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Apesar do "pum" emblemático, a maior parte do metano produzido pelos rumi- nantes sai mesmo é pela boca... |
É esse aspecto que faz com que - exclusivamente do ponto de vista climático, sem incluir ainda outros aspectos socioambientais - a carne bovina seja provavelmente a pior escolha possível como fonte protéica. Unindo dados da FAO com informações da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCAUSP), chega-se à conclusão de que ela é disparadamente a mais carbointensiva.
A MAIOR PEGADA DE CARBONO
A figura ao lado mostra as emissões relativas (em kg/kg ou quilogramas de CO2-equivalente por quilograma de proteína) para diversos alimentos. Sem desmatamento, a soja aparece como uma fonte protéica de baixo carbono (1,3 kg/kg), mas é evidente que no pior cenário, isto é, aquele em que florestas têm sido derrubadas para dar lugar à plantação de soja (alguém teria alguma pista de onde isso ocorre?), o cenário muda e passam a ser emitidos quase 39 kg de CO2-equivalente por kg de soja produzido. Nessa situação, a soja rivaliza com o leite de gado bovino (36 kg/kg) e seus derivados como o queijo (41 kg/kg) e supera inclusive as emissões de algumas fontes proteicas animais, como o ovo (15 kg/kg) e as carnes de frango (14 kg/kg), salmão de criatório (20 kg/kg, obviamente muito maiores do que a do pescado em geral que é praticamente neutro em carbono, mas que obviamente tem outros limites ambientais) e porco (23 kg/kg). Claro, é fundamental tomar cuidado para não cair em falácias. Por conta dessas elevadas emissões da soja quando sua produção se associa ao desmatamento, alguém poderia se apressar e dizer que uma dieta vegana/vegetariana ou com menos carnes não faria muita diferença para o clima, mas isso não é verdade, até porque boa parte da expansão da soja se deve precisamente ao aumento da demanda por ração para animais.
Mas é evidente que não há qualquer comparação possível com a carne bovina no que diz respeito à "carbointensidade", isto é, às emissões de CO2-equivalente (a maioria, na verdade, vindo do metano da fermentação entérica). Para produzir um único quilo de carne são emitidos 16 kg de CO2e, o que nos dá, para valores típicos da quantidade de proteína nela contida, nada menos do que 83 kg de CO2e para cada kg de proteína de carne bovina. Daí, o que se espera se o atual nível de consumo de carne bovina de países como o Brasil e os EUA (para não falar de Argentina e Uruguai) for generalizado mundo afora? Usando como base de dados as informações da OECD-FAO acessíveis neste link, conclui-se que se o consumo do argentino médio, de cerca de 41,6 kg de carne bovina por ano for estendido a 7,3 bilhões de pessoas, teríamos nada menos do que emissões da ordem de 4,9 GtCO2e por ano só do gado de corte. Não só é evidente que esse consumo não pode crescer, como é fácil perceber que ele precisaria diminuir mesmo que o único impacto da produção de carne bovina fosse sobre o clima, afinal, dentre as fontes tradicionais de proteína, é da carne bovina a maior pegada de carbono.
A MAIOR PEGADA HÍDRICA, ETC.
... "Ele precisaria diminuir mesmo que o único impacto da produção de carne bovina fosse sobre o clima". O ponto é que não é. Os impactos da pecuária, especialmente a bovina, são amplos, e alguns deles também contribuem para alimentar a crise climática, além, é claro, das emissões.
Comecemos pelo uso de água. Há dados relativamente divergentes e uma variabilidade no uso de água para a pecuária ao redor do mundo, mas o que é apresentado por este artigo no site da waterfootprint.org é uma média de mais de 15 mil litros de água para produzir um único quilograma de carne bovina, o que inclui todo o processo de "pegada hídrica", da dessedentação animal à irrigação do pasto e a todos os passos na "cadeia produtiva". Isso é o o dobro da pegada hídrica até mesmo de outros ruminantes, 3 a 4 vezes maior do que o frango e, claro, muitas vezes maior do que a pegada hídrica da produção de vegetais (segundo a mesma referência, 9 vezes maior do que a de cereais e 16 vezes a de frutas). Num contexto em que há evidências de que estamos utilizando água doce (especialmente para irrigação e, em segundo lugar, para fins industriais) numa escala acima daquela capaz de ser sustentada pelo ciclo hidrológico, é evidente que as atividades mais hidrointensivas aumentam precisamente a vulnerabilidade diante das alterações que este mesmo ciclo tende a sofrer face às mudanças climáticas, particularmente o agravamento das secas e o prolongamento dos períodos de estiagem.
Acrescente-se a destruição de biomas, fundamentais pela biodiversidade, pelo estoque de carbono e pela regulação que estes oferecem para o clima regional e a disponibilidade de água. Como coloca de forma nítida e direta um relatório da FAO, "durante os anos 1990, a porção do globo coberta por floretas encolheu cerca de 94 mil quilômetros quadrados por ano, uma área aproximadamente do tamanho de Portugal". Grande parte desse processo se deu justamente no Brasil, dizimando o cerrado e invadindo a Amazônia, como abordaremos num artigo seguinte e disparando uma série de conflitos territoriais, com o empoderamento dos ruralistas ameaçando pequenos proprietários, trabalhadores sem-terra, comunidades tradicionais e povos indígenas. Há também indícios de que o pisoteio de animais provoca compactação do solo, o que reduz a própria produtividade agrícola e pode dificultar a recuperação de áreas degradadas.
CHURRASCO DE PLANETA, CHURRASCO DE BRASIL
Sim, o churrasco nosso de cada dia, a cada dia contribui para fazer deste nosso planeta, um grande churrasco. E o Brasil é o exemplo mais preciso da insustentabilidade de uma alimentação baseada no rebanho bovino, especialmente de corte (como vimos, a proporção de emissões de CO2 equivalente por unidade de proteína até mesmo em relação ao leite é pior do que 2 para 1 até mesmo em relação ao leite e derivados).
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Emissões brasileiras ligadas direta ou indiretamente à agropecuária. Fonte: SEEG |
Mas só se tem noção exata do impacto da agropecuária nas emissões brasileiras se fizermos dois movimentos: de um lado, ao agruparmos o conjunto delas, não apenas as emissões diretas, mas também a mudança no uso do solo, o uso de combustíveis fósseis na agropecuária e os resíduos da agroindústria (duas contribuições relativamente pequenas, pelo menos ainda). Neste caso (ainda excluindo a industrialização e o transporte de alimentos!), chegamos a nada menos que 982 MtCO2e, nada menos do que 63% das emissões brasileiras. Do outro, se desagregarmos as emissões diretas nos diversos subsetores e fontes emissoras.
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Detalhamento das emissões diretas da agropecuária no Brasil, por subsetor e por fonte emissora. Fonte: SEEG |
E aí, nesse detalhamento é que emerge novamente o enorme peso (literal e figurado) do rebanho bovino. Nada menos que 57% das emissões da agropecuária são provenientes da fermentação entérica o que, somados aos 36% advindos de solos agrícolas, responde pelo "grosso" das emissões. Algo que se percebe de imediato é que no Brasil a agropecuária tem um peso maior nas emissões do que no globo (27% contra 10-12%) e que a fermentação entérica tem um peso maior nas emissões da agropecuária brasileira do que no restante do mundo (57% contra 32-40%).
É importante frisar ainda que o maior naco das emissões de solos agrícolas está associada precisamente ao pasto. Daí, quando olhamos as fontes emissoras, salta aos olhos uma realidade incômoda: fora o desmatamento, somente o gado de corte responde por 267 MtCO2e, ou 64% das emissões da agropecuária brasileira. Mais: isto é 17,1% de todas as emissões brasileiras, 25,7% mais do que as emissões do setor de transporte de cargas e passageiros no Brasil, incluindo todos os modais, mais de 4 vezes o que é emitido pela frota de automóveis particulares e quase 12 vezes o emitido pela frota de ônibus. Equivale a cinco vezes e meia as emissões do lixo e resíduos que, no Brasil, por conta dos lixões e do atraso em aplicar a própria legislação sobre resíduos, são bastante altas comparadas às de outros países. E se acrescentarmos as emissões do gado leiteiro, chega-se a 317 MtCO2e, 76% das emissões da agropecuária ou nada menos do que um quinto das emissões do país.
CORTAR A CARNE OU CORTAR EMISSÕES?
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Cabeças de gado por estado brasileiro da Amazônia legal e por unidade administrativa no Peru e Bolívia. Fonte: WWF |
Seja o gado ou a soja o maior agente do desmatamento no presente, esse processo precisa ser estancado. Zerando o desmatamento, o Brasil ficaria livre de 542 MtCO2e em emissões. Mesmo que não se abandone a pecuária como atividade, simplesmente substituindo a produção de carne bovina (que fornece 83 kg de CO2e para cada kg de proteína, como mostramos no artigo anterior) por um “mix” de outras fontes proteicas (ovos, queijo, leite, frango, soja, peixes, porco), 2/3 dos 267 MtCO2e associadas ao gado de corte, ou seja, 178 MtCO2e também podem e devem ser eliminados.
Façamos as contas: 542 + 178 = 720 MtCO2e, ou 46.2% das emissões brasileiras atuais. Reduzindo as emissões brasileiras dos atuais 1558 para 838 MtCO2e equivaleria a um corte de 64% em relação a 2005, fora o que pode/deve ser cortado em energia, transporte, resíduos... Lembram quando dissemos que as metas de Dilma eram muito tímidas diante das possibilidades reais do Brasil? Por que a meta brasileira de redução de emissões é de meros 43% em 2030 relativamente a 2005?
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Para que o Brasil seja sério no corte das emissões, é preciso que se cortem os laços do poder público com o agronegócio. Este, por sinal, ao mesmo tempo em que banca o negacionismo climático (de Aldo Rebelo a Molion), se beneficia de pesquisas da Embrapa de desenvolvimento de cultivares com maiores chances de se adap- tarem aos rigores de um clima mais aquecido. Conveniente, não? |
A mínima ousadia em cortar emissões, porém, implica em cortar os lucros do agronegócio brasileiro e, claro, cortar a aliança ora estabelecida entre os sucessivos governos e esse segmento econômico, que se empoderou sobremaneira nos últimos anos, ganhando espaço no Congresso Nacional e roubando espaço (e vida) dos povos indígenas em conflitos sangrentos no Brasil Central e na Amazônia. Sem tocar nos interesses econômicos do agronegócio, a tendência é que as metas de redução da emissões brasileiras continuem sendo insuficientes e até mesmo que, na sua timidez, sequer sejam cumpridas.
DE FRIBOI A FREE BOI?
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É preciso que tenhamos coragem para fazer a transição de Friboi a Free Cow |
Como coloquei no artigo passado, precisamos começar por algum lugar. Ou melhor, pelo fato de termos postergado tanto e, pior, por termos agravado tanto a crise climática, a reescrita do futuro, em que o sistema climático terrestre, a biota deste planeta e a nossa própria espécie, sejam protegidos, demanda de nós que comecemos, já, por mais de um lugar. Um deles é desarmar a primeira bomba de carbono, abandonando os combustíveis fósseis, o que temos debatido com muita frequência em nosso blog. O outro é desarmar a segunda bomba de carbono, revolucionando a alimentação, a começar por sua parte mais "explosiva", ou melhor, pela sua parte mais emissora: a fermentação entérica. Detalhe: o tempo de residência do metano, relativamente curto em relação ao do CO2 (que permanece por um período mais longo na atmosfera) nesse caso joga a nosso favor. E é possível que ainda nos seja permitido fazer essa transição de modo suave, gradual, pois a resposta positiva para o clima seria relativamente rápida.
Há, nesse processo de ajustar nossa produção de alimentos a um sistema de baixo carbono, uma sinergia com outros aspectos relativos à nossa dieta. Racionalmente falando, num sistema em que a terra dedicada para pasto que alimenta animais e para grãos que alimentam animais para que estes se transformem em alimento humano, há, obviamente uma enorme perda de matéria e energia. É o que acontece a cada degrau trófico que se acrescenta, obedecendo à lei mais geral de crescimento da entropia: a energia, embora se conserve, tende a se redistribuir em formas "menos organizadas". Coletar calorias, proteínas, enfim, matéria e energia em um nível trófico mais baixo é, por si só, mais eficiente. E como coloquei no texto que a este precede, não estou advogando um salto - via doutrinarismo - a uma dieta geral vegana, mas indicando aspectos objetivos que só podem nos levar à conclusão racional da necessidade de reduzir a importância dos produtos animais em nossa dieta, especialmente daquele que produz o maior encadeamento de impactos e que é disparadamente mais desastroso do ponto de vista climático. O dono dessa carne - e não me refiro obviamente aos sócios-proprietários da JBS-Friboi - agradece.
Após ter um câncer colo retal de estágio 3 no ano passado nunca mais comi carne vermelha. Não está me fazendo a menor falta.
ResponderExcluirCertamente não faz. Meu consumo de carne agora se resume a peixe, mariscos e crustáceos e várias de minhas refeições agora são vegetarianas ou veganas. Agradeço a visita ao blog e espero que estejas se recuperando bem. Abraços.
ExcluirEu tbm tenho abolido carnes...e por esse único motivo - mudar é preciso e deve começar por nós! menos carne e menos CO2 e consequentemente mais vida pra todos/as. Erivan
ResponderExcluirExcelente teu blog, Alexandre. Parabéns.
ResponderExcluirInfelizmente o povo "eu" vamos morrer e levar o planeta junto dentro de uma churrascaria.
ResponderExcluirInfelizmente o povo "eu" vamos morrer e levar o planeta junto dentro de uma churrascaria.
ResponderExcluirOlá Alexandre, nunca comentei, mas o blog é leitura obrigatória, Sempre uma porrada no estômago
ResponderExcluirNeste caso, "porrada no estômago" quase literalmente :-)
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