terça-feira, 17 de março de 2015

Porque emissões de CO2 "congeladas" não podem ser motivo de comemoração, mas de luta!

A Agência Internacional de Energia anunciou que as emissões
de CO2 do setor de energia não cresceram de 2013 a 2014.
Mas há razões para euforia?
A IEA anunciou há poucos dias e a mídia e vários sites ligados a organizações e movimentos ambientalistas difundiram, que as emissões de CO2 haviam parado de crescer (na verdade, para sermos mais exatos, as emissões do setor de energia não cresceram de 2013 para 2014, sendo que o relatório completo, incluindo o setor de produção de cimento, só deverá ficar pronto em Junho). O crescimento de emissões já havia sido considerado modesto há um ano, porque os 35,3 bilhões de toneladas de CO2 emitidas em 2013 foram "apenas" 2% maiores do que os 34,6 bilhões de toneladas de 2012... Com efeito, esse aumento já havia sido menor tanto do que o crescimento da economia (que foi de 3,1% naquele período) quanto do que o aumento médio da década passada (de 1,1 bilhões de toneladas, ou de 3,8% ao ano).

Em sua grande parte, houve entusiasmo junto ao movimento ambientalista, mas a mim parece que a necessidade de celebrar pequenas vitórias para manter o nosso ânimo e reduzir o fardo psicológico dos revezes ambientais (e também os revezes em direitos, na luta pela igualdade, justiça e democracia) pode nos jogar para um terreno arriscado, que é o de enxergar essas pequenas vitórias onde elas de fato não existem.

EMISSÕES "CONGELADAS" EM VALORES TÃO ELEVADOS NÃO SÃO UM BOM NEGÓCIO

Variação das emissões de CO2 desde os anos 70. Perceba a
aceleração do crescimento das emissões a partir do início do
século XXI. "Estabilizar" emissões nesse patamar é inaceitá-
vel. Fonte: http://infographics.pbl.nl/website/globalco2-2014/
Um "congelamento" das emissões não pode ser celebrado por diversos motivos. O primeiro aspecto a considerar é que houve um crescimento vertiginoso das mesmas ao final da década passada. Em 2002, eram 26,1 GtCO2 (bilhões de toneladas de CO2) emitidos pelo setor energético mais cimento. Cinco anos depois, já eram 31,4! O ritmo do crescimento diminuiu em seguida, mas o patamar das emissões é absolutamente crítico. Mantê-lo mesmo que em um nível constante no valor atual por mais alguns anos significará comprometer irreversivelmente o sistema climático, afinal ele representa mais do dobro do que era emitido no início da década de 1970. Crescer a partir dele então, nem pensar! O análogo a isso seria o comerciante que aumentou seus preços feito um louco e depois sai fazendo propaganda de que os "congelou". Ora, o/a leitor/a já deve ter percebido então que mesmo uma queda modesta das emissões não poderia ser recebida sequer com entusiasmo contido caso não seja demonstrativa de uma tendência sistemática de queda, afinal de contas, o paralelo aí teria sido o do comerciante que valorou seus preços em 100% para depois anunciar um desconto de 10% ou 20%.

O CLIMA NAS MÃOS DA CHINA, A CHINA NAS MÃOS DOS MERCADOS GLOBAIS.

Como no gráfico anterior, mas discriminado por País. China,
em tom de vinho acelera suas emissões após a virada do século.
Fonte: http://infographics.pbl.nl/website/globalco2-2014/
A expansão da indústria chinesa foi o principal causador dessa aceleração das emissões de CO2 no período recente. Nesse processo praticamente encerrou-se a incorporação do antigo "mundo socialista" (que, dominado por uma burocracia autoritária e cheia de privilégios, de socialista tinha muito pouco) ao capitalismo, e com Rússia e China integradas ao mercado internacional, os fluxos de mercadorias e capitais cresceram significativamente. Em particular, é preciso que se diga que a China tornou-se a maior emissora de CO2, mas que boa parte do carbono emitido por ela é "exportado", isto é, foi emitido para produzir bens de consumo a serem consumidos noutros países, em particular nos EUA e Europa, como descrevemos em artigo anterior.

Dessalinizadores chineses consomem
energia, gerada por termelétricas a
carvão, que além de emitirem CO2
aos motes, consomem grandes quan-
tidades de água. A máquina produtiva
chinesa lembra Ouroboros, a serpente
que engole a própria cauda.
O principal processo por trás da estagnação, pelo menos por um ano, das emissões de CO2 foram os investimentos massivos da China em energias renováveis. Especialmente a energia eólica se multiplicou em território chinês que, além das enormes emissões de CO2, enfrenta graves problemas relacionados à poluição (como se sabe a poluição do ar em Beijing e outras cidades chinesas fortemente industrializadas chegou ao ponto de calamidade pública) e ao consumo de água (as termelétricas demandam água continuamente e em grandes quantidades, ao contrário das eólicas). Caso medidas extremas não sejam adotadas, as estimativas são de que já em 2020 as usinas termelétricas a carvão que movimentam o gigantesco parque industrial chinês que segue em expansão consumiriam nada menos do que 27% do suprimento total de água naquele País, ou o equivalente a 34 bilhões de metros cúbicos anuais. A crise hídrica chinesa chega ao ponto de que enormes usinas de dessalinização foram instaladas. Numa ironia melancólica, essas usinas consomem grandes quantidades de energia elétrica e, sendo estas geradas a partir de termelétricas, chega-se na figura da serpente que engole a própria cauda, fora outros problemas, incluindo o próprio custo. A China tinha de encontrar uma saída para a crise ambiental (poluição mais demanda hídrica) imediatamente.

HÁ ASPECTOS SISTÊMICOS QUE SERVEM DE BARREIRA AOS CORTES NAS EMISSÕES 

E aí vem mais um motivo pelo qual qualquer celebração em torno do não-crescimento das emissões de CO2 de 2013 para 2014, se feita, precisa ser extremamente cautelosa e, sobretudo, crítica. Globalmente os investimentos em energias renováveis cresceram 16% em 2014 em relação ao ano anterior, um salto que se deveu principalmente ao incremento de 32% dado pela China, mas os investimentos, que somaram 310 bilhões de dólares (dos quais a China respondeu por quase 29%), sequer recuperaram o nível de 2011, quando chegaram a U$ 318 bilhões (eles haviam caído por dois anos consecutivos: 2012 e 2013).

A notícia da volta do crescimento do investimento em renováveis em si parece boa, mas mesmo esse crescimento revela uma lógica perversa. Na crise econômica de 2009 os investimentos haviam desaparecido. As emissões de CO2 caíram entre 2008 e 2009 (de 32,0 GtCO2 para 31,6 GtCO2), mas assim que a economia global se recuperou, as emissões cresceram junto e só aí as energias renováveis receberam novos incentivos. O gráfico ao lado, por sinal, não deixa dúvidas sobre algumas questões: primeiro, a forte correlação entre aumento das emissões de CO2 e crescimento do PIB. No período mostrado, o único momento em que as emissões caíram (-1,25%) coincidiu com a retração da economia (-2,00% de variação no PIB global), em 2009. E a recuperação da economia em 2010 se deu claramente com base na queima de combustíveis fósseis (4,14% de aumento no PIB, para 4,43% de aumento nas emissões). Ao mesmo tempo, os investimentos em renováveis só cresceram mais na última década quando a economia em si cresceu.

Em resumo, o que temos é que na lógica do sistema, investimentos em renováveis só são possíveis em momentos de crescimento econômico e os mecanismos de financiamento, subsídios, etc. chegam mesmo a ser revertidos durante as crises. Reduções efetivas das emissões (e ainda assim modestas) só têm ocorrido em condições de crise e contração da economia global como foi o caso de 2009, então continua a grande questão: o domínio do capital, que requer crescimento contínuo, mostra-se incapaz de assegurar uma solução duradoura e segura para o problema da necessária queda das emissões.

Nesse contexto, condicionar uma maior participação de renováveis na matriz energética ao crescimento econômico é algo profundamente negativo, pois o desejo de crescimento ilimitado, como sabemos, tem levado a produção de bens na sociedade capitalista a esbarrar em outros limites do sistema Terra além da mudança climática. A ampliação da base renovável na matriz energética é um imperativo das Leis da Física, e não pode ficar ao sabor dos desejos e instabilidades do mercado.

Também não se pode celebrar de fato quando se vê que todo o esforço de investimento em renováveis na última década não foi capaz de levar a uma redução das emissões porque efetivamente elas são simplesmente acrescentadas ao aparelho energético, somando-se à base fóssil, ao invés de substituí-la, ainda que gradualmente!

Os investimentos anuais em diferentes fontes de energia são
proporcionais à área dos círculos. Apesar de terem crescido
bastante, a desvantagem das energias renováveis é para lá de
óbvia. Fonte: http://infographics.pbl.nl/website/globalco2-2014/
Por fim, é evidente que os investimentos em energia renovável ainda são muito pequenos se comparados aos números da indústria de combustíveis fósseis. Nada menos que cinco empresas de petróleo e gás tem faturamento anual acima dos U$ 310 bilhões investidos globalmente em renováveis: Shell, Sinopec, Exxon-Mobil, BP e Petrochina. Se a elas juntarmos as 5 seguintes no ranking da Forbes para o setor (Total, Chevron, Gazprom, Phillips 66 e Eni), a movimentação total é U$ 2,9 trilhões, quase 10 vezes mais! Para completar o quadro, o investimento em combustíveis fósseis (especialmente para descobrir novas jazidas num contexto em que sequer se pode pensar em queimar todas as já existentes!) também é bastante superior àquele colocado em todas as formas de energia renovável. Ainda que este tenha quintuplicado em pouco mais de uma década (contra um aumento de 56% no investimento em combustíveis fósseis), a distância a ser vencida ainda é enorme.

AS EMISSÕES PRECISAM, NA VERDADE, SER REDUZIDAS IMEDIATAMENTE

Nosso desejo é o de resolver a crise climática e chegar a um clima estável, com temperatura global média em torno de apenas um grau acima do período pré-industrial. A irresponsabilidade para o clima grassou em tal nível, com os governos nacionais ignorando o problema, as corporações de energia, especialmente as petroquímicas, se beneficiando e os negacionistas atuando em sua ópera-bufa, que aparentemente nos esquecemos do que deve ser a real meta. E de acordo com James Hansen, "se a humanidade pretende preservar um planeta similar àquele no qual a civilização se desenvolveu e ao qual a vida na Terra está adaptada, a evidência paleoclimática e a mudança climática em curso sugerem que o CO2 precisa ser reduzido dos níveis atuais para no máximo 350 ppm", conforme mostrado neste artigo (de Hansen e vários colaboradores).

Em um texto anterior, mostramos qual a dimensão da tarefa e esperamos que o efeito disso ser o de paralisia diante de uma tarefa "impossível", a movimentação vigorosa diante da urgência e grandiosidade da mesma.

Ora, para manter a concentração de CO2 constante em qualquer que seja o valor, é necessário que a quantidade de CO2 emitida (somando-se fontes naturais e humanas) seja balanceada pela quantidade de CO2 retirada pelos chamados sumidouros, então precisamos efetivamente zerar as emissões em algum momento, qualquer que seja o nosso alvo de concentrações estabilizadas, se tivermos um em mente!

Com efeito, ainda que miremos no alvo de 450 ppm como concentração constante de CO2 na atmosfera desejada, que nos dá uma chance aproximadamente tão grande de não desestabilizar irreversivelmente o sistema climático (isto é, limitarmos o aquecimento a 2°C ou menos) quanto a de escapar de duas roletas russas, há muito o que se fazer, e com uma enorme urgência.

Diferentes cenários de emissões a partir de 2015: voltamos ao
crescimento geométrico a uma taxa de 3,8% (linha azul) ou ao
crescimento aritmético a uma razão de 1,1 GtC por ano (linha
vermelha). Emissões estabilizadas no patamar de 35,3 GtC por
ano (linha verde) ou com redução ao ano de 3,8% (linha
violeta), uma queda percentual mais de três vezes maior do
que a verificada quando da crise econômica de 2009.
Para se ter uma ideia, fiz uma estimativa, usando considerações simples e conservadoras como a de que 45% do carbono emitido permanece na atmosfera (há indícios de que essa proporção tende a crescer à medida em que os oceanos aqueçam e a capacidade de sequestrar carbono por parte da biota terrestre sature), de como ficaria a concentração de CO2 para diferentes cenários de emissões, representados na figura ao lado.

Se mantivéssemos um crescimento em progressão geométrica das emissões aos assustadores 3,8% (média percentual da década passada) teríamos provavelmente um inferno estabelecido antes da metade do século. Ultrapassaríamos 450 ppm já em 2030 e chegaríamos em 2050 próximos a 600 ppm. Algo também tenebroso aconteceria se mantivéssemos emissões crescentes em progressão aritmética (adotando como razão a taxa de 1,1 GtCO2 a mais por ano, a média da década anterior). Neste caso, 450 ppm seriam atingidos em 2031 e 535 ppm seria a concentração atingida na metade do século XXI.

As concentrações estimadas para os cenários de emissões. Nem
mesmo reduzindo a 3.8% ao ano as emissões de CO2 evitaría-
mos ultrapassar os 450 ppm. Daí, estabilizar as emissões não
pode ser uma meta em hipótese alguma.
Mas o que é fundamental é perceber o que aconteceria se as emissões se estabilizassem. Nesse caso, ficaríamos muito, muito longe de termos uma melhoria significativa do quadro. Ultrapassaríamos os 450 ppm em 2038 e seguiríamos, contando ("wishful thinking") que os oceanos e as florestas permaneceriam nos ajudando, sequestrando mais da metade do CO2 emitido, aumentando a concentração deste gás a uma taxa constante, chegando à década de 2060 acima de 500 ppm. Pior, mesmo uma redução das emissões a uma taxa de 3,8% (proporcionalmente escolhida, por ser aquela do crescimento recente) não seria suficiente. Em 2035 teríamos retornado ao patamar de emissões de 1970 (15,6 GtC anuais) e as emissões chegariam em 2050 a níveis bem baixos (8,8 GtC ou um quarto do que se emite hoje). Mas ainda assim, não estacionariam nos 444 projetados para 2050 e só iriam se estabilizar próximo a 460 ppm. O que acontece com a concentração de CO2 é mostrado na figura ao lado, para os 4 cenários de emissões citados, usando essa modelagem extremamente simplificada.
Íbis, o autointitulado "pior time do mundo"
é famoso pelas goleadas que levou ao longo
de sua história.

Na verdade, o que concluímos é que só uma redução da ordem de 4,5% ao ano seria capaz de evitar que ultrapassássemos a barreira de 450 ppm. Mais, para qualquer meta mais ambiciosa (que deveria, sim, ser aquela colocada, pois 350 ppm é o limite seguro, não 450 ppm), é preciso urgentemente que implantemos mecanismos de sequestro de CO2. Daí não se pode comemorar o não-crescimento das emissões em 2014 como um jogador do Íbis marcando gol de honra. É preciso ir para cima, como time grande... A mudança na matriz energética é urgentíssima, mas também o rompimento com a lógica de crescimento contínuo na demanda da energia. Substituir aceleradamente combustíveis fósseis (e também nucleares) por solar, eólica e outras (maremotriz, por exemplo) precisa ser feito em consonância com o combate ao produtivismo e consumismo que demandam que a roda produtiva gire cada vez mais rápido.

ANALOGIAS

Quero crer também que noções de cálculo diferencial e integral ajudariam no entendimento do problema, mas poderíamos traçar, para simplificar, um paralelo com o movimento de um automóvel, que está infelizmente rumando ao precipício...

Só há uma solução para o problema: é o carro parar (antes do despenhadeiro, claro). Sua posição deve permanecer constante. Em nosso caso, o que precisa parar de mudar é a temperatura global do planeta, e em condições seguras. O carro parado, em segurança, é o equivalente a uma atmosfera com concentração de CO2 mantida constante em no máximo 350 ppm. Nós ligamos o carro em 1988, quando as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera ultrapassaram essa marca.

Qualquer concentração de CO2 acima de 350 ppm implica em seguir rumo ao precipício. Pouco mais? É ir lentamente. Muito acima de 350 ppm é ir em alta velocidade. O CO2 estacionado, por exemplo, nos 400 ppm atuais significa como seguir em frente, mas apenas em segunda marcha. Para um CO2 constante, precisaríamos de emissão zero (pelo menos em termos líquidos, isto é, descontando um eventual sequestro de carbono).

Portanto, emissões de CO2 estacionadas (como de 2013 para 2014), ao levarem a um aumento das concentrações de CO2 é o equivalente a ir rumo ao precipício em velocidade cada vez maior, só que com aceleração constante. Já emissões de CO2 crescentes (a tônica de todo o período recente) é o mesmo que ir rumo ao precipício não só com velocidade cada vez maior, mas também com aceleração cada vez maior. No cálculo diferencial, isso é a derivada terceira da posição. É o que zeramos, por apenas um ano até que se prove o contrário. Precisamos zerar a derivada segunda (a aceleração)... e a derivada primeira (a velocidade). Precisamos parar o carro. Precisamos de freio. Hora de pisar fundo nele, não de festejar. Já não é possível uma frenagem totalmente suave, admitamos. Mas quanto mais se postergar o pisão no pedal do freio, pior será: mais risco de derrapagem, mais desconforto para os passageiros, menos garantias de que se conseguirá efetivamente parar o automóvel antes do despenhadeiro.

Outra analogia possível, já que mostrei a vocês o vínculo entre as duas coisas em artigo recente, é com o fumo.

Imagine o seguinte cenário: Um ente querido seu fuma. Na verdade fuma há tempos, e mais do que isso: ele/a começou fumando 1 cigarro/dia, mas acrescentou a essa conta 1 cigarro a mais a cada ano. Ou seja, no segundo ano, fumava 2 cigarros/dia, no terceiro 3 cigarros/dia. 19 anos depois, uma carteira por dia, e assim por diante. Hoje, a figura consome 2 carteiras/dia.  Daí, ele/a é alertado para o fato de que há um pequeno tumor no pulmão. A recomendação é clara: é preciso parar de fumar. Só assim seria possível combater o tumor, ainda curável. Mas aí ele resolve parar de aumentar a cota de cigarros, ou seja, decide passar a fumar uma quantidade constante de cigarros (40 por dia), deixando de acrescentar um a mais a cada ano nessa conta. Você comemoraria? (A analogia é tal que o tumor equivale às mudanças climáticas (em estágio inicial não produz sintomas tão graves e é reversível), ao contrário de uma metástase, que equivaleria a uma ruptura climática completa e irreversível. O consumo do cigarro, a causa direta do câncer equivale à queima de combustíveis fósseis, causa direta do aquecimento global. A fumaça do cigarro assim, equivaleria às emissões de CO2 e as substâncias tóxicas acumuladas no pulmão à sua concentração. O efeito cancerígeno dessas substâncias é análogo ao forçante radiativa/desequilíbrio energético).
Valeu, Flórida!

Negar a existência do precipício à frente ou de um tumor maligno no corpo de um ente querido não resolve nenhum problema. É tão óbvio, mas na Flórida, o termo "aquecimento global" foi banido, ou seja, a solução oficial é não falar no assunto, não lidar com ele...

E aí chegamos a outro ponto... Como lidar com um problema de tamanha monta? Como manter-se de pé, com o peso da realidade, sem se deixar distrair por pequenas ilusões como o "não-crescimento das emissões"?

SE O PESO DA REALIDADE OBJETIVA CAIR SOBRE NÓS, SUPORTAREMOS?

Nietzsche se questionava o quanto de realidade ele poderia suportar. Era uma alusão à fragilidade humana, claro; à nossa necessidade constante de se apegar a uma ou mais esperanças, ainda que fugazes e ilusórias, a fim de que a realidade crua e nua não despenque por cima dos nossos neurotransmissores.

Mas não podemos permanecer prisioneiros de nossa própria fragilidade psicológica, de uma tentativa de habitar um mundo de doces ilusões, em busca de uma voz maternal de consolo a nos sussurrar "está tudo bem". A violência, a desigualdade, a crueldade são bestas que atacam esse mundo de devaneio confundido com esperança, com força a cada dia. A brutalidade com que a humanidade trata a si mesma e com a qual semelhante interage frequentemente com semelhante é por si uma realidade quase insuportável. Mas apesar de receber alguma influência externa (de um ambiente que module a abundância de alimento e água, por exemplo), essa face da barbárie é praticamente circunscrita a nós mesmos e sendo nós não apenas frágeis e cruéis, mas também mentalmente flexíveis, poder-se-ia imaginar de fato a possibilidade de disputar uma cultura de paz e solidariedade contra ela.

No entanto, estou convencido de que nenhum contraste é maior do que o da nossa fragilidade mental (que nos faz disparar diversos mecanismos de defesa psicológica) com a fortaleza, potência e violência de nossos "corpos estendidos". Se nos deslocamos a baixas velocidades no reino animal, temos um nado limitado e não sabemos sequer nos deslocar eficientemente em copas de árvores, para não falar do voo, compensamos tudo com automóveis, navios, aviões. Nossos membros superiores não são mais apenas braços, mas perfuratrizes, colheitadeiras, escavadeiras, que nos permitem alcançar bem mais longe. E eis que um ser apenas um pouco menos assustado do que seus antepassados que mais lembravam roedores, surgidos à sombra dos dinossauros, se tornaram senhores da Terra. Com o mesmo cérebro adaptado à vida na savana, a colher frutas, caçar pequenos animais (grandes caças em grupo, pelo que parece eram, em realidade, raras), fugir de grandes predadores e proteger bebês, lançamo-nos numa aventura que nos fugiu do controle. Da agricultura e pecuária à grande indústria, megacidades, a ocupar 3/4 das terras providas de solo agricultável e usar 2/3 da água que circula em rios, a revolver mais sedimentos com agricultura e mineração do que os processos continentais naturais, a crise ecológica global é, com a mudança climática à frente, a expressão de um tempo em que mudanças promovidas pela espécie humana na atmosfera terrestre e em seus ciclos biogeofisicoquímicos ocorrem no mesmo ritmo ou até em velocidade maior do que mudanças culturais minimamente profundas em nossa sociedade. A pegada humana é descomunal e altera tão sensivelmente o sistema Terra ao ponto de dominar a cena. Infelizmente, a cena dominada pelo homem, o Antropoceno, não tem sido uma cena agradável.

ISSO (O COLAPSO CLIMÁTICO) É ALTAMENTE ILÓGICO, CAPITÃO!

Ao meu ver, o descompasso entre a nossa competência limitada de mudar apenas de forma relativamente lenta nossa cultura e nossa organização sócio-econômica (mesmo entremeada de rupturas na superfície, a componente inercial da História segue um curso mais lento e processual por baixo) e nossa crescente e assustadora capacidade de alterar o Sistema Terra é parte da crise. Outra tem a ver com as nossas defesas psicológicas que, diante de fato tão grave, são uma verdadeira auto-sabotagem. Tenho certeza de que o discurso falho, grosseiramente falso e desonesto dos negacionistas, por mais que a indústria fóssil e outros setores o bancassem, com apoio da mídia, não pegaria, se não fosse, pelo menos em certa medida, aquilo que a maioria de nós realmente gostaria de ouvir: "está tudo bem, filhinho, pode continuar a brincar de queimar petróleo e carvão".

Insistir em combustíveis fósseis levando o planeta à beira da
ruína? Isso é altamente ilógico!
Já me disseram que essa não é uma disputa pela racionalidade. Não concordo, apesar de achar que teremos de nos dirigir muito ao emocional das pessoas para que nossa mensagem fure as barreiras da mentira negacionista e da denegação como mecanismo psicológico de fuga. Afinal, muito mais insuportável do que a compreensão, aceitação e entendimento de uma realidade dura, é o peso dessa mesma realidade quando desaba não apenas sobre nossa mente, mas sobre nossos corpos. Se vier o peso de supertempestades de categoria 6 ou 7, muito maiores que Pam, maiores que Haiyan ou Sandy ou Katrina; se o peso de uma elevação de vários metros do nível do mar associada ao degelo da calota do norte e de vastas extensões da Antártica vier; se o peso de secas mais severas do que as que praticamente secaram as reservas de Beijing, São Paulo e Los Angeles se revelar, suportaremos? Dá para comparar o que os desabrigados de Tacloban viveram com o "incômodo" do debate climático? Ora, isso deveria ser básico, óbvio, e isso, por mais que possa ter uma enorme carga de emoção como motor para ação, é essencialmente racional. Fora disso, como diria o eterno Sr. Spock, personagem do agora saudoso Leonard Nimoy, "é altamente ilógico".

Concluo dizendo que, se há algo realmente positivo na notícia de que as emissões não cresceram de um ano para o outro, é que ela mostra que, para reduzir as emissões, as tecnologias estão a mão (embora seja impossível deixá-las ao sabor das "decisões" da "mão invisível"- e estúpida - do "deus-mercado"). Importante frisar que, como mostramos ser necessário zerar as emissões, mas também sequestrar CO2, a tecnologia para este processo é ainda mais simples e antiga, e se chama fotossíntese. "Desmatamento negativo", ou apenas reflorestamento, nesse caso, pode ser a parceira perfeita das energias renováveis como solução da crise climática no âmbito de uma sociedade justa, livre e igualitária. E se soluções estão à mão, é preciso colocar o leme da nave e o freio da locomotiva em mãos melhores; é fundamental apostar nossa esperança e nosso otimismo em agentes reais de luta, de mudança... e de comemoração.

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