domingo, 15 de fevereiro de 2015

"Não vou me adaptar"

Há limites muito estritos para a adaptação às mudanças climáticas.
Por que, então, alguns segmentos têm insistido em falar mais de
uma adaptação impossível do que da mitigação necessária?
Nando Reis em sua "Não Vou me Adaptar" lá pelas tantas pergunta: "Será que eu falei o que ninguém ouvia? Será que eu escutei o que ninguém dizia?". É uma boa maneira de retratar o impressionante descompasso que persiste, entre o que a Ciência do Clima "escuta" a partir dos dados das mais diversas origens e o que ela diz a guisa de conclusões sobre a mudança climática e seus riscos. Pior, há um sério perigo hoje em dia, por conta dos ouvidos moucos das corporações, dos governos e da população em geral, de um recuo ou rebaixamento no discurso, de uma tentativa de, não contando uma história tão terrível quanto a real, conseguir um mínimo de atenção.

Nesse contexto, o uso cada vez mais instrumentalizado do termo "adaptação" no discurso acerca do que fazer face as mudanças climáticas tem-me levado a procurar refletir mais profundamente sobre seu significado no contexto de um capitalismo global, irrefreado, predatório em essência e oposto à diversidade ecológica, biológica, étnica e cultural. E mesmo se essa palavra, sempre tida como a cara-metade, a complementaridade da "mitigação", deve realmente seguir em uso, em meio aos que combatem a mudança climática.

Explico: consciente ou inconscientemente me parece que a "adaptação" é hoje empunhada como
bandeira, por setores do movimento ambientalista, pelos cientistas e mesmo por parte dos gestores melhor intencionados, numa espécie de conformismo ou rendição (dizendo que "é preciso adaptar-se ao que for inevitável em termos de mudanças climáticas", mas incluindo boa parte do "evitável" na conta do "inevitável"). Por outro lado, vindo de outros segmentos, ela parece vir como salvaguarda do sistema, para esconder que somente medidas muitíssimo radicais são capazes de evitar impactos que, sem exagero, podem ser caracterizados de catastróficos não apenas à sociedade humana, mas para ampla porção da teia de vida planetária. É a bandeira da "adaptação" servindo para dourar a pílula e para desviar o foco central da mitigação. Uma extinção acelerada da matriz fóssil já é necessária e isto implica em enviar para o museu o espetacular mundo da hiperprodução e hiperconsumo e sua demanda insustentável de matéria-prima e energia para os processos produtivos, que já compromete o metabolismo do sistema Terra, as suas trocas e fluxos. Reajustar nossa sociedade, nossa matriz energética e nossa base produtiva a esse metabolismo: eis a "adaptação" necessária!

A verdadeira "adaptação" a ser defendida hoje é uma só: a da
sociedade humana aos ciclos naturais e fluxos de matéria e
energia do Sistema Terra.
Não adianta semear ilusões, até porque o crescimento capitalista exerce pressões já insuportáveis sobre outros pontos nodais da crise ecológica além do clima, afetado fundamentalmente pelos rejeitos gasosos menos reativos (e portanto estáveis e de vida longa) advindos dos processos de geração de energia, produção agropecuária e industrial. Também estão muito próximo do limite o uso de água doce (a crise hídrica se entrelaça com a crise climática, mas é fortemente determinada pela demanda, principalmente para agricultura, indústria pesada e para a própria geração de energia inclusive por fontes fósseis e até pela geração por fissão nuclear), o uso e ocupação da terra (as ditas "terras agricultáveis" ainda não ocupadas são nada menos, em sua maioria, do que as florestas tropicais, importante peça do sistema climático sob forte ameaça), os ciclos do nitrogênio e fósforo, etc. etc. etc.

Nesse sentido, cada vez menos, em virtude de sua apropriação pela lógica do capital, parece haver "complementaridade" entre adaptação e mitigação. Pelo contrário, cada vez mais a ênfase na primeira parece emergir como uma fuga da segunda. No limite, cada vez mais a não-mitigação torna "inevitáveis" consequências cada vez mais graves e catastróficas do aquecimento do Sistema Terra. E o discurso de "adaptar-se ao que é inevitável" se esgotará na própria inadaptabilidade ao que será, sob o paradigma vigente, inevitável. Mesmo numa perspectiva antropocêntrica (como se fosse possível ignorar as centenas de milhares ou milhões de espécies incapazes de se adaptar - por mudanças no seu pool genético, migração, alterações nas interações ecossistêmicas etc. - a mudanças já em curso), que adaptação pode haver ao que já se vislumbra num horizonte de algumas décadas para diversos contingentes humanos?

O crescimento capitalista, em cujo coração energético está a
queima de combustíveis fósseis, é desprovido de racionalidade.
Na Natureza, nada cresce indefinidamente sem estabelecer
uma instabilidade que leva a uma alteração radical na dinâmica
do sistema, eliminando-a como solução da crise.
Que adaptação se vislumbra para os indígenas da floresta tropical sul-americana e centro-americana, mesmo que sua luta pelo território seja vitoriosa, caso se confirmem projeções de alterações expressivas no ciclo hidrológico e de nutrientes associadas às mudanças climáticas, a um iminente aumento do risco de incidência de incêndios florestais, pragas e estresse hídrico associado a altas temperaturas? Que adaptação aparece no horizonte para inúmeras populações costeiras cujo modo de vida se vincula à atividade pesqueira diante dos efeitos deletérios da acidificação oceânica e outras alterações de natureza dinâmica-termodinâmica (correntes e estratificação e transporte vertical via alterações nos campos de temperatura e salinidade) e biogeoquímica, com impactos que vão da mortandade dos corais e dos pequenos crustáceos (estes, componentes fundamentais da base da cadeia alimentar em vastas extensões oceânicas) a mudanças virtualmente imprevisíveis na produtividade primária e no fitoplâncton? Que adaptação se pode falar para os inuits e as dezenas de povos tradicionais do extremo norte do planeta com as mudanças particularmente aceleradas do Ártico, que podem deixar a região praticamente sem gelo no verão-outono boreal e sem grande parte do permafrost em uma escala de poucas décadas?

Em nome da "adaptação" como bandeira, o que considero mais provável é que o inadaptável emerja como o inevitável. Empurrar as políticas duras, urgentes e necessárias de corte profundo nas emissões de gases de efeito estufa para depois a fim de salvaguardar a "economia" (ou melhor, o capital) é uma forma sui generis de suicídio coletivo (e também, claro, de suicídio). Equivale, ao meu ver, àquele que chega a beira de um precipício mas, por não querer "comprometer a caminhada", acredita que se adaptará à consequência do passo em frente.

Devemos acrescentar que adaptar-se aos cenários de grandes emissões é também virtualmente impossível, dado que as mudanças projetadas nesses casos são aceleradas e não tendem a um estado estacionário, isto é, uma nova condição de estabilidade à qual seja possível uma adaptação. Mais do que isso é preciso reconhecer que as incertezas quanto aos desdobramentos das mudanças climáticas são mais imprevisíveis precisamente nos cenários de maiores emissões. Adaptar-se implica em preparar, com antecedência, o enfrentamento a determinadas circunstâncias (problemas de abastecimento de água, dificuldade de manter determinadas culturas agrícolas, deslocamento de comunidades por conta da elevação do nível do mar etc.). Mas até para que algum tipo de planejamento seja possível, conter a crise climática já, cortando emissões, é a única alternativa existente!

Também é inútil achar que apresentar a crise climática em cores mais brandas isso possa mobilizar sociedade e governos. Quando são mostrados os dados de realidade, a velocidade das transformações, os riscos brutais, a alcunha de catastrofismo e alarmismo aparece de imediato, é verdade. Mas ao se atenuar o discurso, ao se conciliar com a "adaptação", ao se assumir uma postura conivente com o "não é tão grave assim", a paralisia não apenas permanece (afinal outras prioridades são imediatamente eleitas) como se perde algo fundamental, e que é o fio de esperança, que é a coerência, a persistência, a clareza na crítica à crise climática como produto inerente do crescimento capitalista montado na mula-sem-cabeça fóssil. O "subnegacionismo" é uma capitulação vergonhosa e inadmissível.

Vivemos num tempo absolutamente acelerado e em que transformações urgentes, rápidas, profundas em nossa sociedade precisam ser operadas. Do contrário, transformações involuntárias e indesejadas serão impostas à nossa sociedade pela incapacidade de esta se sustentar, tal como a conhecemos, em meio a um planeta de temperaturas escorchantes, com eventos extremos de secas e tempestades, com um ecossistema global arruinado. Na ampulheta, os últimos grãos de areia se esvaem, deixando a parte de cima. Só há uma maneira de ganharmos tempo, ou melhor de conquistarmos condições para que a aventura humana continue sem ser brutalmente interrompida por uma catástrofe ecológica global: virá-la de cabeça para baixo!

Um comentário:

  1. Excelente artigo. A imagem da ampulheta está corretíssima. O sistema vida só será preservado, se fizermos radical correção de rota. Continuar na mesma direção seria dar mais um passo, quando já estamos à beira do abismo.

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