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quarta-feira, 11 de março de 2020

Compreender o Antropoceno e combater o Capitalismo, para além da terminologia

É cada vez mais evidente a incompatibilidade entre um sistema planetário (clima, biosfera, bioeoquímica) limitado, que funciona à base de fluxos (de matéria e energia) e ciclos (da água, do carbono, do nitrogênio etc.) e um sistema econômico expansionista, em cujo coração estão uma roda insana e crescente de extração-produção-consumo-descarte e a lógica míope da geração, concentração e acumulação de riqueza a curto prazo. Daí, a percepção de parcela cada vez maior da esquerda radical da gravidade e, em decorrência, da centralidade do colapso ecológico tem se ampliado. Isso é positivo, pois é preciso agregar forças sociais, políticas e ideológicas que estejam dispostas a jogar fora toda a água suja (o sistema econômico) a fim de que se salve o bebê (a civilização humana e, no limite, a vida no planeta como a conhecemos).

No entanto, a mistura da empolgação da descoberta da profunda crise ecológica (sim, estreitamente associada ao desenvolvimento capitalista nas últimas décadas) com a tradição de uma certa arrogância, pode trazer efeitos colaterais ruins, dentre eles, embarcar em falsas polêmicas ou em debates pouco produtivos. Um deles é a tentativa de contrapor ao termo "Antropoceno", que veio se consolidando junto às Ciências da Terra especialmente na última década, o termo "Capitaloceno". 

O reconhecimento da existência do "Antropoceno" tem sido construído como consenso científico, inclusive com a constituição de um Grupo de Trabalho de especialistas, conforme relatado pela revista científica Nature. Há vários anos, essa definição vem sendo construída, afinal, para ser aceito como uma subdivisão geológica formal, o Antropoceno precisa ter um "sinal geológico" significativamente grande, claro e distinto. O conceito, porém, transcende o aspecto geológico e tem desdobramentos inclusive para a política. No entanto, negá-lo ou substituí-lo a partir desses desdobramentos é um equívoco em diversos aspectos:

1. A oposição de "Capitaloceno" a "Antropoceno" introduz uma confusão desnecessária na caracterização da estratificação geológica com caracterização sócio-econômica de um modo de produção. Os geólogos, no debate feito ao se estabelecer a necessidade de uma nova época (não era) geológica se baseiam em marcadores com permanência estratigráfica (substâncias estáveis, isótopos estáveis ou isótopos radioativos de vida muito longa, vestígios fósseis etc.).  Queiramos ou não populações animais (humanos e gado, pela abundância) podem deixar fósseis (ou de seus esqueletos ou até de suas pegadas), bem como tecnologias específicas podem deixar resíduos químicos ou físicos (resíduos de plástico e outras substâncias duráveis, plutônio dos testes nucleares e até tecnofósseis como impressões em futuras rochas sedimentares de circuitos integrados ou carcaças de outros equipamentos), mas um sistema econômico não.

2. É um espantalho gigantesco achar que o uso do termo "Antropoceno" implica dizer que todos os "humanos" têm o mesmo peso no desequilíbrio ecológico. Nenhum cientista sério, de qualquer área, afirma isso, pelo contrário. Seguindo a mesma lógica do "Capitaloceno", no limite teríamos então de abandonar os termos "mudanças climáticas antrópicas" e "aquecimento global antrópico" para usar "mudanças climáticas capitalistas" e "aquecimento global capitalista", mas isso significaria a introdução de uma desnecessária polêmica de nomenclatura quando virtualmente todos os cientistas do clima entendem a profunda desigualdade de causa e efeito. "Os ricos respondem pelas emissões, os pobres arcam com os impactos" é algo tão reconhecido pelo conjunto da comunidade que tem servido inclusive como uma motivação moral para muitos desses cientistas se envolverem, com maior ou menor radicalidade, na luta política. O incentivo à radicalização desse entendimento político, a partir do aprofundamento da compreensão da desigualdade intrínseca à crise climática faz muito mais sentido do que uma eventual disputa terminológica. Também mais produtivo e construtivo é defender a comunidade de Ciência do Clima do negacionismo climático e dos movimentos anticiência em geral. Lógica semelhante deveria ser aplicada à comunidade de Geologia que investiga o chamado Antropoceno.

3. Há ainda um debate sobre a demarcação do Antropoceno dentro da Geologia. A maioria do Grupo de Trabalho do Antropoceno defende que o mesmo seja definido a partir da Grande Aceleração (crescimento exponencial de meados do século XX). Mesmo este marco estando fortemente ligado à dinâmica que o capitalismo seguiu, é preciso reconhecer que a GA não é o início do Capitalismo, mas se vincula mais à globalização, financeirização, etc. e nesse caso a inviabilidade/imprecisão/inadequação de definir um "Globaloceno" ou "Finacioceno" dado o que expliquei no item 1 me parece evidente. Mas existem outros cientistas que defendem que o Antropoceno se inicia com as grandes navegações (ou seja, antes do capitalismo propriamente dito) e outros que falam até de um "Antropoceno Precoce" que, no limite, pela vinculação com a Agropecuária, colocaria em xeque até a definição de "Holoceno" como época geológica distinta das anteriores.

4. É preciso reconhecer que, mesmo não sendo razoável para a maioria dos socialistas identificar o Stalinismo com o Socialismo, que parte do processo destrutivo da GA foi impulsionado também por uma economia - expansionista e predatória - cuja caracterização não é exatamente "capitalista" (No limite, não há consenso em torno de que a URSS seria um "Capitalismo de Estado" e há uma série de outras caracterizações, de "Estado Operário Burocratizado" a "Socialismo Real" etc.). Pensemos nos impactos ambientais de Chernobyl, do sobreuso das águas do Mar de Aral e tantos outros... Aliás, o candidato mais forte a marcador do Antropoceno hoje - isótopos de Plutônio e derivados de decaimento radioativo - veio justamente da corrida armamentista entre URSS e EUA. Eu acredito que a maioria dos que fazem a crítica ecológica ao capitalismo reconhece Ecossocialismo como um modo de produção distinto (a partir do próprio coração das forças produtivas) daquilo que se pensava como Socialismo com base industrial no final do século XIX e início do século XX, mas por isso mesmo é preciso entender que a crítica precisa ir além do desastre capitalista. Mesmo um hipotético sistema de propriedade social baseado na indústria e com tendências expansionistas (por exemplo, que emergisse de uma eventual vitória revolucionária na Alemanha e outros países industrializados nos anos 1910) iria produzir, muito provavelmente, um conflito ecológico - senão no mesmo grau, pelo menos do mesmo tipo - com o meio natural, já que o metabolismo de ambos os sistemas seriam muito parecidos. Ao fim e ao cabo, seria muito ruim chamar esse cenário de "Socialoceno".
  
5. Do ponto de vista pragmático, há um risco de uma transposição do termo, pelos cientistas da sociedade para dentro das Ciências da Natureza, criar mais arestas do que pontes, quando o acordo justo é entender o porquê do estabelecimento da nomenclatura e, na análise social, trazer o sentido absolutamente necessário da crítica anticapitalista e da necessidade de superação desse sistema. A ideia de mudar tudo o que foi escrito sobre Crise Climática para "aquecimento global capitalista" traria mais incômodo, pelo sectarismo, arrogância e limitação epistemológica, do que ganho. Podemos ser mais inteligentes e atrair a comunidade de Geologia para uma "crítica anticapitalista do Antropoceno" ao invés de querer que a referida comunidade reformule uma terminologia construída após muitos anos de debate e investigação. Mesmo que o termo "Capitaloceno" estivesse 100% certo do ponto de vista teórico (e esperamos ter mostrado que está longe disso), a falta de capacidade de diálogo com o acúmulo das Ciências da Terra se mostra contraproducente. No limite, a tentativa de enquadrar o desenvolvimento da Geologia na lógica das necessidades da luta política e da ideologia pode levar a um neo-Lysenkoísmo, em que ao invés de uma "Genética Proletária" teríamos uma "Geologia Ecossocialista". Por mais que possa ser recheada de boas intenções, esse tipo de ideia já mostrou historicamente o quanto é nociva e perigosa.

6. Por fim, se lembrarmos a contraposição de Bruno Latour dos "humanos" aos "terranos", o próprio "anthropo" é reconciliado como motor do colapso ecológico (incluindo aí não apenas os capitalistas, mas também os produtores e consumidores que, conscientemente ou não, querendo ou não, são copartícipes da dinâmica predatória). O pensar "capitalocenista" abre um flanco para que se deixe de fazer a disputa necessária junto a um proletariado que precisa não apenas negar a si mesmo como classe explorada, mas fundamentalmente como engrenagem de um sistema predatório. Ao trair o mundo "humano" e aderir ao lado "terrano", é um sujeito que se disporia não apenas a expropriar de seus patrões os poços de petróleo e as minas de carvão e ferro, mas a selá-los e fechá-las. Daí, ao invés de ser uma proposição "mais radical" do que "Antropoceno", "Capitaloceno" corre o risco de ser ao mesmo tempo um termo sectário e superficial, com potencial agitativo entre os círculos que já estão convencidos da necessidade de superação do capitalismo, mas insuficiente tanto como chave interpretativa mais profunda da realidade quanto como elemento de disputa mais amplo na sociedade.

Em suma, dialogar com as Ciências da Terra, entender a profundidade do colapso ecológico, debater alternativas ao sistema econômico vigente e principalmente para recompor o Sistema Terra, recuperando-o da ruptura metabólica, são tarefas urgentes. Nossa energia pode ser muito melhor dedicada a elas se evitarmos falsas polêmicas ou debates contraproducentes.

sábado, 8 de junho de 2019

A declaração de guerra do capital contra a natureza. Parte III: Caos climático

A civilização humana é filha de um clima estável. Mas está
arruinando com ele.
A humanidade é filha de um clima particularmente estável, que emergiu há pouco mais de onze mil anos com o encerramento da última glaciação (ou “era do gelo”). (1) Foi a regularidade da chuva, das estações, o comportamento cíclico de plantas e animais, enfim, a previsibilidade do comportamento da natureza que permitiu a mulheres e homens de nossa espécie se estabelecessem em assentamentos fixos, que promovessem domesticação de espécies vegetais e animais e desenvolvessem a agricultura e a pecuária. Daí, vieram as cidades, as civilizações, as sucessivas revoluções industriais, até chegarmos no mundo capitalista globalizado de agora.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

A declaração de guerra do capital contra a natureza. Parte II: Biosfera encurralada

"Em menos de cinco décadas, o mundo assistiu à terrível redução
de 60% nas populações silvestres de vertebrados, levando incontá-
veis espécies à ameaça de extinção ou à sua extinção efetivamente."
O capitalismo requer cada vez mais território a fim de suprir a demanda crescente de matéria e energia necessária para sua reprodução ampliada. A ocupação de terras para atividades humanas, seja a mineração, a instalação de cidades, infraestruturas que incluem estradas, barragens etc. ou principalmente áreas para agropecuária, vem encurralando a biosfera terrestre contra a parede.

Globalmente, essa ocupação territorial tem sido responsável por um verdadeiro encolhimento da vida silvestre. Hoje, existem 51 milhões de quilômetros quadrados de terra “domesticada”, contra 39 milhões de quilômetros quadrados de florestas. Para citar o exemplo mais próximo, em menos de cinco décadas, o Brasil perdeu mais de 20% da Amazônia e impressionantes 50% do cerrado (1). Sim, o mesmo agro, que assassina indígenas e sem-terra, que financia esquemas de corrupção, que se apropria da água para irrigação, que envenena o alimento e ajuda a bancar a radicalização à direita da política do País, é a maior ameaça à biodiversidade, riqueza impossível de se traduzir em dinheiro.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

A declaração de guerra do capital contra a natureza. Parte I: A Grande Aceleração

"A característica fundamental da Grande Aceleração é colocar
o Sistema Terra para além dos seus limites. É uma declaração
de guerra à natureza."
O capitalismo é um sistema econômico eminentemente expansionista. O crescimento é uma condição necessária do seu funcionamento e existência, à medida em que a lógica, desvendada por Marx no século XIX, é usar o dinheiro para ganhar mais e mais dinheiro, às custas da exploração da força de trabalho e da espoliação da natureza.

Uma contradição inevitável desse sistema é a acumulação de riqueza nas mãos de um punhado cada vez menor de capitalistas ao lado da exclusão de amplas massas da riqueza produzida a partir de seu próprio trabalho. Mas o que não era evidente há um século e meio é que além dessa contradição interna, o sistema capitalista rapidamente faria emergir, com toda força, uma outra, ainda mais incontornável: o seu antagonismo com o próprio “Sistema Terra” [1].

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A "Prosperidade" como Inimiga do Clima

A casa do Sr. Carbono
Senhor Carbono tem uma casa grande, climatizada, com espaço para aquele churrascão com uísque. Carrão na garagem, trocado com frequência (três anos é carro velho, certo?). Férias todo ano na Disney ou na Europa ou em algum destino "exótico". Roupas usadas quase nunca, sapatos "para cada ocasião", celular novo, computador novo. Compra o que vê pela frente, usa uma vez e encosta, quebra e descarta, compra de novo, mais e mais rápido. É um padrão de vida alcançado apenas por alguns, mas almejado por muitos. Mas esse sonho de ascensão social virou um pesadelo para o planeta. E neste texto, mostraremos porquê.

sábado, 16 de junho de 2018

O Capital quer lucrar duas vezes ao declarar guerra ao clima. E nós?

Aleppo, Síria. Na lógica do capital, existe "oportunidade" de
lucrar duas vezes com a guerra. A cada prédio destruído, a
cada prédio reconstruído.
Nas contas do capitalismo, as guerras são duplamente lucrativas. A indústria armamentista, uma das maiores, mais poderosas e com um lobby eficiente ao extremo, impõe que bombardeiros, tanques, navios e submarinos de guerra sejam mobilizados e as munições, bombas, mísseis, etc. sejam despejados onde for possível. É assim, afinal, que justificam que novos e mais poderosos equipamentos de guerra sejam desenvolvidos (e comprados pelos Estados-nação) e que os "estoques" sejam repostos, garantindo-lhes lucros astronômicos. Em seguida, e isso sempre entra na contabilidade perversa de cada bombardeio, vem as empreiteiras, construtoras, empresas de engenharia dos mais diversos campos dando conta de "reparar o dano", "reconstruindo" estradas, pontes, edifícios, hospitais, infraestrutura de energia e água, etc. e, óbvio, faturando muito com isso! Importante frisar, tudo isso, da bomba lançada ao prédio reconstruído, entra no cálculo do PIB... Agora imagine se o Capitalismo declarar guerra ao sistema climático terrestre...

terça-feira, 3 de abril de 2018

O ninho do Antropoceno e os ovos do fascismo

20 dias após a execução brutal de Marielle Franco, a ferida aberta na sociedade brasileira se recusa a fechar. Pelo contrário, sangra mais e mais. E a deterioração da situação política no País não para de se agravar, com ataque a tiros à caravana de Lula no Sul, com um general da reserva chantageando abertamente o STF e o país inteiro, com ameaça de golpe militar a depender do posicionamento da corte, com um bufão com posições abertamente fascistas despertando simpatia de 1/5 ou mais do eleitorado. Neste cenário, mesmo pessoas próximas, sensíveis às ditas "causas ambientais" ou à "pauta ecossocialista" questionam "como falar de mudanças climáticas em tais condições?" ou "não seria o caso de deixar um pouco de lado essas bandeiras ambientais?" ou, pior, se colocam aberta ou veladamente na linha de considerar tudo isso como algo "secundário", senão a priori, pelo menos na atual conjuntura. Mas será que essa linha de raciocínio está correta?

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Clive Hamilton no Guardian: "O grande silêncio climático: estamos no limite do abismo, mas ignoramos"

"Como podemos entender o miserável fracasso do pensamento
 contemporâneo em enfrentar o que agora nos confronta?"
 Fotografia: Piyal Adhikary / EPA

O grande silêncio climático: estamos no limite do abismo, mas ignoramos

Clive Hamilton

Continuamos planejando o futuro como se os cientistas do clima não existissem. A maior vergonha é a ausência de um sentimento de tragédia. 

Após cerca de 200 mil anos da existência dos humanos modernos em uma Terra de 4,5 bilhões de anos, chegamos a um novo ponto da história: o Antropoceno. A mudança veio sobre nós com velocidade desorientadora. É o tipo de mudança que geralmente leva duas, três ou quatro gerações para ser assimilada.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A Bioenergia com Captura de Carbono (BECCS) poderá nos salvar?

A ideia de que existe uma saída tecnológica "mágica" na
cartola ou na manga para a crise climática é ilusória. Mas
há setores que apostam nessa ilusão para continuarem na
lógica do lucro hoje (com os combustíveis fósseis) e no
futuro próximo (seja com BECCS ou geoengenharia).
Uma sigla que já está presente nos debates sobre a crise climática e que possivelmente deverá chegar à arena pública em algum momento é BECCS (Bioenergia com Captura de Carbono). Trata-se de uma promessa de futura tecnologia de mitigação, casando a geração de energia com a captura e armazenamento de carbono (CCS). A ideia é que biomassa e biocombustíveis seriam utilizadas na indústria e em usinas de energia dotadas de equipamentos para realizarem o sequestro de CO₂ (injeção do mesmo em formações geológicas ou fixação química). Gerar energia não só sem emitir CO₂ mas retirando-o da atmosfera parece ser a salvação do planeta. Aviso de Spoiler: mesmo que a tecnologia já existisse, só parece...

terça-feira, 14 de março de 2017

"A fábrica de ilusões que leva ao colapso civilizacional" - Entrevista ao IHU

Capa do número 500 da Revista do Instituto
Humanitas Usininos - IHU
Neste ano, a Campanha da Fraternidade aborda a proteção dos biomas brasileiros, no que considero um desdobramento bastante interessante dos elementos de discussão trazidos pelo documento elaborado pelo Papa Francisco, a encíclica Laudato Sí. Nesse contexto, fui procurado pela equipe do IHU, o Instituto Humanitas Usininos para uma entrevista para o número 500 da Revista do Instituto, cujo tema geral é "Biomas Brasileiros e a Teia da Vida", disponível neste link. Para mim, foi muito interessante contribuir com o trabalho, pois as questões que me foram endereçadas foram muito além de um recorte específico sobre os biomas, mas vi que visavam estabelecer conexão entre este tema e aspectos mais gerais da crise ecológica, incluindo as mudanças climáticas, o papel nefasto cumprido pela indústria de combustíveis fósseis, que sabia há décadas o dano que estavam causando, o significado da eleição de Trump e, principalmente, o debate da insustentabilidade do modo de vida que produziu o Antropoceno. Agradecendo à equipe do IHU e em especial ao jornalista João Vitor dos Santos, trago a vocês a entrevista, também aqui, em nosso blog:

quinta-feira, 2 de março de 2017

O colapso (in)evitável e o Antropoceno

O sistema produtivo capitalista experimentou nas últimas décadas enormes transformações, que colocaram o planeta sob intensa pressão no que diz respeito às fontes de matérias-primas e de energia. A China virou um enorme galpão de fábrica, a ser alimentado por carvão e gás para suas termelétricas, minério de ferro, cobre e metais raros para eletro-eletrônicos, plástico e químicos diversos. Por todo o globo, a frota automobilística e também a frota aérea não pararam de crescer, demandando materiais metálicos e não-metálicos para sua fabricação e, sobretudo, derivados de petróleo para movimentá-las. Interconectado globalmente, o sistema capitalista proporcionou um fluxo extremamente intensivo não apenas de capital especulativo, mas desses materiais e dos produtos a partir deles fabricados. As redes longas desse sistema econômico ligaram, via extração, produção e consumo, praticamente todos os indivíduos em praticamente todos os cantos do planeta. Por terra, pelo ar e pelos mares, milhões de toneladas de material de bauxita a celulares viajam todo ano, numa espiral crescente.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Ratoeira

A humanidade se deixou aprisionar material, cultural e ideologicamente numa gigantesca armadilha: a de ignorar que se vive em um planeta limitado e com um clima cuja estabilidade foi (e continua sendo) fundamental para a sobrevivência de nossa espécie, bem como de inúmeras outras.

A cada dia que passa, vai ficando mais evidente que as mudanças climáticas não são algo remoto, para futuras gerações que ainda não conhecemos, tampouco algo abstrato. Afeta e afetará ainda mais cada um(a) dos(as) já viventes. E naquilo que mais nos é essencial.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Oceano azedo: há mais sobre o CO2 do que a mudança climática

Mesmo que o CO2 não fosse um gás de efeito estufa, mesmo
que as não-linearidades do sistema climático jogassem a nos-
so favor e não contra... As emissões desse gás precisariam
ser detidas para evitar um holocausto oceânico.
Quando nosso blog foi criado há 4 anos, já havia evidências impressionantes sobre a gravidade da crise climática e após a publicação do 5º relatório do IPCC e de uma série de artigos científicos nos periódicos mais conceituados, apenas ficou mais nítido que o quadro é simplesmente o de uma catástrofe se desenvolvendo perante nossos olhos: degelo, secas, ondas de calor, supertempestades, recordes climáticos e eventos anômalos um após o outro. Mas imagine por um instante que os negacionistas das mudanças climáticas tenham razão. Sim, sabemos que eles não têm, que aquilo que eles propagam são mentiras grotescas, e que o aquecimento global é real, é antrópico e é perigoso. Mas façamos brevemente esse esforço...

sábado, 8 de outubro de 2016

Recordes de temperatura literalmente de outro mundo.

Gráfico gerado a partir dos dados de Marcott et al. (2013),
adaptados por Tamino. Fonte: "Skeptical Science", no link:
www.skepticalscience.com/marcott-hockey-stick-real-skepticism.html
Há 3 anos, surgiram, na literatura científica, evidências de que já havíamos atingido temperaturas médias globais acima de quaisquer outras durante o Holoceno (época geológica correspondente aos últimos 10 mil anos de relativa estabilidade no clima e que agora deu lugar ao Antropoceno). Levantamentos robustos, como os apresentados por Marcott et al. (2013) mostravam já naquele momento que ultrapassávamos o chamado "Ótimo Climático do Holoceno Médio", intervalo de tempo naturalmente mais quente do que os anos pré-industriais ocorrido há ~6000 anos (vide figura).

segunda-feira, 28 de março de 2016

Golpe mesmo é o Antropoceno!

Nas últimas semanas, a ebulição política no Brasil, com manifestações de rua, grampos nos telefonemas trocados entre Lula e Dilma, condução coercitiva do ex-presidente e processo de impeachment sobre a atual, documentos da Odebrecht incriminando meio mundo (Aécio, Cunha, Alckmin, Renan Calheiros e quem mais interessar possa), tem deixado pouco espaço para se discutir qualquer outra coisa. Afinal, o que pode ser mais importante do que uma crise política tão aguda, com desdobramentos quase imprevisíveis e que pode levar até a ameaças às liberdades democráticas com grupos fascistas ou similares se assanhando? Então... Acreditem... tem coisa bem mais relevante e bem mais perigosa. Os que quiserem saber do meu posicionamento político sobre a atual conjuntura brasileira, é fácil. Basta dar uma olhadinha em minhas páginas pessoais nas redes sociais. Mas aqui, o assunto, como vocês sabem, é clima. E na semana passada, dois artigos caíram como verdadeiras bombas, fazendo com que a crise climática, que já se sabia ser potencialmente muito perigosa, se revelasse muito pior, mais profunda, mais rápida: um na Nature Geoscience e outro, encabeçado por James Hansen na Atmospheric Chemistry and Physics. Os conteúdos são de arrepiar. Mostram que golpe mesmo é o Antropoceno. Mas antes de chegarmos lá, algumas considerações...

terça-feira, 14 de julho de 2015

Que horizonte? (Reflexões sobre Plutão, Vênus e Terra)

Carl Sagan (1934-1996)
"Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada 'super-astro', cada 'líder supremo', cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali - em um grão de pó suspenso num raio de sol. A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios. As nossas posturas, a nossa suposta autoimportância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios. A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto. Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o 'pálido ponto azul', o único lar que conhecemos até hoje." (Carl Sagan)

terça-feira, 17 de março de 2015

Porque emissões de CO2 "congeladas" não podem ser motivo de comemoração, mas de luta!

A Agência Internacional de Energia anunciou que as emissões
de CO2 do setor de energia não cresceram de 2013 a 2014.
Mas há razões para euforia?
A IEA anunciou há poucos dias e a mídia e vários sites ligados a organizações e movimentos ambientalistas difundiram, que as emissões de CO2 haviam parado de crescer (na verdade, para sermos mais exatos, as emissões do setor de energia não cresceram de 2013 para 2014, sendo que o relatório completo, incluindo o setor de produção de cimento, só deverá ficar pronto em Junho). O crescimento de emissões já havia sido considerado modesto há um ano, porque os 35,3 bilhões de toneladas de CO2 emitidas em 2013 foram "apenas" 2% maiores do que os 34,6 bilhões de toneladas de 2012... Com efeito, esse aumento já havia sido menor tanto do que o crescimento da economia (que foi de 3,1% naquele período) quanto do que o aumento médio da década passada (de 1,1 bilhões de toneladas, ou de 3,8% ao ano).

Em sua grande parte, houve entusiasmo junto ao movimento ambientalista, mas a mim parece que a necessidade de celebrar pequenas vitórias para manter o nosso ânimo e reduzir o fardo psicológico dos revezes ambientais (e também os revezes em direitos, na luta pela igualdade, justiça e democracia) pode nos jogar para um terreno arriscado, que é o de enxergar essas pequenas vitórias onde elas de fato não existem.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Corporações petroquímicas versus Países. Quem manda em quem?

A Forbes atualizou a lista das maiores companhias. E nenhuma surpresa. Das 11 maiores em faturamento, 7 são do ramo petroquímico (Shell, Sinopec, Exxon, BP, Petrochina, Total e Chevron), 2 do ramo automobilístico (Volkswagen e Toyta), uma do comércio (Wal-Mart) e uma de mineração (Glencore). Das 6 maiores, 5 são petroquímicas.

As petroquímicas, ramo predominante nessa lista, são um caso a parte, pois está claro e evidente o quão destrutivo, danoso, nocivo, deletério é o nseu egócio. Explorar petróleo, com vazamentos e outros acidentes devastadores e, principalmente, com a desestabilização do sistema climático terrestre é algo que já deveria fazer parte do passado da humanidade.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Pena Branca e a Velha a Fiar

Cena de "A Velha a Fiar", curta-metragem de 1964
"O gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar"

A "Velha a Fiar" é uma canção popular, que inspirou um curta-metragem brasileiro de 1964 com direção de Humberto Mauro, tendo como trilha a canção, interpretada pelo Trio Irakitan.

Começando por uma interação simples, entre a velha senhora e uma mosca, que lhe tira o sossego, a música segue - de certa forma até irritante - concatenando outros elementos: a aranha, que importuna a mosca; o rato, que incomoda a aranha etc.

Copo "meio cheio" não salva uma casa em chamas

Alok Sharma, presidente da COP26, teve de conter as lágrimas no anúncio do texto final da Conferência, com recuo em tópicos essenciais ...

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