em 2001) as evidências são muito fortes sobre a
gravidade da crise climática. Mas ela é particularmente débil
no que tange à elevação do nível do mar, pois as projeções
dessa variável nunca pareceram motivo para grande alarde,
pelo menos na escala de décadas e até o fim do século. Pois
é... isto terá de mudar, com as novas evidências que surgiram.
"Eu vim plantar meu castelo naquela serra de lá, onde daqui a cem anos vai ser uma beira-mar", assim diz o refrão de uma bela música de Lenine intitulada "Lá Vem a Cidade". No mesmo álbum, na faixa "É Fogo", ele também questiona "o que será, com mais alguns graus Celsius, de um rio, uma baía ou um recife, ou um ilhéu ao léu clamando aos céus, se os mares subirem muito, em Tenerife? Até agora, porém, a elevação do nível dos mares parece estar sendo uma preocupação secundária em meio a todo o alvoroço envolvendo os impactos das mudanças climáticas, e ela tem aparecido com mais ênfase nas letras desse grande cantor e compositor pernambucano do que na agenda dos formuladores de políticas públicas e dos governos. Grave erro. Gravíssimo!

domingo, 19 de julho de 2015

A Falácia da "Mini-Era do Gelo"

Um exemplo de completa irresponsabilidade jornalística.
Menos de 24 horas após publicada, milhares de pessoas já
haviam acessado, "curtido" e "compartilhado" a falácia.
Na semana que passou a imprensa brasileira foi contagiada por uma notícia surpreendente: estaríamos próximos a ingressar numa "mini-era do gelo". "Preparem seus casacos" e "o inverno está chegando", diziam as chamadas mais sensacionalistas, em meio a imagens de nevascas.

Neste texto, vamos mostrar qual a verdadeira ciência por trás desse propalado "mínimo de atividade solar" e seus possíveis impactos, de onde veio essa "informação" (e como estudos científicos legítimos podem findar completamente ignorados, alguns, e distorcidos, outros, pela imprensa marrom) e qual o seu contexto (porque a indústria fóssil precisava imediata e desesperadamente de um factóide como esse nestes últimos dias). E contamos, claro, com a ajuda dos/as leitores/as do nosso blog para difundir um posicionamento científico realmente embasado sobre o tema! Vamos lá?

terça-feira, 14 de julho de 2015

Que horizonte? (Reflexões sobre Plutão, Vênus e Terra)

Carl Sagan (1934-1996)
"Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada 'super-astro', cada 'líder supremo', cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali - em um grão de pó suspenso num raio de sol. A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios. As nossas posturas, a nossa suposta autoimportância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios. A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto. Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o 'pálido ponto azul', o único lar que conhecemos até hoje." (Carl Sagan)

terça-feira, 7 de julho de 2015

Cientistas Ganhadores do Prêmio Nobel se Unem à Luta contra as Mudanças Climáticas

Alguns dos cientistas ganhadores de prêmios Nobel,
signatários da Declaração de Mainu-2015 sobre
Mudanças Climáticas
Em 3 de Julho, último dia do sexagésimo-quinto Encontro de Lindau, 36 ganhadores de prêmios Nobel assinaram a "Declaração de Mainau-2015 sobre Mudanças Climáticas", considerado um apelo enfático, comparado somente àquele que foi elaborado diante da ameaça de guerra nuclear.

Na esteira da publicação da encíclica papal "Laudato Sí" e de um firme posicionamento da Revista Science, o "clima" que precede a COP21, em Paris, é de aumento da consciência da gravidade do problema e de mobilização da sociedade.

A seguir, reproduzimos a Declaração de Mainau:

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Editorial da Revista "Science" sobre a crise climática: "O Inferno Além de Dois Graus"

Periódicos científicos geralmente adotam uma postura cautelosa em temas que guardem conotação política, como em geral é conduzida a própria ciência, pela comunidade de pesquisadores.

Mas diante da gravidade e urgência da crise climática, o mais prestigioso periódico científico dos EUA, a revista Science, resolveu romper o silêncio. Sua editora-chefe, Marcia McNutt, resolveu publicar um editorial em que clama pela ação urgente em relação às mudanças no clima, elogia o Papa Francisco e o governo californiano e critica os planos pouco ambiciosos dos EUA, bem como a política absurdamente equivocada do governo da Índia.

O apelo, para além da Ciência, é moral, sobre nós, que estamos "acumulando uma dívida ambiental pela queima de combustíveis fósseis, cujas consequências serão deixadas para os nossos filhos e netos". A metáfora escolhida, do Inferno de Dante, não deixa dúvidas do grau profundo de preocupação da autora do texto. Em nosso blog, ao tempo em que saudamos a iniciativa de Marcia McNutt e da Revista Science, apresentamos a tradução do editorial.

domingo, 21 de junho de 2015

Uma Encíclica Sacode o Mundo. Parte I - A força da Ciência do Clima na nova encíclica papal

"O Clima é um bem comum", diz a
encíclica "Laudato Si", de autoria
do Papa Francisco.
A nova encíclica papal "Laudato Si", o tão aguardado texto do Papa Francisco, já difundido como a "Encíclica Verde", está sacudindo o planeta como um gigantesco terremoto. Ou, se preferirem, está tendo o impacto de um "bom asteróide", como o que precisamos para desviar a rota do "mau asteróide" (metáfora que uso, claro, para o caos climático e que me parece particularmente adequada quando evidências crescem que estamos diante da 6ª grande extinção em massa) e ao menos minimizar os seus estragos.

Chega a ser quase impossível proceder a uma análise mais detalhada do documento através de um único artigo, então este será apenas o primeiro de uma série. Aqui, neste primeiro, a preocupação maior está em mostrar como a encíclica está corretamente alinhada com a Ciência do Clima, não apenas nos aspectos mais "duros", isto é: na realidade do aquecimento global e de seu vínculo com as emissões humanas de gases de efeito estufa, mas também nas consequências socioambientais, analisadas também em estudos interdisciplinares, para além das bases físicas das mudanças climáticas, responsabilidade do "grupo de trabalho I" do IPCC, e que compõem o escopo da contribuição dos grupos II e III aos relatórios do Painel. Esse alinhamento, como veremos, confere uma força enorme ao documento papal, algo que, segundo alguns, pode ter sido facilitado pelo grau de Mestre em Química do Papa Francisco (sim, isso mesmo, ele é graduado e mestre em Química pela Universidade de Buenos Aires).

domingo, 14 de junho de 2015

Índia: 2000 mortes... ou assassinatos?

O asfalto escoa como líquido, o que é deixado claro por meio
da deformação na sinalização horizontal. Fonte da foto: ABC.
O asfalto não é propriamente sólido. É "viscoelástico" e, a rigor, não "derrete". Sua viscosidade apenas diminui muito quando a temperatura aumenta. A aproximadamente 120°C, ele se comporta de fato como um líquido. A temperaturas "normais", parece um sólido, e de fato se comporta parecido com um.

Mas o que aconteceu na Índia há alguns dias está longe de poder ser considerado "normal". Na maior parte do país, a temperatura máxima durante o dia (que, medida pelas estações meteorológicas, corresponde à temperatura do ar propriamente dita, à altura de 2 metros) excedeu 40°C, tendo chegado a mais de 45 graus em grandes extensões e ultrapassado os 47 em algumas localidades.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Mudanças Climáticas e Água: de Crise a Colapso

Revista "Água para quem precisa: direito humano e
suporte à vida". Disponível neste link.
Este artigo foi publicado, junto com vários outros, de vários colegas do Ceará, na revista "Água para quem precisa: direito humano e suporte à vida", publicada por iniciativa dos mandatos do deputado estadual Renato Roseno e do vereador João Alfredo e disponibilizada através deste link.

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Introdução

Recentemente, o Brasil foi (e segue, apesar da estação chuvosa) assolado por condições extremas de seca, com consequente crise de abastecimento em numerosas cidades do Nordeste e do Sudeste. No início do mês de março, o ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi, admitira como “crítica” a situação dos reservatórios no Nordeste e no Sudeste. Nas palavras do próprio Occhi, "identificamos 56 cidades que hoje estão em colapso, sendo atendidas pelas prefeituras ou pelos governos estaduais. Nenhuma dessas é atendida pelo governo federal, mas como a situação está se ampliando, o governo federal pediu um levantamento e nós podemos chegar, dentro de uma avaliação, ao número de 105 cidades que estão ou poderão estar em colapso”. O levantamento daquele momento do ministério, para o Nordeste, indicava que os estados mais atingidos eram, pela ordem de número de municípios em tais condições, Ceará (23), Paraíba (15), Rio Grande do Norte (9), Bahia (5), Alagoas (2) e Pernambuco (2), conforme informações do Portal G1 [1] e da página do Jornal do Brasil na internet [2].

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Acorrentados. Mas até quando?

Chiara D'Angelo segura o cartaz: "Salve o Ártico".
Chiara Rose D'Angelo é o nome da ativista que prendeu-se à âncora do "Arctic Challenger", navio de apoio às operações que a Shell está iniciando no Ártico, após ter contado com o sinal verde do governo dos EUA, num movimento injustificável por parte de Obama. Este havia sinalizado poucos dias antes que encararia a questão climática de frente, inclusive contando com o apoio de um humorista para bater no negacionismo climático. Mas da comédia veio a tragédia: ao autorizar a Shell a explorar petróleo no Ártico,  apenas mais uma vez frustrou inteiramente o movimento ambientalista, e desta vez com um requinte de traição.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

400 ppm de CO2: a Atmosfera da Terra como Lata de Lixo do Capital

Vivemos vizinho a um planeta que, nas palavras do eterno
Carl Sagan, nos mostra que "as coisas podem dar errado".
Vênus é semelhante à Terra em vários aspectos, mas seu
efeito estufa desmedido o transformou literalmente num
inferno. Foto: imagem de computador da superfície de Vênus,
em Eistla Regio. Fonte: NASA (disponível em
http://nssdc.gsfc.nasa.gov/photo_gallery/photogallery-venus.html)
Terra: ajuste delicado

Com exceção de um ou outro astronauta, a grande maioria de nós vive, do primeiro ao último dia de vida, imerso nesta delgada película de ar que recobre a Terra: a atmosfera. Além de garantir-nos o oxigênio que respiramos e usamos para retirar energia dos alimentos e, graças à presença de ozônio em suas camadas superiores, nos proteger da radiação ultravioleta com que o Sol bombardeia o planeta, a atmosfera cumpre também um papel regulador do clima, graças ao chamado “efeito estufa”.


Exercido por gases minoritários na atmosfera terrestre (vapor d’água, dióxido de carbono, metano e óxido nitroso), o efeito estufa é fundamental para o clima ameno da Terra, assegurando a ocorrência de água em estado líquido e, portanto, garantindo as próprias condições de existência da vida como a conhecemos. Sem esse efeito, a Terra seria nada mais que uma esfera congelada e árida; com efeito estufa em demasia, seus oceanos poderiam ferver deixando para trás uma paisagem infernal como a do planeta vizinho, Vênus, recoberto por nuvens de ácido sulfúrico e onde o chumbo escoa, em estado líquido, em sua superfície causticante. É um ajuste delicado, do qual dependemos.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Leo Dicaprio: "Eu não sou um cientista, mas não precisa ser."

O discurso foi feito há alguns meses, mais precisamente na cúpula da ONU em Setembro passado, mas acredito que ele tenha escapado ao radar das mídias alternativas do Brasil. Leonardo Dicaprio é uma expressão de algo que precisamos ver com mais frequência: figuras públicas entendendo a gravidade da situação, percebendo a urgência para se resolver a crise climática e propondo ação. Da minha parte, acho que sem uma efetiva pressão de baixo, dos mais atingidos pela mudança climática, os governos tenderão a continuar na zona que mistura conforto e rendição aos lobbies fósseis: que leva à inação e à irresponsabilidade, à continuidade dos subsídios às petroleiras e mineradoras. E pela força e sinceridade do discurso de Dicaprio, acredito que valha a pena apresentar para vocês a tradução. Mais Leos, por favor!

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Dia da Terra e década decisiva para o clima

Por que um "Dia da Terra"?
Ainda estou em dívida com os/as leitores/as do blog no que diz respeito a pelo menos dois artigos ainda referentes à EGU-2015, a Assembleia Geral da União Europeia de Geociências. Mas não poderia me furtar a tecer alguns comentários sobre o Dia da Terra, ainda que, em Terra Brasilis, o 22 de Abril tenha marcado justamente o início da ocupação europeia e, por conseguinte, do maior processo de devastação de florestas tropicais na escala planetária (ao se somar o que se perdeu na praticamente dizimada Mata Atlântica, da qual restam menos de 10% da cobertura original, com a perda também gigantesca de área da Floresta Amazônica, que já se aproxima de 1/5 da sua área total).

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Equilíbrio do Sistema Climático Terrestre não é um "Problema de Engenharia"

O debate climático pode ser acirrado, sim.
Mas não é aquele que os negacionistas
dizem existir, nem travado na forma que
eles tentam fazer o público acreditar
Como coloquei em postagem anterior, não existe debate sobre a existência ou não do aquecimento global, tampouco de suas causas (antrópicas), nem sequer da importância dos riscos a ele associados ou da urgência em lidar com o tema. Esse é o consenso da comunidade científica em função do peso das evidências.

Mas isto não quer dizer que não haja polêmicas ou debate em nosso meio. Pelo contrário, há ainda incertezas importantes sobre determinados aspectos da dinâmica do clima, envolvendo a magnitude de certos processos, questões de irreversibilidade, dimensão dos impactos e, claro, há diferenças entre nós sobre o que deve ser feito, ou seja sobre as soluções para a crise climática. Há desde propostas que objetivamente se colocam contra a estrutura vigente da produção capitalista, calcada em crescimento ilimitado movido a partir da queima de combustíveis fósseis, centradas em uma forte mitigação, com as quais evidentemente me alinho (e que, acredito, são as melhor alinhadas com as evidências objetivas levantadas pela Ciência do Clima) até alternativas bem mais palatáveis aos olhos do grande capital.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

No verdadeiro meio científico não há negacionismo. Mas isso está longe de ser suficiente.


Ao lado, mostramos uma montagem feita a partir de cartaz verdadeiro da EGU2015, na verdade, um espaço para avisos ainda não utilizado (já que no momento em que a fotografei estávamos ainda a algumas horas da abertura do evento). O que ele diz é óbvio: assim como não há defensores da "Terra Plana" ou alguém que afirme que nosso planeta tenha sido criado há 6000 anos, em meio aos especialistas em Geologia, nem, nas seções dedicadas à Paleontologia, alguém que afirme que as formas de vida apareceram, por obra divina, exatamente como são hoje, desprezando todas as evidências de registro estratigráfico, de radioisótopos, de registro fóssil etc., nas seções relacionadas ao clima também não se vê o equivalente, em nosso caso, a criacionistas ou "flat-earthers": os negadores da mudança climática. Mas o que se esconde atrás do óbvio é que devemos nos preocupar muito, não apenas e talvez nem principalmente com o negacionismo aberto (que é grosseiramente anticientífico), mas com formas mais sutis de fuga do problema da crise climática.

domingo, 12 de abril de 2015

Assembleia da EGU em Viena: Haja conspiração!

Mais uma vez a Assembleia Geral da
EGU ocorre em Viena
Pela terceira vez estou em Viena para participar da Assembleia Geral da European Geosciences Union, evento que ocorre anualmente nesta cidade há alguns anos. Apresentarei um trabalho na seção dedicada a modelagem climática regional e aproveitarei a oportunidade para atualizar-me, fazer contatos etc.

Especialmente a primeira participação valeu a pena por dois momentos em particular. Um deles foi ter podido ver James Hansen em pessoa. O outro foi ter participado, em meio a um auditório absolutamente cheio, da condecoração de Michael Mann com a medalha Hans Oescheger. Foi um momento de rara satisfação, primeiro por Mike, que havia enfrentado há poucos anos ataques desonestos e raivosos da máquina negacionista, descritos em seu então recente livro "O Taco de Hockey e as Guerras Climáticas" e que tinha, através dessa comenda, seu trabalho reafirmado pela comunidade científica; segundo, por mim mesmo que, além de ter tido a minha cópia do livro devidamente autografada, ainda ter sido reconhecido pessoalmente por Mike (apesar de antes termos nos limitado a trocar algumas palavras num encontro da American Meteorological Society, nos EUA, no milênio passado). Os dois (Hansen e Mann), aliás, participaram de uma sessão aberta à imprensa, disponível neste link, discutindo a questão da sensibilidade climática.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Metano: o buraco é mais embaixo.

Ao invés de derreter lentamente, liberando os gases da decom-
posição de matéria orgânica (com destaque para o metano) de
forma gradual, os indícios são os de que o permafrost siberiano
esteja simplesmente explodindo por conta da pressão desses gases.
Buracos gigantescos têm aparecido na Sibéria. Não, nenhum sinal de que extraterrestres estejam nos visitando e que, além das já atribuídas bizarrices de sequestrar vacas e fazer desenhos enormes em plantações, eles tenham acrescentado mais um suposto hábito estranho. Pelo contrário, as evidências que emergem dos estudos recentes são a de que o mecanismo de produção é bastante mundano, mas é exatamente por ser algo "deste mundo" que precisa ser motivo de espanto e de preocupação: os mesmos são muito provavelmente produto de explosões no chamado permafrost, o solo congelado daquela região. Basta dizer que as concentrações de gás metano na base dessas crateras, algumas com várias dezenas de metros de diâmetro, são extremamente elevadas. Segundo informações publicadas na revista Nature, algumas medidas chegaram a detectar percentagens de metano no ar no piso de um desses buracos de 9,6%, o que é impressionante, dado que a presença média de metano na atmosfera terrestre no presente é da ordem de 1800 partes por bilhão (mais de 50 mil vezes menos!).

segunda-feira, 30 de março de 2015

Entrevista com Naomi Klein: "O que estamos a desmantelar agora é o nosso próprio planeta"

Apresentamos entrevista concedida por Naomi Klein, jornalista e uma das mais destacadas ativistas climáticas do presente, à revista Der Spiegel. A entrevista (traduzida a partir do inglês) toca em vários pontos abordados em seu livro "This changes everything: capitalism vs. the climate" (“Isto muda tudo: o capitalismo contra o clima”) e por vezes chega a mostrar a tensão em torno do tempo. Naomi Klein relaciona claramente a crise climática ao poder das corporações e chega a tocar em como a lógica de dominação sobre a natureza está associada à própria ideologia do patriarcado. Imperdível.
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Der Spiegel: Naomi, por que não conseguimos deter a mudança climática?
Naomi Klein: Má sorte. Mau momento. Muitas coincidências infelizes.
Spiegel: A catástrofe errada no momento errado?

sexta-feira, 27 de março de 2015

Água e Clima: Muito a comunicar, Muito por lutar

"Colapso Hídrico e Ecossocialismo". Na mesa, a partir da es-
querda, eu, Prof. Alexandre Pessoa, Deputado Estadual Flávio
Serafini, Vereador Renato Cinco, Profa. Flávia Braga e Prof.
Carlos Vainer.
Reproduzo aqui meu artigo publicado no site da Fundação Lauro Campos, por ocasião do Dia Mundial da Água e aproveito para falar de outras atividades que tenho desenvolvido. É que a agenda das últimas semanas têm sido bastante intensa. No início do mês estive em Canindé para uma reunião e em Santa Quitéria para uma palestra. No Dia 16/03, Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, me fiz presente em Audiência Pública na Assembleia Legislativa do Ceará, onde tive oportunidade de mostrar à Presidente da Comissão de Meio-Ambiente e ao Secretário do governo estadual e a todos/as presentesos dados absurdos de emissões de CO2 e consumo de água por uma única termelétrica, para na sequência seguir ao Labomar, instituto vinculado à Universidade Federal do Ceará, para uma palestra no evento "Crise Hídrica: a gota d'água!". No Dia 21/03, participei de debate na FM Universitária (um encontro emocionante de ciência com poesia, ao lado de Henrique Beltrão e João Figueiredo), cujo áudio está disponível online e em mesa, em evento do RUA-Juventude Anticapitalista junto com a liderança indígena Clécia Pitaguary. Três dias depois, integrantes do Fórum Ceará no Clima fizemos uma tentativa de entrega da petição contra o subsídio da água para a UTE-Pecém e visitei minha eterna casa, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (pertenci aos quadros da instituição por mais de uma década e meia e hoje vários dos estudantes que foram orientados por mim estão vinculados a ela), para palestrar sobre o Dia Meteorológico Mundial com o tema "Clima: Conhecer para Agir". E a agenda segue, ontem e hoje no Rio de Janeiro (ontem, ocorreu a mesa "Colapso Hídrico e Ecossocialismo", no Plenário da Câmara Municipal). Oxalá seja um sinal de que o debate ambiental e as profundas (e incômodas, reconheço) reflexões que ele traz para as esferas econômica e política estejam deixando de ser objeto de preocupação de meia dúzia.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Termelétricas: Números Estarrecedores, Crime contra o Clima!

Sinceridade, mas só em parte. a ex-Humble, hoje Exxon, bem
que podia realmente colocar o quanto de gelo ela é capaz de
derreter, através do CO2 que emite. A conta certamente sur-
preenderia o mais "catastrofista" dos ativistas!
Tive minha atenção chamada hoje por uma imagem compartilhada através da página da People and Climate no Facebook. Eram duas páginas de anúncio de 1962, da Humble, companhia de petróleo que mais tarde veio a se chamar... Exxon! A frase, em tom altissonante, em tradução livre, é "a cada dia a Humble provê energia em quantidade suficiente para derreter 7 milhões de toneladas de geleiras". É um número impressionante, que já mostrava a pujança da antecessora da maior petroquímica dos EUA há 5 décadas, mas parece uma estranha manifestação de "honestidade" da parte de uma das companhias que mais financiam o negacionismo climático hoje em dia. Claro, o que a hoje Exxon queria mostrar é que ela produzir muito petróleo, mas seria interessante que a sinceridade fosse real e ela mostrasse o quanto de geleiras o CO2 por ela emitido efetivamente derrete!

sábado, 21 de março de 2015

Depois dos Achacadores, os Açaimadores... do Clima

Obra de Marcus Schinwald:
Grita (2010)
Na semana, um bate-boca entre o agora ex-ministro Cid Gomes (Cid, o Breve) e o presidente do Congresso Nacional mais corrupto e reacionário desde a ditadura empresarial-militar, Eduardo Cunha, dominaram as manchetes. Cid Gomes (cuja história não o credencia exatamente como um acusador coerente) havia posto em evidência um termo pouco usado na língua portuguesa, ao considerar que centenas de parlamentares se postavam cumpriam papel de "achacador", ou seja, aquele que chantageia, extorque, ameaça, para fins de vantagem financeira. Mas enquanto os achacadores do Congresso brasileiro com Cunha à frente exibiam sua força política e o PMDB mostrava que só não tem seu lugar garantido no inferno por conta do temor que o demônio deve nutrir só em pensar em entregar a vice, a direção da Petroinferno e o Ministério das Caldeiras e Tridentes, indivíduos tão perigosos quanto agiam...


terça-feira, 17 de março de 2015

Porque emissões de CO2 "congeladas" não podem ser motivo de comemoração, mas de luta!

A Agência Internacional de Energia anunciou que as emissões
de CO2 do setor de energia não cresceram de 2013 a 2014.
Mas há razões para euforia?
A IEA anunciou há poucos dias e a mídia e vários sites ligados a organizações e movimentos ambientalistas difundiram, que as emissões de CO2 haviam parado de crescer (na verdade, para sermos mais exatos, as emissões do setor de energia não cresceram de 2013 para 2014, sendo que o relatório completo, incluindo o setor de produção de cimento, só deverá ficar pronto em Junho). O crescimento de emissões já havia sido considerado modesto há um ano, porque os 35,3 bilhões de toneladas de CO2 emitidas em 2013 foram "apenas" 2% maiores do que os 34,6 bilhões de toneladas de 2012... Com efeito, esse aumento já havia sido menor tanto do que o crescimento da economia (que foi de 3,1% naquele período) quanto do que o aumento médio da década passada (de 1,1 bilhões de toneladas, ou de 3,8% ao ano).

Em sua grande parte, houve entusiasmo junto ao movimento ambientalista, mas a mim parece que a necessidade de celebrar pequenas vitórias para manter o nosso ânimo e reduzir o fardo psicológico dos revezes ambientais (e também os revezes em direitos, na luta pela igualdade, justiça e democracia) pode nos jogar para um terreno arriscado, que é o de enxergar essas pequenas vitórias onde elas de fato não existem.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Negacionismo: Apague essa ideia!

Contar com meia dúzia de "cientistas" vendilhões e pseudo-
especialistas para semear a dúvida não é novidade. A indústria
fóssil está imitando a indústria tabagista. O que é lamentável é
o truque "colar" outra vez!
O cigarro causa câncer. Na verdade, dados do Instituto Nacional do Câncer são cristalinos: o tabaco é responsável por 23 óbitos por hora em nosso país; incluindo um quarto das doenças vasculares (incluindo derrame cerebral) e das mortes por angina e infarto do miocárdio (quase metade na faixa abaixo de 65 anos), pela quase totalidade de mortes por bronquite crônica e enfisema pulmonar (85%) e câncer no pulmão (90%, sendo que fumantes passivos representam um em cada três entre os 10% restantes), por quase um terço das mortes decorrentes de formas diversas de câncer (boca, laringe, faringe, esôfago, estômago, etc.). São nada menos do que 4700 substâncias tóxicas identificadas na fumaça do cigarro (50 das quais comprovadamente carcinogênicas): monóxido de carbono, que gera um composto estável que bloqueia as funções da hemoglobina e é produzido abundantemente pela combustão, cianeto de hidrogênio (o mesmo gás das câmaras de execução), benzeno (cancerígeno, frequentemente ligados a casos de leucemia em trabalhadores do ramo petroquímico), nitrosaminas, cetonas, xileno, tolueno (ou seja, solventes para desde esmaltes de unha até tinta industrial), compostos orgânicos policíclicos, terebentina, alcatrão, níquel e metais pesados (arsênio, cádmio etc.)... A lista é interminável.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Dia Meteorológico Mundial: A WMO se pronuncia sobre a crise climática

Poster do Dia Meteorológico Mundial de
2015, promovido pela WMO
A Organização Meteorológica Mundial (ou World Meteorological Organization) escolheu o tema "Conhecimento sobre o Clima para Ação pelo Clima") para o chamado "Dia Meteorológico Mundial" (23/03). A organização é uma agência especializada da Organização das Nações Unidas, conta com 191 países afiliados e atua como facilitadora da troca de dados e serviços de previsão e monitoramento. Sua ênfase, portanto, é no acompanhamento operacional do tempo e do clima, e não em mudanças climáticas. Assim, a escolha do tema adquire ainda importância ainda maior e a declaração de Michel Jarraud, Secretário-Geral da instituição mostra-se cristalina e enfática: "o custo da inação é alto e se tornará ainda mais alto se não agirmos imediata e resolutamente".

Nesse contexto, fica ainda mais injustificado que um negacionista como Molion utilize o fato de um dia ter ocupado uma posição junto à WMO há quase uma década (como membro de um de seus grupos gestores) para conferir alguma autoridade para seu proselitismo anticiência. Da mesma forma, mostra-se que as posições do atual presidente da SBMet estão abertamente deslocadas, como discutimos em artigo anterior em nosso blog.

A declaração completa e outros materiais podem ser obtidos a partir do site da WMO, e a tradução da declaração para o Português é apresentada a seguir:

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Negacionismo desmascarado!

Willie Soon teve seus vínculos com a indústria de combustíveis
fósseis mais uma vez revelado. Além disso, é preciso dizer que
os trabalhos supostamente científicos nos quais Soon tem se
envolvido não passariam num filtro minimamente rigoroso de
revisão por pares. Eu mesmo, só em ler o resumo da publicação
mais recente em que ele aparece como co-autor, junto a um ne-
gacionista tosco como Christopher Monckton, detectei nada
menos do que 4 erros graves!
Para mim, evidentemente não houve nenhuma grande surpresa. No entanto, Wei-Hock Soon ou "Willie Soon") vinha sendo o "queridinho" da claque negacionista nos EUA, usando de seu poder de retórica e de sua boa posição na comunidade científica (Soon é vinculado ao Centro Smithsonian de pesquisa em Astrofísica, um instituto conceituado, criado numa colaboração entre Smithsonian Institution e Harvard University), especialmente após servir como lastro pretensamente científico a um artigo publicado no Chinese Science Bulletin, órgão de divulgação da Academia Chinesa de Ciências, encabeçado por ninguém menos do que um dos negacionistas mais descredenciados, o famigerado "Lord" Monckton, um bufão que, graças ao apoio de Soon agora pode exibir um artigo "científico" no currículo...


domingo, 15 de fevereiro de 2015

"Não vou me adaptar"

Há limites muito estritos para a adaptação às mudanças climáticas.
Por que, então, alguns segmentos têm insistido em falar mais de
uma adaptação impossível do que da mitigação necessária?
Nando Reis em sua "Não Vou me Adaptar" lá pelas tantas pergunta: "Será que eu falei o que ninguém ouvia? Será que eu escutei o que ninguém dizia?". É uma boa maneira de retratar o impressionante descompasso que persiste, entre o que a Ciência do Clima "escuta" a partir dos dados das mais diversas origens e o que ela diz a guisa de conclusões sobre a mudança climática e seus riscos. Pior, há um sério perigo hoje em dia, por conta dos ouvidos moucos das corporações, dos governos e da população em geral, de um recuo ou rebaixamento no discurso, de uma tentativa de, não contando uma história tão terrível quanto a real, conseguir um mínimo de atenção.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O assalto do negacionismo à SBMet

"Dois lados"... ah, tá...
Imagine a diretoria da ANPURH (Associação Nacional de História) debatendo se "houve ou não" Holocausto na 2ª Guerra Mundial, dando igual voz aos negacionistas que dizem que o massacre nunca existiu e aos historiadores que trabalham com todas as evidências daquela manifestação explícita de barbárie e crueldade de Estado...

Ou o dirigente máximo da SBBq (Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia) propondo abrir um debate sobre a eficácia das vacinas em que tenhamos os conspiracionistas antivax...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Entrevista à "Vírus Planetário"


Recentemente fui convidado pela equipe da Vírus Planetário, um bom veículo de mídia alternativa que está também abrindo cada vez mais espaço para a pauta ambiental. O mote é o caos climático e o balanço da COP20, em Lima, mas, ainda que ela não tivesse atingido ainda a profundidade do momento atual, a crise hídrica também entrou em pauta. Agradeço de público à equipe da Vírus e espero que, através dela, o público possa ter cada vez mais acesso a informações ligadas a essa temática.

400 partes por milhão e a Luta de Classes (artigo de Victor Wallis)

Desde 1958 a concentração de CO2 vem sendo medida na es-
tação de Mauna Loa, no Havaí. Seu crescimento é incessante
e acelerado, ofuscando o que deveria ser o padrão natural de
"sobe-e-desce" da "respiração" e fotossíntese globais.
Apresentamos um artigo bastante interessante, de autoria de Victor Wallis, originalmente publicado em "Spectrezine", republicado por "Socialism and Democracy", e por "Climate and Capitalism".

Como se sabe, o CO2 anualmente tem um "sobe-e-desce", associado ao ciclo das estações do ano principalmente no Hemisfério Norte. No outono para o inverno, as árvores perdem as folhas e sua decomposição gera CO2 que vai para a atmosfera, enquanto na primavera e verão, as folhas renascem, a fotossíntese domina e a sua concentração cai. Acontece que quando se olha para uma sequência de vários anos, o padrão que se obtém é a chamada "Curva de Keeling", mostrando claramente que a acumulação de CO2 causado pelas emissões humanas é o padrão dominante e que esse aumento tem se acelerado incessantemente.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Refinaria: porque comemorar a sua não vinda!

Capa de um dos principais jornais cearenses a respeito
da decisão da Petrobrás. Muito pior seria chorar por
um óleo derramado. A não-vinda da Refinaria é, pelo
contrário, motivo para comemorar!
As lamúrias em torno do anúncio, por parte da Petrobrás, de que não daria continuidade ao projeto da Refinaria Premium II, levou praticamente toda a grande mídia local (como o Jornal OPOVO, cuja capa é mostrada ao lado) e políticos (como Tasso Jereissati) visceralmente alinhados aos interesses dos mais ricos em nosso estado a um queixume em coro uníssono  (isso para não falar das próprias declarações do governador cearense Camilo Santana).

Sem que isto represente de minha parte nenhuma solidariedade ao governo federal e estadual, que propagandearam a refinaria, iludiram e capitalizaram em cima da promessa, para mim há algo muito mais importante em jogo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Para. Para tudo. Já.

Uma das maiores panacéias que vêm sendo vendidas à sociedade brasileira é que a construção de grandes hidrelétricas na Amazônia irá nos assegurar segurança energética no futuro. Há também toda uma chantagem do tipo "ou isso ou as termelétricas", estas, que seriam apenas uma reserva energética mas que estão literalmente a todo vapor e a todo CO2, além de levarem a um aumento no valor médio da tarifa. A ostensiva campanha em torno de Belo Monte, Jirau e outros belos monstros anestesia grande parte da sociedade brasileira, que prefere ver os povos indígenas do Xingu e do Tapajós completamente extintos a trocarem seu chuveiro elétrico por um sistema de aquecimento solar de água (calma... de que água mesmo estamos falando?).

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Quinze 2.0 exige resposta: Água para Quem?

Quase 2/3 de chance de chuvas abaixo do normal. Chega de
ilusões. É preciso encarar de forma cristalina como água limpa
a questão fundamental: ÁGUA PARA QUEM?
Probabilidade é probabilidade. Previsões têm sempre incertezas. Mas não dá para tapar o sol (nem o CO2 extra na atmosfera, nem a água que evapora loucamente no calor) com a peneira. O sinal de previsão da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), de chance de 64% de chuvas abaixo da média, é muito forte para ser desprezado. Especialmente quando até um ano normal dificilmente iria aliviar a situação de seca e recarregar os reservatórios, algo que só aconteceria num ano de chuvas acima do normal.

Há alguns anos, já venho alertando para as consequências da crise climática, que seriam mais graves e mais profundas. Já cansei de repetir que é inaceitável sustentar, no semi-árido, atividades econômicas intensivas como o agronegócio de fruticultura irrigada e uma termelétrica a carvão (haja CO2) que sozinha consome quase 1000 litros de água a cada segundo (ou três milhões e meio de litros de água por hora, o que seria suficiente para abastecer mais de meio milhão de pessoas!). Isso foi feito em diversos artigos, como este, publicado no presente blog, ou este, publicado na grande imprensa e em diversos pronunciamentos junto a movimentos sociais.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Desigualdade e Irracionalidade, Marcas da Crise Climática

A equação é simples: a pegada de carbono está fortemente
correlacionada com a renda e o consumo. Os ricos, menos
vulneráveis, são os que mais emitem.
O presente artigo não é ainda um balanço geral da COP-20, realizada no último mês de dezembro, em Lima (algo em que nosso blog ainda está em dívida). Ao invés disso, a ideia é analisarmos aspectos que são importantes para entender a profunda paralisia que permanece nos círculos de negociação, para além, claro do enorme poderio (e, consequentemente do poderoso lobby) da parte da indústria fóssil em geral e das petroquímicas em particular.

Um dos fatores que leva à paralisia é a evidente desigualdade entre beneficiários das emissões de gases de efeito estufa e os mais atingidos pelos impactos das mudanças climáticas. No que diz respeito aos Estados nacionais, os dois conjuntos (maiores beneficiários versus principais atingidos) contêm interseções, claro, mas a regra é o contrário, isto é, em geral, os países que estão na linha de frente do risco climático estão longe de ser os que mais geraram e acumularam riqueza propulsionados pela queima de carvão e petróleo.

sábado, 17 de janeiro de 2015

O Clima não Joga Dados! (nem aposta na mega-sena)

Royal Straight Flush: o sonho de consumo do jogador de
poker é 40 vezes mais provável do que "não existir aque-
cimento global".
Está a fim de jogar poker? Sonha com aquele "Royal Straight Flush" (sequência de 10, valete, dama, rei e ás do mesmo naipe)? Prepare-se, pois a chance disso acontecer é de apenas uma em 649.739!

Ganhar 4 vezes seguidas na roleta, apostando diretamente no número? É possível, mas bem pouco provável, afinal a probabilidade é de uma em trinta e sete multiplicado por ele mesmo quatro vezes, ou seja, uma em 37 x 37 x 37 x 37 = 1.874.161

Quais as chances de se morrer atingido por um raio? Uma em 2.320.000 (claro, desde que você não suba ao topo de uma montanha no meio de uma tempestade segurando uma vareta metálica apontada para o céu).

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

2014: Uma Odisseia na Estufa

Nas mãos de Arthur C. Clarke, 2001 e 2010 já foram sinônimos de ficção científica, anos popularizados através dos filmes da "Odisseia no Espaço". Qualquer data além disso poderia ser objeto de especulações acerca de um futuro em que a tecnologia pudesse proporcionar conquistas formidáveis ou, pelo menos, como no bem menos pretensioso "De Volta para o Futuro", o uso cotidiano de tênis que se ajustam sozinhos ou skates voadores.

Mesmo fora do terreno da ficção, mas na seara das projeções para o futuro, 2014, antes de virar passado, provavelmente já foi vislumbrado, há algumas poucas décadas, como o ano em que se teria encontrado a cura definitiva para o câncer ou a AIDS, erradicado o analfabetismo em escala mundial, enviado a primeira missão tripulada a Marte, abolido definitivamente as armas nucleares ou debelado a fome, os conflitos territoriais, étnicos e religiosos. Era um tempo em que a ficção e até mesmo análises da realidade aparentemente coerentes tendiam a projetar mais avanços e menos cenários distópicos. Estes foram se tornando cada vez mais frequentes, de Mad Max a Wall-E; de Matrix ao interessantíssimo "Uma História de Amor e Fúria", apenas para citar alguns exemplos.

O NOVO RECORDE DE TEMPERATURA GLOBAL

Eis que 2014 chegou e ao contrário da solução de algum grande problema da humanidade, ele trouxe o traço simbólico da incapacidade de resolução do maior deles. Consolidados os dados, como já se esperava nos últimos meses, está confirmado: 2014 é o ano mais quente de todo o registro histórico de temperatura global, iniciado em 1880.

De onde saiu tanto negacionismo?

Nas últimas duas semanas pensei várias vezes na frase “quanto mais rezo, mais assombração me aparece”. Daí lembrei que, como bom ateu, n...

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