Confissão

Tenho uma confissão a fazer. Nessa história toda de aquecimento global, estamos vivendo uma enorme farsa. Mentiras de todo lado. Falsificação de informações. A coisa é feia, feia mesmo... Chega a ser vergonhoso. Fico impressionado como as pessoas acreditam em determinadas coisas... Sim, tenho uma confissão a fazer... uma grande confissão...

Você sabe... Nós, cientistas do clima estamos envolvidos numa conspiração mundial. Dela fazem parte, além do IPCC e de toda nossa comunidade científica, os Illuminati da Baviera [1] e os cavaleiros da "nova ordem mundial" [2], a ONU, governos dos países desenvolvidos, o Al Gore, e as companhias que produzem aerogeradores e painéis solares.


Nossa conspiração conseguiu recrutar todos os analistas de sistemas que cuidam dos bancos de dados climatológicos e dos modelos computacionais para forjar informações. Antes mesmo de esses bancos de dados existirem, à nossa ideologia já haviam sido convertidos os fabricantes de processadores. Por uma alteração interna nos circuitos integrados, todos os processadores de todas as gerações de super-computadores estavam, estão e estarão predestinados a sempre calcular erroneamente previsões de temperatura, antevendo, do nada, um planeta mais quente para o futuro. Como isto é feito, ao mesmo tempo em que tais computadores dão precisão de várias casas decimais para outras tarefas, como simulações para a engenharia aeronáutica e das propriedades de materiais, eu não sei, mas certamente nossos "comrades" infiltrados na Intel saberiam responder a tal questionamento... Mas não para aí! Antes mesmo de os computadores que armazenam os dados do clima e em que os modelos climáticos "rodam" existirem, os observadores meteorológicos, no passado, anotavam valores de temperatura ligeiramente abaixo da realidade, para dar a impressão, no futuro, de que o planeta estaria aquecendo. Estes também, desde o século XIX, estão envolvidos, cada um, cada um...



As estações convencionais, nas quais os observadores tinham de checar manualmente os dados de termômetros e barômetros e anemômetros foram dando lugar a estações automáticas. Mas isto não nos trouxe problemas, pois soubemos agir rapidamente. Também estão do nosso lado os fabricantes dos sensores meteorológicos instalados não só nessas novas estações de superfície como lançados em radiossondas. Se você ainda não percebeu o tamanho disso tudo, saiba que a conspiração é antiga, já contando com Galileo e seu termômetro de água e, dois séculos depois, com Fahrenheit e seu termômetro de mercúrio! Dela também participam as agências espaciais, que lançam sensores de radiação infravermelho a bordo de satélites, que produzem dados falsos, exatamente do jeitinho que precisamos. Mesmo que você coletasse os dados por você mesmo e os anotasse, chegaria ao mesmo resultado. Como foi tolo o físico de Berkeley, Richard Muller, que, cético, duvidando dos nossos dados, consumiu tempo e recursos (da indústria fóssil, inclusive), reuniu dados de mais estações do que nossos corruptos institutos (você sabe, a NASA, a NOAA, o Hadley Centre inglês...), para chegar aos mesmíssimos resultados. Estava tudo amarradinho desde o começo...

Richard Muller, do projeto BEST
(http://berkeleyearth.org/)

Antes que você venha a fazer objeção ao desmonte da farsa que estou a expor, apresentando testemunhos paleoclimáticos, aviso: isso também já havia sido resolvido antes! Tivemos de contar com a cooperação de extraterrestres, viajantes do tempo e antepassados da espécie humana. Estes adicionaram CO2, CH4, poeira, Deutério e Oxigênio-18 ao gelo da Antártica, mudaram minuciosamente a proporção de Estrôncio e Cálcio em corais e modificavam sincronizadamente a saturação das alquenonas no sedimento marinho durante centenas de milhares de anos. Um trabalho artesanal, paciente, meticuloso. Quando algo dava errado e algum testemunho paleoclimático não ficava sincronizado com outro, tínhamos um "backup"... Nossa equipe especializada em falsificar a datação. Tínhamos sempre um ajuste prontinho para fazer na quantidade de Carbono 14 para alguns mais recentes e de Urânio e Tório para outros mais antigos. Claro, você sabe como os anéis de árvore revelam aquele irreal "taco de hockey"? As árvores eram alimentadas na medida certa desde a Idade Média, a fim de dar a impressão de um período quente então, seguido de resfriamento e, depois, de um aquecimento acelerado. Mas nada disso existe na realidade... Você não tem mesmo idéia de quão articulada é a mente por trás disso tudo, ao pensar em cada mínimo detalhe...



Também contamos com a solidariedade irrestrita de membros nossos que modificaram espectrômetros de massa, balanças analíticas de alta precisão e um monte de equipamentos de laboratório. Achavam que iriam escapar coletando independentemente alguma dessas amostras de corais, gelo ou espeleotemas e tentar fazer alguma pesquisa independente? Impossível, meu caro, impossível.

O mais importante, porém, é a enorme lealdade interna de nossa sociedade secreta. Como eu, muitos já tentaram revelar a verdade e seus computadores (hoje), cartas (antes) e pergaminhos (antes ainda) foram sempre devidamente interceptados. Nenhum dado independente coletado jamais conseguiu furar nosso bloqueio. Controlamos cada periódico científico do planeta com punho de ferro! Se você está lendo esta postagem neste blog, deve imaginar a gravidade da falha de segurança que nossa sociedade atravessou momentaneamente e o risco que corro!

Perceberam, enfim, como somos poderosos? O objetivo final era enganar vocês, para ao mesmo tempo sabotarmos o crescimento da economia mundial, podermos obter mais verbas para nossos laboratórios e meia dúzia de empresas venderem uns "moinhos de vento"... Quixote, Quixote!

[1] Sociedade secreta de Iluministas do século XVIII
[2] Termo surgido com a queda da União Soviética, que se referia ao fim da bipolaridade entre o bloco capitalista, liderado pelos EUA e o dos Estados burocráticos, com a URSS à frente.

Comentário final: Evidentemente, o texto é uma grande ironia. Só uma parte é exata: há uma enorme farsa; há mentiras de todo lado; há falsificação de informações. A coisa é realmente feia, feia e, no meu ponto de vista, vergonhoso não é adjetivo suficiente para descrever a (im)postura de meia dúzia de indivíduos do meio acadêmico (no Brasil, pessoas como Ricardo Felício e Luiz Carlos Molion). Estes, seja por qual motivo torpe (vaidade, interesse econômico, opção ideológica ou pura e simples irresponsabilidade) simplesmente violentam o método científico e agem no sentido de confundir a opinião pública. Sequer tem o pudor de, para atingir quaisquer que sejam seus objetivos (ganhar destaque na mídia para alimentar o ego, blindar o agronegócio e/ou a indústria fóssil ou motivos ainda mais banais ou prosaicos), promover acusações mentirosas contra colegas e semear o descrédito das instituições acadêmicas e da própria Ciência, quando já vivemos uma conjuntura de tanto obscurantismo e esta, a Ciência, deveria ser defendida e preservada. 

Por fim, devo dizer: a confissão que tenho a fazer é que realmente não sei como as pessoas acreditam em determinadas coisas. Uma delas é no tipo de teoria da conspiração vendida pelos negadores das mudanças climáticas. Se é para se pensar em algum tipo de conspiração, faz ou não faz bem mais sentido que o poderoso lobby da indústria fóssil (11 das 12... lembram?) simplesmente use uma parcela pequena de seus lucros indecentes para cooptar um punhado de supostos especialistas, manipular os meios de comunicação e comprar políticos a fim de proteger seus interesses? Somente o maior gigante petroquímico planetário, a Shell, movimenta quase meio trilhão de dólares anualmente. Projetos de pesquisa - eu e meus colegas sabemos disso - raramente são multimilionários. Mesmo quando um de nós consegue trazer "um milhão de dólares" (como anunciava o Dr. Evil) para seu laboratório, isso é simplesmente insignificante (0,0002% do que movimenta uma grande empresa do ramo de petróleo). 

"Um MILHÃO de dólares"
Segundo a Revista Science, o investimento global em pesquisa em 2011 chegou a 1,1 trilhão de dólares. Parece muito, mas isso é para todas as áreas do conhecimento humano (qual será, nesse contexto, a fatia que cabe à Ciência do Clima, que conta com uma comunidade pequena e bem menos recursos do que os vários ramos da Medicina, a Química Fina, a Engenharia de Materiais, etc.?). Por outro lado, a soma do faturamento conjunto da Shell, Exxon e BP ultrapassa 1,3 trilhão de dólares, equivalente ao PIB da Espanha. Se adicionarmos Chevron, Sinopec, China Petroleum, Conoco-Phillips e Total (todas do ramo do petróleo), passamos de 2,7 trilhões de dólares (acima do 5° PIB mundial, da França). Agregando as gigantes das termelétricas a carvão e gás (na China e Rússia respectivamente) State Grid e Gazprom mais a Toyota, a Volkswagen e a GM (apenas as três maiores gigantes do setor automobilístico) agrega-se mais 1 trilhão e, nas mãos de somente 13 empresas do ramo de combustíveis fósseis e automobilístico, ultrapassa-se o PIB alemão (o 4° maior do mundo). Quem é o Dr. Evil nessa história afinal, "baby"? 

Comentários

  1. Eu sempre imaginava uma irmandade secreta, no estilo dos livros do Dan Brown, forjando os dados desde o século XIX. A tua máquina do tempo deixou a explicação bem mais simples. E seguindo o princípio da Navalha de Occam... rs...

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    1. Pois é, Alexandre. As teorias conspiratórias que os negadores são tão absurdas que basta puxar um pouquinho o fio do novelo para se ver o tamanho do desparate. Mas falta responder a uma pergunta... Por que passamos anos, décadas, séculos, milênios conspirando para, enfim, tomar de assalto o mundo AGORA, e não há dois séculos ou 50 anos atrás ou por que não daqui a 100 anos... Groovy, baby!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Nessa vc se ferrou, Alexandre! Duvido que a maioria vá ler até a "placa de advertência" - "Atenção: isso é uma ironia"!
    E, sem a advertência, muitos acreditarão na confissão.
    Antevejo a manchete conservadora sensacionalista: "Cientista do Clima revela conspiração para promover a farsa do aquecimento global!"

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    1. Calma, Jair! Ainda há vida inteligente neste planeta! Como falei para você no Facebook, por um triz eu deixava o texto sem explicar a ironia, mas atentei para a possibilidade de alguns não se aperceberem dela. Daí, coloquei a figurinha do começo e desfiz a teoria conspiratória ao final (a intenção inicial era, inclusive, de colocar um comentário bem breve, do tipo "Contém ironia, em doses cavalares", mas resolvi, no fim, explicar tudo direitinho).

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  4. Olá professor,

    Depois que anunciou o blog na comunidade, passei a acompanhar suas postagens.

    Então surgiram algumas dúvidas, já que me parece que o debate é mais político do que climático.

    Tive a seguinte impressão: Aquecimento global esquerda x Céticos do aquecimento global direita.

    Caso realmente assim seja, por que há tantos trabalhos de aquecimento global voltados ao agronegócio?

    Outra questão está relacionada ao REDD e aos danos que está causando às comunidades indígenas. http://www.funai.gov.br/ultimas/noticias/2012/03_mar/PDF/Esclarecimentos-REDD.pdf

    Resumindo, o obscurantismo não pode estar dos dois lados? Já que vivemos em um sistema capitalista, ele não pode se beneficiar com os dois lados?

    Abraços!


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  5. Caro visitante,

    Precisamos saber separar as coisas. As propriedades físicas do CO2, o efeito estufa e o aquecimento do sistema climático terrestre não são uma questão ideológica. São fatos científicos, tão robustos quanto a Gravitação Universal e quanto o fato de a Terra orbitar o Sol; tão verificados quanto a evolução das espécies e mais evidentes do que os malefícios do consumo de tabaco. A esse respeito, só cabe aceitar a realidade. Como ela é.

    A questão ideológica entra noutro momento. Ao se constatar que o aquecimento global está sendo causado pelos gases de efeito estufa emitido nas atividades humanas, se é obrigado a igualmente aceitar que são necessárias mudanças em nossa economia e sociedade, na geração de energia e nos transportes, em nossos costumes, no consumo e na produção de bens. Ora, que segmento político-ideológico é mais afeito a mudanças sócio-econômicas? Que segmento tende a rejeitá-las? Se você respondeu "esquerda" no primeiro caso e "direita" no segundo, isto não quer dizer que os cientistas sejam todos de esquerda. Também não significa que todas as pessoas de esquerda aceitem a realidade do aquecimento global, apesar de haver movimentos sociais (de povos tradicionais, de agricultores, pescadores, habitantes de países insulares, etc) que articulam uma luta por transformação social e "Justiça Climática". Bem, mas o inverso também vale e há pessoas "de direita" que entendem que CO2 é CO2 e ponto final. Tanto é que existem propostas de mitigação das mudanças climáticas que têm viés claramente pró-mercado e pró-capitalista.

    Existe uma e somente uma teoria científica no que diz respeito ao clima terrestre e suas mudanças. Mas faz parte do que se conhece, em Psicologia, como "estado de negação", fugir da realidade e não agir conforme um mundo real que entre em conflito com as crenças e desejos pessoais. Acontece muito. Mas aí está no terreno das Ciências Humanas...

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  6. Oi Professor, muito esclarecedora a resposta! Obrigada!

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  7. Essa identificação de esquerda com ambientalismo e direita com negadores do aquecimento é incorreta, e embaralha a opinião pública.

    Como o Alexandre falou, uma coisa é a realidade física, verificável e verificada. Outra coisa é a resposta que os seres humanos podem escolher dar a esse problema.

    Talvez essa polarização política tenha sido originada nos EUA, em que os Democratas seguiram Al Gore, e os Republicanos se alinharam com Bush e sua intimidade com a indústria do petróleo. Lá, aceitar as propriedades óticas do CO2 é questão política.


    Nos EUA, há quem diga que o aquecimento é uma farsa inventada para prejudicá-los. Nos países subdesenvolvidos, há alegaçòes parecidas. No fim, é paranóia política entravando informação e ação públicas.

    De fato, algumas instituições de extrema direita têm se empenhado em confundir o público - por motivos certamente econômicos. Mas a ciência não tem ideologia. E ainda não estou convencido que alguma ideologia política, em si, tenha vantagem clara quanto às políticas de mitigação.

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