domingo, 12 de julho de 2020

O desserviço de "Planeta dos Humanos"

Famigerado site de Fake News da ultradireita dos EUA celebra
"Planet of the Humans" porque ele "desmonta as fraudes da
energia verde da esquerda". E tem razão em celebrá-lo.
"Planet of the Humans" parece ter chegado com mais força ao radar do ambientalismo brasileiro e isso quase me obriga a vencer a inércia de escrever sobre um filme que considero particularmente ruim. O que é preocupante é que, com uma ou outra premissa correta e um ou outro discurso aparentemente radical como "simplesmente trocar combustíveis fosseis por renováveis não irá nos salvar; o foco dos capitalistas é lucro", o que é uma platitude, uma obviedade, ele parece ganhar a atenção de alguns ambientalistas e da esquerda. Mas um olhar minimamente crítico sobre o filme mostra que provavelmente mais sentido ainda faça ele ter sido celebrado, vejam só, no ecossistema da direita negacionista como mostra farta evidência. Neste breve artigo, analisaremos o porquê disso.


quarta-feira, 11 de março de 2020

Compreender o Antropoceno e combater o Capitalismo, para além da terminologia

É cada vez mais evidente a incompatibilidade entre um sistema planetário (clima, biosfera, bioeoquímica) limitado, que funciona à base de fluxos (de matéria e energia) e ciclos (da água, do carbono, do nitrogênio etc.) e um sistema econômico expansionista, em cujo coração estão uma roda insana e crescente de extração-produção-consumo-descarte e a lógica míope da geração, concentração e acumulação de riqueza a curto prazo. Daí, a percepção de parcela cada vez maior da esquerda radical da gravidade e, em decorrência, da centralidade do colapso ecológico tem se ampliado. Isso é positivo, pois é preciso agregar forças sociais, políticas e ideológicas que estejam dispostas a jogar fora toda a água suja (o sistema econômico) a fim de que se salve o bebê (a civilização humana e, no limite, a vida no planeta como a conhecemos).

No entanto, a mistura da empolgação da descoberta da profunda crise ecológica (sim, estreitamente associada ao desenvolvimento capitalista nas últimas décadas) com a tradição de uma certa arrogância, pode trazer efeitos colaterais ruins, dentre eles, embarcar em falsas polêmicas ou em debates pouco produtivos. Um deles é a tentativa de contrapor ao termo "Antropoceno", que veio se consolidando junto às Ciências da Terra especialmente na última década, o termo "Capitaloceno". 

O reconhecimento da existência do "Antropoceno" tem sido construído como consenso científico, inclusive com a constituição de um Grupo de Trabalho de especialistas, conforme relatado pela revista científica Nature. Há vários anos, essa definição vem sendo construída, afinal, para ser aceito como uma subdivisão geológica formal, o Antropoceno precisa ter um "sinal geológico" significativamente grande, claro e distinto. O conceito, porém, transcende o aspecto geológico e tem desdobramentos inclusive para a política. No entanto, negá-lo ou substituí-lo a partir desses desdobramentos é um equívoco em diversos aspectos:

1. A oposição de "Capitaloceno" a "Antropoceno" introduz uma confusão desnecessária na caracterização da estratificação geológica com caracterização sócio-econômica de um modo de produção. Os geólogos, no debate feito ao se estabelecer a necessidade de uma nova época (não era) geológica se baseiam em marcadores com permanência estratigráfica (substâncias estáveis, isótopos estáveis ou isótopos radioativos de vida muito longa, vestígios fósseis etc.).  Queiramos ou não populações animais (humanos e gado, pela abundância) podem deixar fósseis (ou de seus esqueletos ou até de suas pegadas), bem como tecnologias específicas podem deixar resíduos químicos ou físicos (resíduos de plástico e outras substâncias duráveis, plutônio dos testes nucleares e até tecnofósseis como impressões em futuras rochas sedimentares de circuitos integrados ou carcaças de outros equipamentos), mas um sistema econômico não.

2. É um espantalho gigantesco achar que o uso do termo "Antropoceno" implica dizer que todos os "humanos" têm o mesmo peso no desequilíbrio ecológico. Nenhum cientista sério, de qualquer área, afirma isso, pelo contrário. Seguindo a mesma lógica do "Capitaloceno", no limite teríamos então de abandonar os termos "mudanças climáticas antrópicas" e "aquecimento global antrópico" para usar "mudanças climáticas capitalistas" e "aquecimento global capitalista", mas isso significaria a introdução de uma desnecessária polêmica de nomenclatura quando virtualmente todos os cientistas do clima entendem a profunda desigualdade de causa e efeito. "Os ricos respondem pelas emissões, os pobres arcam com os impactos" é algo tão reconhecido pelo conjunto da comunidade que tem servido inclusive como uma motivação moral para muitos desses cientistas se envolverem, com maior ou menor radicalidade, na luta política. O incentivo à radicalização desse entendimento político, a partir do aprofundamento da compreensão da desigualdade intrínseca à crise climática faz muito mais sentido do que uma eventual disputa terminológica. Também mais produtivo e construtivo é defender a comunidade de Ciência do Clima do negacionismo climático e dos movimentos anticiência em geral. Lógica semelhante deveria ser aplicada à comunidade de Geologia que investiga o chamado Antropoceno.

3. Há ainda um debate sobre a demarcação do Antropoceno dentro da Geologia. A maioria do Grupo de Trabalho do Antropoceno defende que o mesmo seja definido a partir da Grande Aceleração (crescimento exponencial de meados do século XX). Mesmo este marco estando fortemente ligado à dinâmica que o capitalismo seguiu, é preciso reconhecer que a GA não é o início do Capitalismo, mas se vincula mais à globalização, financeirização, etc. e nesse caso a inviabilidade/imprecisão/inadequação de definir um "Globaloceno" ou "Finacioceno" dado o que expliquei no item 1 me parece evidente. Mas existem outros cientistas que defendem que o Antropoceno se inicia com as grandes navegações (ou seja, antes do capitalismo propriamente dito) e outros que falam até de um "Antropoceno Precoce" que, no limite, pela vinculação com a Agropecuária, colocaria em xeque até a definição de "Holoceno" como época geológica distinta das anteriores.

4. É preciso reconhecer que, mesmo não sendo razoável para a maioria dos socialistas identificar o Stalinismo com o Socialismo, que parte do processo destrutivo da GA foi impulsionado também por uma economia - expansionista e predatória - cuja caracterização não é exatamente "capitalista" (No limite, não há consenso em torno de que a URSS seria um "Capitalismo de Estado" e há uma série de outras caracterizações, de "Estado Operário Burocratizado" a "Socialismo Real" etc.). Pensemos nos impactos ambientais de Chernobyl, do sobreuso das águas do Mar de Aral e tantos outros... Aliás, o candidato mais forte a marcador do Antropoceno hoje - isótopos de Plutônio e derivados de decaimento radioativo - veio justamente da corrida armamentista entre URSS e EUA. Eu acredito que a maioria dos que fazem a crítica ecológica ao capitalismo reconhece Ecossocialismo como um modo de produção distinto (a partir do próprio coração das forças produtivas) daquilo que se pensava como Socialismo com base industrial no final do século XIX e início do século XX, mas por isso mesmo é preciso entender que a crítica precisa ir além do desastre capitalista. Mesmo um hipotético sistema de propriedade social baseado na indústria e com tendências expansionistas (por exemplo, que emergisse de uma eventual vitória revolucionária na Alemanha e outros países industrializados nos anos 1910) iria produzir, muito provavelmente, um conflito ecológico - senão no mesmo grau, pelo menos do mesmo tipo - com o meio natural, já que o metabolismo de ambos os sistemas seriam muito parecidos. Ao fim e ao cabo, seria muito ruim chamar esse cenário de "Socialoceno".
  
5. Do ponto de vista pragmático, há um risco de uma transposição do termo, pelos cientistas da sociedade para dentro das Ciências da Natureza, criar mais arestas do que pontes, quando o acordo justo é entender o porquê do estabelecimento da nomenclatura e, na análise social, trazer o sentido absolutamente necessário da crítica anticapitalista e da necessidade de superação desse sistema. A ideia de mudar tudo o que foi escrito sobre Crise Climática para "aquecimento global capitalista" traria mais incômodo, pelo sectarismo, arrogância e limitação epistemológica, do que ganho. Podemos ser mais inteligentes e atrair a comunidade de Geologia para uma "crítica anticapitalista do Antropoceno" ao invés de querer que a referida comunidade reformule uma terminologia construída após muitos anos de debate e investigação. Mesmo que o termo "Capitaloceno" estivesse 100% certo do ponto de vista teórico (e esperamos ter mostrado que está longe disso), a falta de capacidade de diálogo com o acúmulo das Ciências da Terra se mostra contraproducente. No limite, a tentativa de enquadrar o desenvolvimento da Geologia na lógica das necessidades da luta política e da ideologia pode levar a um neo-Lysenkoísmo, em que ao invés de uma "Genética Proletária" teríamos uma "Geologia Ecossocialista". Por mais que possa ser recheada de boas intenções, esse tipo de ideia já mostrou historicamente o quanto é nociva e perigosa.

6. Por fim, se lembrarmos a contraposição de Bruno Latour dos "humanos" aos "terranos", o próprio "anthropo" é reconciliado como motor do colapso ecológico (incluindo aí não apenas os capitalistas, mas também os produtores e consumidores que, conscientemente ou não, querendo ou não, são copartícipes da dinâmica predatória). O pensar "capitalocenista" abre um flanco para que se deixe de fazer a disputa necessária junto a um proletariado que precisa não apenas negar a si mesmo como classe explorada, mas fundamentalmente como engrenagem de um sistema predatório. Ao trair o mundo "humano" e aderir ao lado "terrano", é um sujeito que se disporia não apenas a expropriar de seus patrões os poços de petróleo e as minas de carvão e ferro, mas a selá-los e fechá-las. Daí, ao invés de ser uma proposição "mais radical" do que "Antropoceno", "Capitaloceno" corre o risco de ser ao mesmo tempo um termo sectário e superficial, com potencial agitativo entre os círculos que já estão convencidos da necessidade de superação do capitalismo, mas insuficiente tanto como chave interpretativa mais profunda da realidade quanto como elemento de disputa mais amplo na sociedade.

Em suma, dialogar com as Ciências da Terra, entender a profundidade do colapso ecológico, debater alternativas ao sistema econômico vigente e principalmente para recompor o Sistema Terra, recuperando-o da ruptura metabólica, são tarefas urgentes. Nossa energia pode ser muito melhor dedicada a elas se evitarmos falsas polêmicas ou debates contraproducentes.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O Obscurantismo Negacionista no Itamaraty - Parte I - Ernesto e os Extremos

Vocês algum dia imaginaram ser esse lixo paranoico o tipo de
leitura adotado e recomendado por um ministro das relações
exteriores do nosso país? (Print do Twitter de Ernesto Araujo)
Tudo no atual "governo" do Brasil é bizarro. De um ministro do meio ambiente cujo papel é obviamente o de acelerar a devastação ambiental a um ministro da educação que aposta no desmonte do ensino público, de um por um, até, claro, a bizarrice-mor que ocupa a presidência. Mas mesmo em meio a esse circo de horrores, uma figura se destaca, por ser o que melhor expressa o olavismo, o negacionismo climático e a ideologia anticiência em geral. Trata-se de Ernesto Araújo, ocupante do ministério das relações exteriores, uma figura que abraça com força a paranoia das ditas teorias de conspiração e cuja posição sobre a questão climática já antecipamos aqui mesmo, em nosso blog.

A bizarrice do chanceler se espalha em tudo aquilo que ele resolve opinar a respeito. O nível de delírio é tão medonho que ele chega a afirmar que "a esquerda quer uma sociedade onde ninguém nasça, nenhum bebê, muito menos o menino Jesus".  Mas como aqui a nossa praia é mudança climática (diferentemente do novo diretor do INPE), vamos nos deter à nova pérola do chanceler neste tema.

Também por intermédio do Twitter do ministro, fiquei sabendo que ele havia cometido um texto intitulado "Falsas aspas, falsos modelos", o que me motivou a responder também no Twitter, começando na mesma noite, mas se estendendo pelos dois dias seguintes. Resolvi, então, colocar aqui, de maneira sistematizada e melhor estruturada, a resposta ao delirante Ernesto. Vamos lá!



sexta-feira, 26 de julho de 2019

ELES SABIAM: a verdadeira conspiração por trás da questão climática

Cientistas são muitas vezes caricaturados como "malucos" ou
em alguns casos até mesmo como vilões enredados em cons-
pirações globais e para alguns o aquecimento global é uma
farsa montada numa delas (para quê nunca fica muito claro).
Neste artigo vamos mostrar que existe sim uma conspiração
relacionada ao clima, mas bem diferente do que essa narrativa
bizarra desenha.
A rede de computadores anda infestada pelas chamadas “teorias de conspiração”. Muitas delas são apenas histórias sem pé nem cabeça, algumas quase inofensivas, mas outras nem tanto, como é o caso das invencionices do chamado movimento antivacina. Outras são mentiras plantadas com interesses bastante específicos, como o caso de um certo presidente de topete estranho afirmando que “o aquecimento global é uma farsa inventada pelos chineses”.

O problema dessas “teorias” (usado de maneira imprópria, pois nada tem a ver com o uso da palavra nas ciências) é duplo: se as pessoas levam a sério as mentiras, podem ignorar evidências reais ou até militar por causas inexistentes; se dão de ombros para qualquer suposta conspiração, afinal a maior parte é pura invencionice mesmo, podem terminar não dando a devida atenção aos (raríssimos) casos em que uma conspiração (ou algo parecido) realmente exista.

Nestes tempos de vazamento de informações à la Wikileaks e Vaza-Jato, a divulgação de um certo material passou bastante despercebido, mas não deveria. Afinal, ele mostra, como veremos, que a indústria fóssil sabia há muitos anos do risco de caos climático e que o negacionismo climático jamais teve qualquer fundamento em debate científico real; pelo contrário, é uma cria de laboratório dessa mesma indústria, que montou uma enorme fraude - que persiste até hoje - apenas para defender seus interesses. Leiam. Até o fim.

sábado, 8 de junho de 2019

A declaração de guerra do capital contra a natureza. Parte III: Caos climático

A civilização humana é filha de um clima estável. Mas está
arruinando com ele.
A humanidade é filha de um clima particularmente estável, que emergiu há pouco mais de onze mil anos com o encerramento da última glaciação (ou “era do gelo”). (1) Foi a regularidade da chuva, das estações, o comportamento cíclico de plantas e animais, enfim, a previsibilidade do comportamento da natureza que permitiu a mulheres e homens de nossa espécie se estabelecessem em assentamentos fixos, que promovessem domesticação de espécies vegetais e animais e desenvolvessem a agricultura e a pecuária. Daí, vieram as cidades, as civilizações, as sucessivas revoluções industriais, até chegarmos no mundo capitalista globalizado de agora.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

A declaração de guerra do capital contra a natureza. Parte II: Biosfera encurralada

"Em menos de cinco décadas, o mundo assistiu à terrível redução
de 60% nas populações silvestres de vertebrados, levando incontá-
veis espécies à ameaça de extinção ou à sua extinção efetivamente."
O capitalismo requer cada vez mais território a fim de suprir a demanda crescente de matéria e energia necessária para sua reprodução ampliada. A ocupação de terras para atividades humanas, seja a mineração, a instalação de cidades, infraestruturas que incluem estradas, barragens etc. ou principalmente áreas para agropecuária, vem encurralando a biosfera terrestre contra a parede.

Globalmente, essa ocupação territorial tem sido responsável por um verdadeiro encolhimento da vida silvestre. Hoje, existem 51 milhões de quilômetros quadrados de terra “domesticada”, contra 39 milhões de quilômetros quadrados de florestas. Para citar o exemplo mais próximo, em menos de cinco décadas, o Brasil perdeu mais de 20% da Amazônia e impressionantes 50% do cerrado (1). Sim, o mesmo agro, que assassina indígenas e sem-terra, que financia esquemas de corrupção, que se apropria da água para irrigação, que envenena o alimento e ajuda a bancar a radicalização à direita da política do País, é a maior ameaça à biodiversidade, riqueza impossível de se traduzir em dinheiro.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

A declaração de guerra do capital contra a natureza. Parte I: A Grande Aceleração

"A característica fundamental da Grande Aceleração é colocar
o Sistema Terra para além dos seus limites. É uma declaração
de guerra à natureza."
O capitalismo é um sistema econômico eminentemente expansionista. O crescimento é uma condição necessária do seu funcionamento e existência, à medida em que a lógica, desvendada por Marx no século XIX, é usar o dinheiro para ganhar mais e mais dinheiro, às custas da exploração da força de trabalho e da espoliação da natureza.

Uma contradição inevitável desse sistema é a acumulação de riqueza nas mãos de um punhado cada vez menor de capitalistas ao lado da exclusão de amplas massas da riqueza produzida a partir de seu próprio trabalho. Mas o que não era evidente há um século e meio é que além dessa contradição interna, o sistema capitalista rapidamente faria emergir, com toda força, uma outra, ainda mais incontornável: o seu antagonismo com o próprio “Sistema Terra” [1].

O desserviço de "Planeta dos Humanos"

Famigerado site de Fake News da ultradireita dos EUA celebra "Planet of the Humans" porque ele "desmonta as fraudes da e...

Mais populares este mês