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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Por Água Abaixo

A agenda em resposta ao aquecimento global é um verdadeiro
fiasco, considerando que pelo menos desde o terceiro relatório
do IPCC (em 2001) as evidências são muito fortes sobre a
gravidade da crise climática. Mas ela é particularmente débil
no que tange à elevação do nível do mar, pois as projeções
dessa variável nunca pareceram motivo para grande alarde,
pelo menos na escala de décadas e até o fim do século. Pois
é... isto terá de mudar, com as novas evidências que surgiram.
"Eu vim plantar meu castelo naquela serra de lá, onde daqui a cem anos vai ser uma beira-mar", assim diz o refrão de uma bela música de Lenine intitulada "Lá Vem a Cidade". No mesmo álbum, na faixa "É Fogo", ele também questiona "o que será, com mais alguns graus Celsius, de um rio, uma baía ou um recife, ou um ilhéu ao léu clamando aos céus, se os mares subirem muito, em Tenerife? Até agora, porém, a elevação do nível dos mares parece estar sendo uma preocupação secundária em meio a todo o alvoroço envolvendo os impactos das mudanças climáticas, e ela tem aparecido com mais ênfase nas letras desse grande cantor e compositor pernambucano do que na agenda dos formuladores de políticas públicas e dos governos. Grave erro. Gravíssimo!

domingo, 10 de março de 2013

Mudanças Climáticas Globais e Leilões do Petróleo no Brasil - Parte I: A quem interessam. A quem não.


A Ciência do clima é muito clara: o sistema climático está realmente aquecendo, este aquecimento é causado pela acumulação de gases de vida estufa de vida longa, especialmente dióxido de carbono (seguido de metano, óxido nitroso e halocarbonetos) e a origem desse desequilíbrio químico atmosférico está nas atividades humanas, especialmente no uso de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural), como estabelecido nos relatórios de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (Intergovernmental Panel on Climate Change, IPCC), especialmente o AR4 [1].

domingo, 3 de março de 2013

Pondo pingos de lava nos "is": vulcões e clima

Alertado que fui para esta publicação desprovida de um mínimo de seriedade, resolvi avançar em algo que estava preparando, que é um conjunto de breves artigos sobre as forçantes naturais, principalmente o vulcanismo e a variabilidade solar. Isto se dá principalmente porque o referido texto, cumprindo o ritual de praxe dos negadores, distorce completamente as informações das fontes originais. Obviamente, é necessário reposicionar as questões à luz do que a ciência estabelece, sendo fidedigno às informações não apenas da Ciência do Clima, mas também da Vulcanologia e da Física Solar.

A matéria da Universidade do Colorado (Colorado University, CU) à qual o "artigo" negacionista nos leva, cumpre o papel tipicamente ruim da imprensa das universidades, que é amplificar as conclusões de determinado estudo de pesquisadores da instituição, algo que mostra o divertidíssimo site "PhD Comics", como ilustrado ao lado. O problema com os pequenos exageros dos serviços de divulgação das próprias universidades é que eles abrem caminho para um efeito dominó que pode resultar em enormes falsificações pela mídia e/ou pela blogosfera.

Como se deve fazer sempre quando a fonte é duvidosa (e, se possível, mesmo quando a fonte for confiável!), o fundamental é ir até os originais e, em seguida, recuperar corretamente a história.


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Forçando o clima: ratinhos vulcânicos e pulgas atômicas.

Forçantes radiativas de 1750 até o presente. Fonte: IPCC AR4.

A figura ao lado é uma das mais importantes do 4º relatório do IPCC. Ela mostra a melhor estimativa (com as incertezas) da contribuição de cada agente climático, incluindo efeitos de aquecimento e de resfriamento. Para compreendermos o gráfico, introduziremos o conceito de “forçante radiativa”.

O que é "forçante radiativa" (FR)? Nada mais é do que a quantidade de energia por unidade de tempo por unidade de área que é acrescentada ou retirada do sistema climático, em relação a um estado de referência. É medida em "Watts por metro quadrado", ou simplesmente 1 W/m(ou 1 Joule, que é a unidade de energia, por metro quadrado, por segundo). Qualquer agente que influencie o sistema climático no sentido de aquecê-lo produz uma forçante radiativa positiva. Outro agente, que atue no sentido de resfriá-lo, introduz uma forçante radiativa negativa. Esse excedente (caso positivo) ou déficit (caso negativo) de energia é, geralmente, estimado na “tropopausa”, isto é, na fronteira entre duas camadas da atmosfera: a troposfera (abaixo, até 8-18 km de altitude, a depender do local do globo, onde ocorrem os fenômenos de tempo meteorológico) e a estratosfera (logo acima, caracterizada pela camada de ozônio).

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Rumo a 4 graus? Estão rindo de quê?

Neste post, quero chamar a atenção, dentre outros pontos, para um artigo de autoria de Richard Betts e colaboradores, recentemente publicado no Philosophical Transactions of the Royal Society, cujo título é "When could global warming reach 4°C?"


Apesar de, especialmente acima de 3 graus de aquecimento, as incertezas nos impactos crescerem, sabe-se que um planeta 4 graus acima da era pré-industrial (mais de 3 graus mais quente do que o presente) é virtualmente irreconhecível. O primeiro ponto diz respeito a tempestades mais intensas. Uma atmosfera mais quente permite a presença de uma maior quantidade de vapor d'água, o que tem o efeito, como discutimos em outro momento, de amplificar a intensidade de tempestades, furacões e outros fenômenos extremos. O segundo se remete às geleiras. Como se sabe as projeções de degelo tem sido profundamente conservadoras, subestimando o que de fato tem acontecido (como já mostramos, o recorde de degelo no Ártico em 2012 aconteceu com mais de duas décadas de antecipação em relação à projeção mais "pessimista" e cerca de 50 anos antes do que a média dos "modelos do IPCC" previu, quando do quarto relatório).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

É pior, sim! Por que os cientistas preferem "errar para menos"?

- Calma...  é só um peixinho normal.
Número recente do periódico Global Environmental Change publicou artigo de autoria de K. Brysse e co-autores [1] que chama atenção para algo para o quê já havia alertado anteriormente: a tendência, não apenas em vários estudos científicos, mas principalmente no discurso dos cientistas do clima, em subestimar o ritmo e/ou as possíveis consequências do aquecimento global antrópico.

Os autores desse artigo, cujo resumo é disponível publicamente, compõem um coletivo interdisciplinar, com um importante olhar das Ciências Humanas sobre o próprio comportamento dos cientistas. Suas conclusões avançam claramente no sentido oposto ao das acusações dos negadores das mudanças climáticas ou autoproclamados "céticos do aquecimento global". Ao invés de concluir que somos "alarmistas", "catastrofistas" ou coisa do gênero, o artigo mostra claramente - e explora as razões disso - que há um viés junto aos cientistas do clima para o lado oposto. Colocando de forma simples: ao invés de "aumentarem" o tamanho do monstro, os cientistas o diminuem. Algo como uma história de pescador ao contrário, em que se tenta de todo modo evitar dizer que se pegou um peixe enorme, insistindo em dizer que "é só um peixinho".

sábado, 22 de dezembro de 2012

Números II - Logaritmos e Regras de Três


Evidentemente, para representarmos corretamente os processos físicos e as interações biogeoquímicas no interior do sistema climático, são necessários modelos sofisticados das componentes desses sistemas. Os chamados "Modelos do Sistema Terrestre" de hoje em dia são gigantescos programas de computador com muitos milhares e até milhões de linhas que incluem tipicamente um modelo de circulação geral da atmosfera, um modelo oceânico global, modelos de gelo marinho e continental e um modelo de superfície com solo, vegetação e hidrologia continental dinâmicos, além de módulos de química, ciclo do carbono, etc. 

Isso pode fazer com que a Ciência do Clima pareça obscura para a grande maioria das pessoas. Mas para se obter uma estimativa de alguns números, cruciais para que se estabeleçam metas de estabilização das concentrações de gases de efeito estufa, podemos usar representações mais simples, que permitem que boa parte das pessoas nos compreenda. Vamos tentar fazer isto neste texto.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O AR5 e o Tiro pela Culatra dos Negadores

Muitos conhecem o famigerado fuzil AR-15, arma semi-automática extremamente difundida, inclusive entre grupos paramilitares e facções criminosas. Bem menos conhecido é um dos antecessores dele, o AR-5, um rifle adotado pela Força Aérea dos EUA na década de 1950, mostrado ao lado.
Armas: AR15 (acima), AR5 (abaixo)

Mas não é de rifles, fuzis e similares de que vou falar aqui, evidentemente. Prometi que voltaria ao assunto e aqui está... O tema que abordarei é outro AR5, o 5° Relatório de Avaliação do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) e o gigantesco tiro que os negadores da mudança climática deram no próprio pé quando tentaram capitalizar alguma coisa com o "vazamento" da 2ª revisão desse Relatório e divulgação de um ou outro trecho do material, como se de alguma forma as evidências em torno das mudanças climáticas e do papel antrópico possam vir a aparecer enfraquecidas neste relatório, em relação ao seu antecessor (o AR4, disponível no site do IPCC).

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

COP18, Sensibilidade Climática e Insensibilidade dos Governos


Todos os indicativos mostram que o sistema climático é bastante "sensível", isto é, perturbações relativamente pequenas podem ter grandes efeitos. A chamada "sensibilidade do sistema climático" é, para nós, cientistas do clima, um parâmetro, um número que guarda um significado muito importante pois ele responde à pergunta: se duplicarmos a quantidade de CO2 na atmosfera da Terra, de quanto a temperatura do planeta subirá?

Acredita-se que esta "sensibilidade" seja de cerca de 3°C (entre 2°C e 4,5°C), isto é, que ao se duplicar a concentração de CO2 atmosférico, a temperatura planetária, ao se atingir um novo estado de equilíbrio, se eleve de três graus.

A figura acima é reproduzida a partir do  4°  relatório   do   IPCC  e  mostra

Copo "meio cheio" não salva uma casa em chamas

Alok Sharma, presidente da COP26, teve de conter as lágrimas no anúncio do texto final da Conferência, com recuo em tópicos essenciais ...

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