domingo, 14 de junho de 2015

Índia: 2000 mortes... ou assassinatos?

O asfalto escoa como líquido, o que é deixado claro por meio
da deformação na sinalização horizontal. Fonte da foto: ABC.
O asfalto não é propriamente sólido. É "viscoelástico" e, a rigor, não "derrete". Sua viscosidade apenas diminui muito quando a temperatura aumenta. A aproximadamente 120°C, ele se comporta de fato como um líquido. A temperaturas "normais", parece um sólido, e de fato se comporta parecido com um.

Mas o que aconteceu na Índia há alguns dias está longe de poder ser considerado "normal". Na maior parte do país, a temperatura máxima durante o dia (que, medida pelas estações meteorológicas, corresponde à temperatura do ar propriamente dita, à altura de 2 metros) excedeu 40°C, tendo chegado a mais de 45 graus em grandes extensões e ultrapassado os 47 em algumas localidades.


A onda de calor durou vários dias, tendo sido prolongada pelo atraso nas chuvas de monção. Ao todo, conforme dados do NCDC da NOAA, foram 43 recordes de temperatura quebrados em duas semanas (e mais 5 igualados). O resultado foi devastador. Os números são conflitantes, pois nem sempre é fácil atribuir corretamente a causa da morte, exceto nos casos de evidente hipertermia e desidratação extrema, mas estimativas variaram entre 1800 e 2500 pessoas mortas.

Meu questionamento é se "mortas" seria a palavra certa? Ou se seria melhor usar o termo "assassinadas"? Parece exagero, certo? Mas se soubéssemos que um evento como esse é uma consequência da ação humana? E que se pode atribuir dolo?

Bem, o fato é que de acordo com pesquisa recente, publicada na revista Nature Climate Change, os cientistas Erik Fischer e Reto Knutti, revelaram mais uma verdade bastante inconveniente para a indústria de combustíveis fósseis. Eles utilizaram técnicas de atribuição para examinar qual a fração dos eventos extremos que pode ser atribuída ao aquecimento global antrópico, isto é, que parte desses eventos é, em essência, artificial, produzido - e aí devemos colocar o dedo na ferida - não "pelo homem" em geral, mas em sua maioria pelas corporações responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa.
Curvas de razão de probabilidade (acima) e da fração de risco
atribuído ao aquecimento global (abaixo), para extremos de
precipitação (esquerda) e de alta temperatura (direita) no
material suplementar ao artigo de Fischer e Knutti.

E eis que os resultados impressionam. Segundo eles, cerca de 18% dos extremos diários de precipitação que, no presente, ocorrem sobre os continentes, já são causados pelo aquecimento global (que hoje já nos coloca 0,85°C acima da temperatura do período pré-industrial, na média sobre todo o planeta). Como uma atmosfera mais aquecida produzirá cada vez mais extremos, à medida em que prossiga a escalada do aquecimento global, essa percentagem só crescerá. A 2°C (o limite tratado como "seguro" pelos governos e pela ONU nas - pífias - negociações climáticas), essa fração já deverá ser de 40%. Vale dizer que essa tendência é ainda mais acentuada, considerando-se períodos de vários dias (de 5 dias a um mês): períodos extremamente chuvosos de 5 a 15 dias serão quase duas vezes mais prováveis a 2°C e de três a quatro vezes mais prováveis a 4°C. Sim, isso significa multiplicar os danos e prejuízos provocados por enchentes, deslizamentos, inundações, furacões e tufões por um fator de 3 a 4 vezes. Isso pode significar contar de 3 a 4 vezes mais mortes associadas a esse fenômeno do que contamos hoje.

Para além das mortes, os casos de internação se multiplicam
exponencialmente durante uma onda de calor severa. A pres-
são sobre o sistema de saúde, especialmente em países pobres,
pode provocar calamidades ainda maiores. 
Mas ainda mais surpreendentes são as conclusões quanto aos extremos de calor. Segundo o mesmo artigo, 75% dos extremos diários de calor do presente já são causados pelo aquecimento global. Isso mesmo, de cada 4 ondas de calor, 3 não podem ser consideradas mais "fenômeno natural", e isto a "modestos" 0,85°C de aquecimento... Com o apoio do gráfico acima, é possível concluir que nos dias de hoje, ondas de calor extremas, de 5 a 15 dias de duração, como a que assolou a Índia, já são cerca de 5 vezes mais prováveis do que no período pré-industrial. A 2°C, elas já deverão se tornar 20 vezes mais prováveis, de onde me pergunto de onde tiraram a ideia de que esse patamar de aquecimento é aceitável ou, pior, "seguro". A 4°C acima da temperatura pré-industrial, nem se fala: extremos diários ocorreriam 50 mais e eventos extremamente quentes com duração de 5 a 15 dias possivelmente seriam centenas de vezes mais prováveis (simplesmente estourando a escala mostrada no gráfico acima à direita).

O resumo da história é claro, sem margem para dúvida: a cada décimo de grau, mais pessoas adoecerão e morrerão em virtude de calor extremo. Nesse contexto, é preciso dizer claramente: a onda de calor na Índia dificilmente pode ser considerada um fenômeno puramente natural, ou mesmo majoritariamente natural; quase certamente não ocorreria não fosse o aquecimento global. Essas pessoas foram vítimas da fúria assassina das corporações de combustíveis fósseis e sua mão invisível, gasosa. A arma, o CO2.

Mulher. Idosa, negra, pobre. O retrato da tragédia do Katrina,
que devastou New Orleans, atingindo principalmente as
pessoas mais vulneráveis.
Caso alguém deixe conscientemente uma pessoa idosa, uma criança ou um animal presa dentro de um carro ao sol e esta venha a morrer, isto configura assassinato. E não é outra coisa que Shell, ExxonMobil, Chevron, China Petroleum, BP, Duke Energy, Peabody, Gazprom, BHP Billiton e outras têm feito (isso inclui a Petrobrás, pois CO2 estatal também aquece) têm feito com todos nós. Do início poderia se dizer que era por negligência. Mas de uns tempos para cá, no mínimo nos últimos 14 anos (3 últimos relatórios do IPCC que deixaram tudo claro e cristalino) fazem isso de forma consciente. Se o modo que a indústria de combustíveis fósseis age já não configura dolo, está muito próximo disso, ao meu ver.

Essas corporações deveriam ser responsabilizadas por pelo menos 3/4 dos cerca de 2000 indianos mortos. E contribuíram para matar 6300 filipinos, com o Haiyan, e 1833 estadunidenses, com o Katrina (quase todos negros/as e pobres da periferia de New Orleans). Em recente carta (que será objeto do próximo artigo em nosso blog) a Christiana Figueres, Secretária-Geral da Convenção-Quadro da ONU para as mudanças climáticas, algumas companhias do ramo petroquímico cinicamente admitiram que a crise climática existe e que "querem ser parte da solução". Mas isto é impossível, posto que elas são o problema. Mais do que encerrada, a indústria de combustíveis fósseis precisa ser tratada como é: uma criminosa fria e calculista.

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