O assalto do negacionismo à SBMet

"Dois lados"... ah, tá...
Imagine a diretoria da ANPURH (Associação Nacional de História) debatendo se "houve ou não" Holocausto na 2ª Guerra Mundial, dando igual voz aos negacionistas que dizem que o massacre nunca existiu e aos historiadores que trabalham com todas as evidências daquela manifestação explícita de barbárie e crueldade de Estado...

Ou o dirigente máximo da SBBq (Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia) propondo abrir um debate sobre a eficácia das vacinas em que tenhamos os conspiracionistas antivax...



É evidente que nossas crianças
precisam saber que existe ou-
tro modelo, que também é vá-
lido... Não, pera...
Que tal a maioria da SBEnBio (Associação Brasileira de Ensino de Biologia), em uma reunião, defendendo que as "duas teorias" (a Evolução, esta sim, uma teoria, no sentido científico da palavra, isto é, um modelo de explicação da realidade para o qual concorrem fortes evidências e o Criacionismo) sejam ensinadas nas escolas?

Imagine o/a ocupante da presidência da SAB (Sociedade Astronômica Brasileira) debatendo "Geocentrismo versus Heliocentrismo" ou abrindo um fórum para discutir algo como "Horóscopos são válidos? Sim ou Não?".

Ou os conselheiros da SBG (Sociedade Brasileira de Geologia) reivindicando a organização de uma mesa, em seu principal evento, em que se confrontam uma pessoa que mostra as evidências de que a Terra tem cerca de 4,5 bilhões de anos e outra que defende que uma divindade a tenha criada, do mesmo jeito que é hoje, há 6000 anos...

Talvez a AAB (Associação Aeroespacial Brasileira) concedendo o mesmo peso à opinião abalizada de um pesquisador em Engenharia Aeroespacial
e um conspiracionista doidivanas sobre a ida do homem à lua?

Ou quem sabe a SBF (Sociedade Brasileira de Física), através de sua diretoria científica, discutindo algo como "Interações a distância: Campos de força ou Duendes?"... Ou a SBQ (Sociedade Brasileira de Química) bancando uma publicação do tipo "Avanços Recentes em Alquimia"?

Ou a SBMET - Sociedade Brasileira de Meteorologia, por meio de seu presidente, propondo um "debate" entre a Ciência do Clima contemporânea (com todas a enormidade de evidências que mostram, sem qualquer margem para dúvida razoável, que o aquecimento global existe,
é causado pelas emissões humanas e é extremamente perigoso) e o negacionismo, alegando que se tratam de "visões diferentes sobre um mesmo fenômeno" e que existe uma "ausência do consenso científico"?

Todas piadas de péssimo gosto, claro. Mas a de gosto pior é a última, pois é verossímil. No seu último Congresso, o desinteresse da maioria dos sócios permitiu, com uma plataforma rebaixada, centrada no corporativismo da profissão, que o vácuo fosse ocupado... por um negacionista climático! Ilustre desconhecido, o Sr. Rômulo Paz, agora, ocupa um espaço que permite fazer ecoar suas
sandices (como o combate aos "ambientalistas que diziam defender o planeta e atrapalharam a reforma do Código Florestal", as bajulações ao novo cabeça do MCTI, o negacionista pró-agronegócio Aldo Rebelo e os elogios à "Carta Aberta" repleta de pseudociência e puxa-saquismo
que Molion, Felício e outros picaretas do mesmo naipe dedicaram ao ministro). As posições manifestadas por esse senhor são um ultraje a uma comunidade que recentemente produziu um longo e denso relatório de avaliação, com 1200 páginas expressando a contribuição de mais de 300
especialistas no âmbito do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e que atestam claramente as bases físicas, os impactos e os severos riscos de desdobramentos deletérios da mudança climática global (bem como de mudanças regionais a locais) sobre a sociedade, a economia brasileiras, sobre nossos recursos hídricos e energéticos, sobre a nossa biodiversidade, nossa saúde e mesmo nossa segurança alimentar.

Figura do artigo de Doran et al. na EOS que mostra a diferen-
ça de percepção entre o público em geral e os especialistas em
clima sobre o caráter antrópico da mudança climática.
É evidente que há, infelizmente, um hiato entre a percepção do público sobre as mudanças climáticas e o que se estabeleceu enquanto ciência. Por exemplo, como mostram Peter Doran e colaboradores neste artigo publicado na EOS, enquanto somente 58% do público norte-americano respondeu "sim" à pergunta "Você acha que a atividade humana é um fator que contribui significativamente para alterar as temperaturas médias globais?", esse índice sobe para 97,4% dos especialistas de fato (isto é, cientistas do clima que publicam ativamente em periódicos científicos da área), com porcentagens intermediárias para outros grupos, isto é, pessoas que trabalham na área de clima mas não publicam em periódicos, cientistas que publicam ativamente, mas pertencem a outras áreas etc. A existência desse consenso científico é corroborada por um estudo independente de Cook et al. (2013), que mostra que entre artigos científicos publicados em periódicos com revisão e que expressam uma posição sobre o aquecimento global, 97.2% endossam o consenso em relação à causa antrópica e que, embora muito do que seja publicado em clima não aborde explicitamente o problema, ao serem contactados por email por Cook e seus colaboradores, 97,1% dos autores de artigos cobrindo outras temáticas que não a mudança climática global responderam de acordo com essa posição de consenso, isto é, de que as atividades humanas são a causa do aquecimento global.

Gráfico de pizza que mostra que, em meio a todas as publicações
sobre clima (incluindo aquelas diretamente ligadas às mudanças
climáticas e aquelas ligadas a outros temas), a rejeição à bem
fundamentada tese de que o aquecimento observado no sistema
climático se deve às emissões humanas é para lá de marginal. Em
Ciência, consensos desse tipo, como o caso da Evolução, é o mais
próximo que se pode efetivamente chegar de um "fato".
Mais gritante ainda é o levantamento feito por James Lawrence Powell sobre o conteúdo das publicações científicas em si. Em um gráfico de "pizza" (mostrado na Figura ao lado) ele mostra que somente 0,17% dos artigos publicados na literatura científica revisada (24 em 13.950) rejeitam o aquecimento global antrópico. Ao atualizar os dados para 2013, James Powell concluiu que tal proporção caiu para menos de 0,02% (2 em 10.885). Se formos atribuir critérios qualitativos a tais publicações, é evidente que esses artigos estão longe de ser algo "revolucionário", pelo contrário, o mais provável é que sejam apenas a demonstração de que o processo de revisão por pares não é infalível e que não apenas na Ciência do Clima, mas em toda e qualquer área, algum tipo de lixo consegue escapar, inevitável e lamentavelmente (a lista desses 24 artigos, também fornecida por Powell, mostra que são artigos com baixo número de citações, publicados em revistas secundárias e de fora da área de clima, em geral com baixo fator de impacto). Para resumir, os dados de Powell, mais do que os de Doran et al. e Cook et al., mostram a real insignificância do negacionismo, o seu caráter de propaganda ideológica e anticiência.

Mas voltando ao artigo de Doran et al. (2009), revela-se outro problema, além do fosso entre a percepção: o atraso na comunidade de meteorologia operacional no entendimento das mudanças climáticas e da crise que ela materializa. Curiosamente, a comunidade de Meteorologia apresentou o segundo pior índice no que diz respeito à aceitação do caráter antrópico da mudança no clima ou, segundo Doran et al., "as duas áreas de conhecimento na pesquisa com menores porcentagens de participantes respondendo 'sim' à pergunta 2 [isto é, àquela que se refere à influência humana nas temperaturas globais] foram a Geologia Econômica, com 47% (48 de 103) e a Meteorologia com 64% (23 de 36).

É certo que as amostras, principalmente a segunda, são pequenas. Mas talvez seja, mesmo assim, possível fazermos uma análise. A indisposição dos geólogos mais estreitamente ligados a atividades econômicas (mineração, extração de petróleo e gás etc.) em aceitar a realidade do aquecimento global antrópico parece ter um motivo óbvio... Já o caso dos meteorologistas é mais estranho, pelo menos aparentemente. Mas há dois problemas: o primeiro é que, especialmente no nível da graduação, os currículos (e isso não é um problema estritamente brasileiro) encontram-se desatualizados. A Ciência do Clima tem suas raízes no século XIX, mas os avanços aos saltos que nos permitiram chegar ao conhecimento acumulado hoje se deram de maneira concentrada nas últimas duas a três décadas. O outro aspecto é que principalmente nos EUA a comunidade meteorológica, bem mais ampla do que aquela que se dedica à pesquisa, envolvendo os profissionais que atuam na meteorologia operacional e na mídia, frequentemente se desconecta do meio acadêmico e científico. Mais do que isso, é provável que inconscientemente, psicologicamente, alguns membros da comunidade encarem as mudanças no clima como uma ameaça (e sim, em vários casos, é!) à previsibilidade de certos sistemas meteorológicos, baseada em modelos conceituais que construíram a cultura da meteorologia "semi-exata" das décadas anteriores. Em alguns casos, não apenas na previsão de tempo, mas mesmo na chamada previsão climática sazonal (escala de poucos meses) chega a ser lamentável que alguns meteorologistas prefiram fazer análises fortemente subjetivas, introduzindo o viés de suas vontades e desejos e, por exemplo, não considerem a destreza real, comprovada de maneira objetiva, de modelos numéricos de previsão, especialmente quando estes, numa abordagem probabilística, são utilizados no contexto dos chamados "conjuntos" ("ensembles"), em que erros sistemáticos de um modelo ou os erros determinísticos em um "membro" (isto é de uma simulação individual) são compensados pelo uso de várias simulações de vários modelos nas previsões.

Daí, não chega a ser totalmente espantoso que um negacionista de segundo escalão tenha concorrido à presidência da SBMet. Existe uma "base social" para tal fenômeno. O que é lamentável é que não tenha havido resistência organizada a esse processo, denotando mais uma vez que há também um descompasso entre a crescente produtividade acadêmica em torno das mudanças climáticas, inclusive no Brasil (o que foi coroado com a publicação do Relatório do PBMC) e a baixa compreensão da necessidade de levar ao público acadêmico e ao público em geral a mensagem da gravidade da crise climática (como se ela estivesse afligindo Titã, lua de Saturno, ou algum exoplaneta, fora do Sistema Solar e, portanto, não nos dissesse respeito como cidadãos e pudesse ser tratado apenas como objeto de curiosidade científica).

A esse respeito, um exemplo de sociedade científica assumindo seu verdadeiro papel já foi discutido por nós noutro artigo em nosso blog. Com efeito, a Sociedade Meteorológica Americana, a AMS, através de sua direção, enfrentou o problema do negacionismo na comunidade meteorológica. Nas palavras de duas figuras importantes da comunidade, "Em suas 'Considerações finais', a declaração da AMS coloca: 'Apesar das incertezas observadas acima, existe evidência suficiente, a partir de observações e interpretações de simulações do clima, para concluir que a atmosfera, o oceano, e a superfície da terra estão se aquecendo, que os seres humanos têm contribuído significativamente para essa mudança e que a mudança climática subsequente vai continuar a trazer impactos importantes na sociedade humana, nas economias, nos ecossistemas, na fauna e flora ao longo do século XXI e além.' Se aqueles que representam e comunicam a nossa ciência compartilhada ao público sentem uma necessidade de expressar opiniões pessoais sobre a mudança global e o aquecimento global, então eles também têm a obrigação profissional de pelo menos compartilhar as conclusões acima, que refletem o estado-da-arte do pensamento de nossos colegas especialistas que trabalham ativamente para melhor compreender e prever o que pode ser o maior desafio que nossa ciência já enfrentou."

Que haja negacionismo no interior da comunidade meteorológica brasileira não é de todo surpresa, pois Luís Carlos Molion, que continua a lecionar na Universidade Federal de Alagoas é, provavelmente, o mais importante militante negacionista em nosso País. O que é uma surpresa desagradável é não apenas não ver a SBMet engajada para enfrentar esse atraso como ver que o posto mais elevado da diretoria é ocupado por alguém na contra-mão da Ciência.

De minha parte um desafio está lançado ao presidente da SBMet: desfiar o rosário de afirmações no mínimo duvidosas que fez em pequenas conversas no Facebook, jogando para sua plateia, mas em outro ambiente. O desafio é repetir tudo publicamente, junto ao coletivo de pesquisadores, acadêmicos e estudantes no próximo Simpósio Internacional de Climatologia, evento organizado em anos ímpares pela Sociedade (e nos anos recentes tristemente esvaziado, assim como o Congresso Brasileiro de Meteorologia, pelos figurões nacionais da área); dizer, como disse à boca miúda, que os estudos desenvolvidos sobre as mudanças climáticas são "pantomima", "camisa de força", "propaganda", "aventura". O que eu digo sobre os negacionistas (que mentem, que praticam uma
militância anticiência, que negam a conduta que se deveria ter na área, de fidelidade ao método científico, respeito ao trabalho da comunidade e honestidade intelectual) digo em qualquer lugar,
inclusive na frente de qualquer um deles. Ele é capaz de dizer o que pensa perante a base que pretende representar?

Mas o outro desafio posto por mim é lançado a quem faz pesquisa na área. É um desafio a nós mesmos. É reverter um "feedback". Hoje, os eventos e revistas nacionais têm, em geral, pouco prestígio. E isso alimenta o esvaziamento dos mesmos pela nata da pesquisa acadêmica em Meteorologia, Clima e Mudanças Climáticas. A ausência dos pesquisadores de maior destaque lhes tira ainda mais o prestígio, tornando-os ainda menos atraentes e por aí vai. E é esse vácuo que permite que posições importantes como o posto máximo da SBMet, uma sociedade científica, caiam no colo de uma pessoa sem credenciais acadêmicas, perdido em meio às suas teorias de conspiração. Precisamos reocupar, garantindo sua qualidade, os eventos vinculados à Sociedade e defendê-la de posições anticientíficas. A SBMet tem um papel relevante junto à sociedade brasileira neste momento e não pode se dar ao luxo de seguir uma trajetória inteiramente oposta ao cumprimento de tal papel.

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