quinta-feira, 23 de julho de 2015

Shell no Ártico: quem é o cerne do problema nunca será "parte da solução"!

Início da carta das petroquímicas à UNFCCC e à COP21. O
documento diz "Estamos prontas a fazermos nossa parte"...
Como? A resposta, logo abaixo, é "aumentando a fatia do
gás natural em nossa produção" (o que envolve, em outras
coisas, o famigerado "fracking").
Há poucos meses, a Shell assinou (com toda a demagogia que tem direito) uma carta endereçada a Christiana Figueres, Secretária Geral da Convenção-Quadro da ONU para Mudanças Climáticas e Laurent Fabius, Presidente da COP21. Nessa carta, ela e outras companhias, incluindo a BP, reconhecem que a crise climática é real: "entendemos que a tendência atual das emissões de gases de efeito estufa está acima daquilo que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) afirma ser necessário para limitar o aumento de temperatura a não mais do que 2 graus acima dos níveis pré-industriais". O texto surpreende pelas manifestações de aparente boa vontade, como "estamos prontos para fazer a nossa parte" e " manifestavam seu desejo de "queremos ser parte da solução" que chegam - vindas de onde vieram - a soar completamente falsas. Chega a admitir a necessidade de um "preço sobre as emissões de carbono".

Mas dizem por aí que a prática é o critério da verdade e, especialmente no caso da Shell, a contradição entre o dito e o feito é um abismo.



A Shell tem enviado equipamentos, inclusive uma gigantesca plataforma de extração de petróleo para o Ártico. Apesar da resistência do movimento ambientalista, com ativistas tendo se prendido à âncora do navio de apoio da operação (o "Arctic Challenger") e outros, em caiaques, tendo bloqueado, antes da chegada da guarda marinha, a partida da plataforma de Seattle para seu destino final, ao norte.

Ora, a política da Shell, de extrair petróleo no Ártico contradiz duplamente qualquer lógica de quem "quer fazer a sua parte" e deseja ser "parte da solução" da crise climática. Primeiro porque a aposta da viabilidade econômica de se explorar petróleo no Ártico depende de uma maior acessibilidade à região e principalmente da possibilidade de abertura da passagem-norte, o que reduziria em muito os custos em transportar o petróleo e o gás extraídos, como já mostramos em artigo anterior. Segundo porque o simples fato de explorar novas reservas fósseis já está em flagrante conflito com a primeiríssima frase da carta à UNFCCC e COP21 ("A mudança climática é um desafio crítico para o nosso mundo"). É no mínimo uma afronta fazê-lo numa região particularmente sensível ao aquecimento global apostando que o degelo acelerado, ao mesmo tempo em que desmantela o ecossistema, facilite as operações da própria Shell e de outras companhias de rapina lá presentes!

Coerência com o discurso, zero. Com a lógica do lucro, total (Total, BP, Statoil...).

Mas é evidente que não é apenas a Shell que contradisse completamente o discurso de "petroquímica boazinha que quer ser fazer sua parte". O vexame maior mesmo ficou por conta de Barack Obama, que aos poucos foi cedendo, até conceder autorização para a gigante anglo-holandesa partir para a sua desventura no Ártico.

Poucos meses antes, Obama havia chegado ao ponto de chamar um comediante para dar um tom mais teatral e chamar atenção para uma crítica dura ao negacionismo climático (muito forte em meio aos rivais do Partido Republicano). Isso deu a entender a muitas pessoas que finalmente, no apagar de luzes do seu segundo mandato, Obama incorporaria o valente defensor do clima que tanto se esperou. Ledo engano: a comédia virou tragédia e a tragédia virou farsa.

Houve uma inversão óbvia de cronograma, pois a Shell começou a transportar material para montar sua operação ecocida antes de obter o "OK". Isto mostrava que a companhia estava exercendo forte pressão para conseguir os endossos do presidente dos EUA, mas independente disso consideramos que a postura de Obama foi injustificável. Há algumas restrições de exploração no momento (condicionantes que a Shell quer superar logo para jogar-se vorazmente na perfuração rumo às reservas de óleo polares), como aponta matéria do New York Times, mas alertas como o de Andrew Sharpless, da ONG Oceana, são claros: "a Shell não está preparada para operar com segurança no Oceano Ártico, onde o mau tempo, a escuridão e o gelo flutuante aumentam os riscos de acidente, não havendo prova de que ela seja capaz de limpar o óleo de um vazamento". E ele sentencia: "A aprovação por parte do governo dessa operação da Shell é um acinte ao bom senso".

Contente com a decisão, além claro dos executivos da Shell, ficaram os republicanos, a começar pela senadora pelo Alaska, Lisa Murkowski, que preside a Comissão de Energia e Recursos Naturais do Senado. Pelo twitter, ela se diz "animada" após visitar pessoalmente a plataforma da Shell quando esta ainda estava em Seattle e ao NYT declarou que o "OK" de Obama era uma "boa notícia para o Alaska e para o país". Independente do grau de constrangimento que isso possa ter trazido a Obama, o fato é que a alegria dessa escória é diretamente proporcional ao aumento dos riscos ambientais e ao agravamento da crise climática.

Sim, pois qualquer gota de petróleo extraída e queimada, lançada na atmosfera na forma de CO2, conta, hoje em dia. Precisaríamos estar numa corrida contra o tempo, para impedirmos que as temperaturas globais ultrapassem 2°C a mais do que o período pré-industrial, limite já considerado por muitos especialistas, como James Hansen, perigoso demais para ser tomado como meta.
Obama: onde está a conexão entre o
discurso em defesa do clima e os atos
governamentais?

E para ampliar o abismo entre o discurso e a prática de Obama (assim como de outros governantes), lembramos do que foi declarado por ele e seus colegas de G7 também recentemente: que o tão mencionado limite de 2°C não poderia ser ultrapassado. Mas, claro, a coerência que existe é com esse abismo e, do ponto de vista prático, nada significativo foi acertado na cúpula do G7, nem mesmo o fechamento de uma única termelétrica a carvão.

Mais do que isso, lembremos que as metas voluntárias de cortes de emissões, expressas nos INDCs (Intended Nationally Determined Contributions) estão claramente aquém do necessário segundo a Carbontracker, entre as consideradas "inadequadas", isto é, muito abaixo (casos da Rússia, Canadá e Japão, estes dois últimos integrantes do G7!) ou "médias", isto é, marginalmente abaixo do necessário (como as da União Europeia, dos EUA e da China - no caso desta última, com restrições adicionais).

Ato protagonizado por ambientalistas e indígenas, em frente à
Termelétrica do Pecém, no Ceará, em Julho de 2015, exemplo
do tipo de mobilização que precisa brotar e crescer mundo afora.
A lição que estas constatações nos deixam é a de que não podemos confiar nosso destino climático nas mãos dos governos de plantão, muito menos nas mãos das corporações, que têm o lucro - incessante, rápido, crescente - como motivo de existência. Os segmentos da sociedade globalmente mais atingidos pelos impactos das mudanças climáticas precisam reivindicar protagonismo nesse processo: países pobres, países insulares, povos originários, comunidades tradicionais, trabalhadores, mulheres, o "Sul". Sem a força da ação política dos "de baixo", que ocupam a terceira classe desta Terra-Titanic, os "de cima" só se moverão para salvar a própria pele quando a água chegar aos joelhos dos músicos da orquestra.

3 comentários:

  1. Caro professor Alexandre

    Sendo a Shell uma empresa Anglo-Holandesa, como você mesmo afirma, não deveria ela ser a mais preocupada do mundo com o aquecimento global ?

    Afinal, a Holanda e boa parte de Londres estão a poucos metros acima do nível do mar, e poderiam desaparecer do mapa, não é mesmo ?

    Por que a Shell está se lixando para o aquecimento global ?

    Quem tem medo do lobo mau ?

    A Holanda não tem.

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  2. Como qualquer corporação capitalista, a Shell pouco se importa, caro Aníbal. Até porque, apesar de formalmente anglo-holandesa, as ações da Shell são propriedade de investidores do mundo inteiro, especialmente grandes bancos. Sua motivação é o faturamento, o lucro.

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