sábado, 21 de março de 2015

Depois dos Achacadores, os Açaimadores... do Clima

Obra de Marcus Schinwald:
Grita (2010)
Na semana, um bate-boca entre o agora ex-ministro Cid Gomes (Cid, o Breve) e o presidente do Congresso Nacional mais corrupto e reacionário desde a ditadura empresarial-militar, Eduardo Cunha, dominaram as manchetes. Cid Gomes (cuja história não o credencia exatamente como um acusador coerente) havia posto em evidência um termo pouco usado na língua portuguesa, ao considerar que centenas de parlamentares se postavam cumpriam papel de "achacador", ou seja, aquele que chantageia, extorque, ameaça, para fins de vantagem financeira. Mas enquanto os achacadores do Congresso brasileiro com Cunha à frente exibiam sua força política e o PMDB mostrava que só não tem seu lugar garantido no inferno por conta do temor que o demônio deve nutrir só em pensar em entregar a vice, a direção da Petroinferno e o Ministério das Caldeiras e Tridentes, indivíduos tão perigosos quanto agiam...


Açaimador? Vamos ao dicionário...
Sim! Isso! Ajudou muito!
Eram os Açaimadores do Clima. "Açaimadores" são aqueles que põem "açaimo", o que segundo o Aulete, é o mesmo que mordaça. E foram tentativas vergonhosas de amordaçar, censurar, silenciar a Ciência do Clima que foram vistas recentemente. Dois casos recentes foram particularmente gritantes.

Nos EUA, mais especificamente na Flórida, de acordo com uma reportagem investigativa do Miami Herald, os funcionários do Departamento de Proteção Ambiental receberam ordens de não utilizar, em seus relatórios e comunicações, os termos "mudança climática", "aquecimento global", nem memsmo "elevação do nível do mar" ou... "sustentabilidade". Claro, isto não é novidade para um País em que James Hansen teve relatórios censurados, em que pesquisadores do Instituto de Pesca e Vida Marinha foram proibidos de, num evento científico, de falarem sobre degelo, ursos polares etc. e em que funcionários públicos da Carolina do Norte não poderiam usar as projeções de elevação do nível do mar em seus planejamentos, todos esses fatos relatados (e com "links") pelo Huffington Post!

Mas a aberração se torna maior em relação à Flórida porque ela é extremamente vulnerável às mudanças climáticas. Cada vez mais está claro que as projeções de elevação do nível do mar na escala de centímetros estavam subestimadas e que até o final do século um oceano em média pelo menos um metro (senão vários) já é dado, em meio à comunidade de especialistas, como uma realidade quase certa. Para se ter uma ideia da vulnerabilidade daquele estado, construímos o painel ao lado, em que a situação da Flórida é mostrada como é hoje (acima, à esquerda), com uma elevação do nível do mar de 3m (acima à direita), atingindo já boa parte do sul do território, de 13m (abaixo, à esquerda), com o mar ocupando praticamente metade da área, e 30m (abaixo, à direita), em que o estado em sua grande maioria submerge. O cenário de 3m é perfeitamente plausível para uma escala de um século, mais ou menos. E é preciso lembrar que os cenários seguintes ficam muito aquém dos mais de 70 metros de elevação que seriam produzidos por um degelo total da Antártica e da Groenlândia.

Mas esse degelo é praticamente impossível de acontecer, afinal "a Antártica está ganhando gelo", certo? Errado. Lembramos que primeiro é necessário distinguir o gelo marinho do gelo continental: o primeiro flutua sobre o oceano; o segundo está apoiado diretamente sobre terra firme; o primeiro, ao derreter, não contribui para elevar o nível dos mares, ao contrário do segundo.

Comportamento do gelo marinho e do gelo continental na
Antártica. Detalhes no texto.
Se é verdade que a Antártica tem mostrado uma tendência a expansão do gelo marinho a leste, que se sobrepõe à perda na região na península, no que diz respeito ao gelo continental, o que se vê é precisamente o contrário. O acúmulo de gelo continental nas regiões central e leste é extremamente modesto, comparando à perda acelerada de gelo na região da Península (a oeste). Quando o volume do WG-I do 5º Relatório do IPCC foi publicado, ainda em 2013, já se havia diagnosticado esse quadro e a conclusão é a de que, na realidade, a Antártica em seu conjunto estava perdendo gelo. É o que mostra a figura ao lado. O gráfico acima à esquerda mostra o ciclo anual do gelo marinho, mostrando ligeira tendência de aumento (o que, na verdade, é resultado de um balanço de perdas e ganhos, em cores quentes e frias, respectivamente, nas 4 estações, nos mapas logo abaixo). À direita, é mostrada a tendência para o gelo continental, com perdas em tons avermelhados e ganhos em tons azulados. O balanço para o gelo continental é mostrado abaixo e a conclusão é a de que se durante os anos 1990 a Antártica praticamente não teve variação na massa de gelo, com tendência, na verdade, a pequenos ganhos, a partir da virada do século o quadro se inverte! De 1998 a 2012, fora de qualquer margem de erro, a estimativa foi a de que a Antártica perdeu quase 2 trilhões de toneladas de gelo continental, ou o equivalente a quase 6 mm de elevação do nível do mar em escala global, com um processo claramente em aceleração.
Mapa que destaca o tamanho da Geleira
Totten, que está derretendo a partir de
baixo. Fonte original: Australian
Antarctic Division

Mas o mais grave é que de acordo com um estudo que foi publicado há poucos dias, o processo de degelo na Antártica é bem mais grave do que se imaginava. A geleira possui a extensão de 538 mil quilômetros quadrados, quase o tamanho do estado de Minas Gerais. E está derretendo por baixo. O que os pesquisadores descobriram é que há dois canais do fundo do mar debaixo da plataforma de gelo flutuante da geleira, uma das mais importantes do Leste da Antártica, precisamente a porção que parecia "protegida" dos efeitos do aquecimento global. Entrando por baixo da plataforma de gelo flutuante, águas com temperatura acima do ponto de fusão, estão causando um rápido afinamento da plataforma de gelo, de acordo com o que se vê na reconstrução batimétrica. É o que é relatado no artigo de Peter Fretwell, publicado na Nature Geoscience no dia 16/03. Em derretendo, a geleira Totten pode produzir sozinha um aumento do nível do mar de mais de 3 metros, o que mostra o quanto a postura do governo da Flórida em esconder a elevação do nível do mar é irresponsável.

Em tempo, falando de degelo, mesmo em se tratando de gelo marinho, que não contribui diretamente para a elevação do nível do mar, devo lembrar que o Ártico acaba de bater mais um triste recorde: nunca se viu tão pouco gelo no inverno do hemisfério norte, 130 mil quilômetros quadrados a menos do que o valor de 2011, recorde anterior, o que equivale ao tamanho de um país como a Grécia.

O São Francisco é responsável pelo abastecimento elétrico em
uma extensa área do território brasileiro (praticamente todo o
Nordeste, com exceção do Maranhão). Assoreado, ameaçado
pelo desmatamento no Brasil central, tendo sua nascente secado
pela primeira vez desde que a mesma é monitorada, é evidente
que a segurança hídrica e energética da região pode ficar com-
prometida gravemente com as mudanças climáticas.
Mas a brilhante atitude de achar que proibir que se fale num problema representa solução para ele não é exclusividade de um escroque eleito com dinheiro dos Irmãos Koch para governar um dos mais importantes estados dos EUA. No Brasil, o vexame ficou por conta do governo federal, mais especificamente da parte de Mangabeira Unger, responsável (ooops) pela Secretaria de Assuntos Estratégicos, que demitiu técnicos ligados à área de Desenvolvimento Sustentável, responsáveis pelo estudo intitulado Brasil 2040, referente à adaptação do Brasil às mudanças climáticas e que, como esperado, não deve trazer boas notícias sobre as possibilidades de nosso país continuar produzindo energia elétrica a partir de rios cujas vazões tendem a diminuir.

Com taxas de evaporação cada vez maiores associadas ao aquecimento do sistema climático, com grave assoreamento relacionado à destruição de matas ciliares e atividades como mineração, os rios brasileiros seguem se desmilinguindo. O regime de chuvas pode sofrer alterações tanto em função da mudança climática global quanto do desmatamento no Cerrado e na Floresta Amazônica e eis que, assim como o governo da Flórida que "resolve" o problema da ameaça de elevação do nível do mar escondendo a mudança climática à força, nosso governo federal açaima a ciência brasileira.

E esta semana também não trouxe boas notícias sobre a Amazônia. Pelo visto um dos mecanismos de retroalimentação ("feedbacks") mais temidos pode já estar sendo disparado.  Um artigo recentemente publicado na Nature e que ganhou destaque na mídia logo em seguida mostra o grave problema que pode representar uma sequência de grandes secas na região. Doughty e colaboradores examinaram os efeitos das secas de 2005 e 2010 que, acredita-se, já sejam um sintoma do tipo de alteração do regime de chuvas da região associada à mudança climática global.
Menos CO2 absorvido. Mais mortalidade. De "sumidouro" de
carbono, as florestas podem estar sendo condenadas a virarem
"fonte" emissora.

Eles mostram que "a mortalidade de árvores aumentou após a seca de 2005 e uma modelagem modelagem atmosférica regional inversa mostrou um decréscimo na captura de CO2, em toda a bacia, em 2010 em comparação com 2011" e suas análises de campo evidenciaram que "no final da seca, a respiração autotrófica, especialmente nas raízes e caules, diminuiu significativamente em comparação com as medições feitas em 2009 (...) No ano depois da seca, a produtividade primátia líquida total se manteve constante, mas a alocação de carbono foi deslocada para a copa", ou, resumindo "que a seca severa suprime a fotossíntese" e que na verdade em 2010 a Amazônia deixou de capturar nada menos que 380 milhões toneladas de carbono, o que equivale aproximadamente ao funcionamento de 200 usinas termelétricas de grande porte! Os autores avançam numa discussão sobre aquilo que, para mim, parece uma verdadeira armadilha do sistema fisiológico vegetal. Como este é orientado para um determinado comportamento competitivo, num bioma em que se dá melhor quem cresce verticalmente e expande a copa, a fisologia leva a um menor investimento em manutenção de tecidos e em defesa em condições de fotossíntese suprimida em consequência da seca. E aí vem o desastre subsequente: o aumento da mortalidade das árvores.

Imagem assustadora da seca de 2005, na Amazônia. Somente 5
anos depois, nova seca extrema ocorreu. É difícil imaginar que
a floresta como um todo possa resistir a um aumento muito ex-
pressivo da frequência desses eventos extremos.
Ou seja, a mudança climática provocada pelo aumento de CO2 na atmosfera leva a secas mais severas. As secas em si já limitam a captura de carbono pela floresta, inibindo o que poderia ser um bom mecanismo de contenção do aquecimento global, que é o crescimento por fotossíntese. Mas aí vem o pior: se é da natureza das plantas da Amazônia, adaptadas a secas raras e água abundante a possibilidade de fazer fotossíntese à vontade, elas investem mais em crescimento e em formar folhas. Num contexto de seca, fragilizam seu sistema de raízes e a defesa dos tecidos do conjunto dos seus corpos. Ficam mais susceptíveis a doenças, ao ataque de plantas parasitas, a novas secas. E morrem. E ao se decomporem, emitem mais CO2, retroalimentando tudo. Dá aquele frio na espinha e nó na garganta...

O trabalho de Doughty e seus colaboradores nos traz mais informação que deve ser usada para políticas claras de proteção da floresta. Um sistema como a Floresta Amazônica é extremamente complexo e se sustenta num equilíbrio delicado que envolve variáveis diversas como distribuição das chuvas em várias escalas (da diária à sazonal e desta à interanual e multidecadal), umidade do solo, hidrologia, composição relativa das espécies no ecossistem, taxas de evapotranspiração e fotossíntese, ciclagem de nutrientes, etc. É evidente que, se ela não fosse resiliente não teria capacidade de adaptação a alterações climáticas globais e regionais como se viu no passado, mas a pressão colocada pelas mudanças atuais são possivelmente inéditas. Elas vão além das alterações no clima propriamente dito, o que inclui um provável aumento de temperatura de vários graus e mudanças no ciclo hidrológico (indo desde um deslocamento na distribuição diária, no sentido de, ao menos em algumas regiões, menos dias sem chuva, mas com precipitação concentrada em eventos extremos, até um possível prolongamento da estação seca, com redução das chuvas na estação de transição). As mudanças climáticas levam a diversos efeitos menos diretos, muitos deles difíceis de quantificar (e, portanto, incluir apropriadamente em modelos climáticos), incluem mortandade diferenciada de espécies para diferentes condições de temperatura e umidade do solo (afetando as interrelações ecossistêmicas), provável aumento significativo da probabilidade de ocorrência de incêndios florestais, aumento de pragas ou favorecimento de parasitas animais ou vegetais que podem crescer sem controle, alterações nos ciclos biogeoquímicos e na hidrologia. A pressão humama em outras vertentes (contaminação ambiental e, claro, a mudança no uso e ocupação do solo, com o desmatamento) também introduz pressões que podem, somadas à mudança do clima global, levar a uma ruptura severa e catastrófica do bioma.

A vida pulsa em cada metro quadrado do chão da floresta. Ou
melhor, em cada metro cúbico, pois sua teia de vida se estende
rumo ao céu. Por ironia, esse estender-se ao céu poderá ser o
ponto frágil da floresta amazônica ante as secas de um planeta
mais quente.
O destino da Amazônia ainda é um tema em aberto na comunidade.  Mas de qualquer modo, um "dieback" da floresta em, consequência das mudanças climáticas e demais intervenções antrópicas, ainda que não seja uma projeção consensual, havendo incertezas importantes sobre o grau de resiliência do bioma, precisa ser levado a sério como algo plausível num cenário de emissões elevadas e/ou continuidade do ritmo de desmatamento. Assim como precisam ser levadas a sério todas as consequências da destruição desse bioma, no que ele representa de estoque de carbono, de teia biodiversa, de fonte direta ou indireta de segurança hídrica, alimentar e energética para nossa sociedade. Assim como precisa ser levada a sério a escolha moral de conduzir (sim, pois é disso que se trata, e não de assistir como se as emissões e o desmatamento não fossem uma escolha coletiva e consciente) mais uma floresta inteira a sucumbir, com todos os seres que ela abriga.

A censura à Ciência do Clima, hoje em dia, é uma mordaça
imposta a um prisioneiro 
condenado.É preciso lutar para que
não nos silenciem.  Para que a floresta não seja silenciada.
A Ciência do Clima tem trazido verdades duras, incovenientes, indigestas; tem revelado como nunca antes a insustentabilidade de um sistema produtivo cuja base é uma matriz energética que trata a atmosfera como uma lata de lixo infinita, atirando bilhões de toneladas de CO2, metano, óxido nitroso e halocarbonetos anualmente. A atmosfera, que é apenas uma película delicada, na qual 95% da massa se concentra em meros 20 km (uma "demão de verniz", se compararmos com os 6400 km de raio da rocha terrestre) já não é a mesma de antes do início da revolução industrial: sua propriedades físicas são outras, seu comportamento é outro. Entender essa mudança de comportamento é essencial para pensarmos nosso futuro e agirmos no presente; é crucial para nós, nos anos que virão; é vital e decisivo para as próximas gerações. Impor restrições à difusão da informação sobre as mudanças climáticas é inadmissível tanto quanto praticar falsificação negacionista. Amordaçar, calar, silenciar, censurar, açaimar a Ciência do Clima é, em tais circunstâncias, um gesto criminoso.

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