Editorial da Revista "Science" sobre a crise climática: "O Inferno Além de Dois Graus"

Periódicos científicos geralmente adotam uma postura cautelosa em temas que guardem conotação política, como em geral é conduzida a própria ciência, pela comunidade de pesquisadores.

Mas diante da gravidade e urgência da crise climática, o mais prestigioso periódico científico dos EUA, a revista Science, resolveu romper o silêncio. Sua editora-chefe, Marcia McNutt, resolveu publicar um editorial em que clama pela ação urgente em relação às mudanças no clima, elogia o Papa Francisco e o governo californiano e critica os planos pouco ambiciosos dos EUA, bem como a política absurdamente equivocada do governo da Índia.

O apelo, para além da Ciência, é moral, sobre nós, que estamos "acumulando uma dívida ambiental pela queima de combustíveis fósseis, cujas consequências serão deixadas para os nossos filhos e netos". A metáfora escolhida, do Inferno de Dante, não deixa dúvidas do grau profundo de preocupação da autora do texto. Em nosso blog, ao tempo em que saudamos a iniciativa de Marcia McNutt e da Revista Science, apresentamos a tradução do editorial.


Marcia McNutt, editora-
chefe da Science
"O Inferno Além de Dois Graus"


Marcia McNutt

Na história da humanidade, há uma escassez de exemplos de ameaças globais de tão longo alcance em seus impactos, tão terríveis em suas consequências, e consideradas tão prováveis de ocorrer que tenham levado todas as nações a se envolverem na mitigação dos seus riscos. Mas agora, com as mudanças climáticas, estamos diante de uma escalada lenta de uma longa e duradoura ameaça global para a alimentação, a saúde e os serviços dos ecossistemas, bem como para a viabilidade geral do planeta para sustentar uma população de mais de 7 bilhões de pessoas. Os custos estimados do em lidar com o problema crescem a cada ano, quanto mais se demorar a confrontá-las. Em reconhecimento dos riscos comuns que enfrentamos e da ação coletiva que será necessária, uma reunião internacional das partes interessadas ocorrerá em Paris na próxima semana (www.commonfutureparis2015.org), em antecipação à Conferência sobre Mudança Climática das Nações Unidas (COP21), em dezembro, para discutir soluções para mitigação e adaptação climática.

O tempo para o debate terminou. Ação é urgentemente necessária. A Agência Internacional de Energia, sediada em Paris anunciou recentemente que os compromissos atuais para reduzir as emissões de CO2 [conhecidos como Contribuições Pretendidas Determinados a nível Nacional (INDCs, do inglês Intended Nationally Determined Contributions)] das nações do mundo são insuficientes para evitar o aquecimento de todo o planeta em uma média de mais de 2°C acima do nível pré-industrial. Este valor é visto, em geral, como o limite entre um aquecimento climático a que talvez possamos nos adaptar e um aquecimento mais extremo que será muito destrutivo para a sociedade e os ecossistemas dos quais dependemos. Para definir metas mais agressivas, as nações desenvolvidas precisam reduzir suas emissões de combustíveis fósseis per capita ainda mais, e ao fazê-lo, criar roteiros para ajudar as nações em desenvolvimento a dar um salto adiante à medida que expandem sua capacidade de energia, através da instalação de tecnologias de infra-estrutura energética com baixa emissão CO2, ao invés de usinas de energia movidas a carvão.

A União Europeia (UE) está liderando o caminho com a meta mais agressiva nos INDCs para a redução das emissões: um corte de 40% abaixo dos níveis de 1990 de emissões de CO2 até 2030. Os Estados Unidos se comprometeram de 26 a 28% abaixo dos níveis de 2005 até 2025, com a Califórnia tendo optado, de forma independente, coincidir com o objetivo mais ambicioso da UE. Todos os olhos estão voltados para a China e Índia, dois dos maiores emissores totais de CO2, sendo que ambos têm ainda de apresentar as suas propostas INDCs antes da COP21. Infelizmente, Piyush Goyal, o ministro da Índia de Estado da Energia, do Carvão e Energias Novas e Renováveis, pretende dobrar a produção de carvão de seu país até o ano de 2019 para atender às necessidades de energia doméstica. A China parece estar tomando o caminho oposto, reconhecendo sua vulnerabilidade às mudanças climáticas e investindo pesadamente em energia renovável. Como a Califórnia, a China está apostando que uma boa política ambiental também se refletirá em boa política fiscal, ao se estar na vanguarda da economia de energia limpa.


Inferno de Dante, com círculos concêntricos destinados a
faltas cada vez mais graves. No portão de entrada, a frase
"Abandonai toda esperança, ó vós que entrais!" 
Aplaudimos a declaração climática bastante direta do Papa Francisco, atualmente o nosso "campeão" mais visível na luta para mitigar a mudança climática, e lamentamos o vácuo de liderança política nos Estados Unidos. Este não é um momento para esperarmos que surjam novas lideranças políticas no processo. Assim como a Califórnia decidiu seguir sozinha, todos os setores (transporte, manufatura, agricultura, construção, etc.) e cada pessoa precisam fazer o que for possível para reduzir a poluição de carbono através da economia de energia, adotando tecnologias alternativas de energia e investindo em pesquisa e captura de CO2 na fonte.

No Inferno de Dante, o autor descreve os nove círculos do Inferno, cada um dedicado a diferentes tipos de pecadores, com os mais distantes sendo ocupada por aqueles que não sabiam de nada, e a área mais interna reservada para os criminosos mais perigosos. Gostaria de saber onde, nos nove círculos, Dante iria colocar a todos nós, que estamos a tomar emprestado esta terra em nome do crescimento econômico, acumulando uma dívida ambiental pela queima de combustíveis fósseis, cujas consequências serão deixadas para os nossos filhos e netos. Vamos agir agora, para salvar as próximas gerações das consequências do inferno de um mundo aquecido além de dois graus.

Comentários

  1. Oi Alexandre. Seria possível colocar a cor da fonte como branca? Assim ficaria mais fácil de ler contra o fundo escuro. Obrigado.

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