No verdadeiro meio científico não há negacionismo. Mas isso está longe de ser suficiente.


Ao lado, mostramos uma montagem feita a partir de cartaz verdadeiro da EGU2015, na verdade, um espaço para avisos ainda não utilizado (já que no momento em que a fotografei estávamos ainda a algumas horas da abertura do evento). O que ele diz é óbvio: assim como não há defensores da "Terra Plana" ou alguém que afirme que nosso planeta tenha sido criado há 6000 anos, em meio aos especialistas em Geologia, nem, nas seções dedicadas à Paleontologia, alguém que afirme que as formas de vida apareceram, por obra divina, exatamente como são hoje, desprezando todas as evidências de registro estratigráfico, de radioisótopos, de registro fóssil etc., nas seções relacionadas ao clima também não se vê o equivalente, em nosso caso, a criacionistas ou "flat-earthers": os negadores da mudança climática. Mas o que se esconde atrás do óbvio é que devemos nos preocupar muito, não apenas e talvez nem principalmente com o negacionismo aberto (que é grosseiramente anticientífico), mas com formas mais sutis de fuga do problema da crise climática.


As Assembleias Gerais da EGU há vários anos vêm sendo um importante momento não apenas para intercâmbio de ideias entre cientistas, mas também de divulgação público de importantes descobertas referentes às Ciências da Terra. Nesta publicação, destacarei algumas das coletivas de imprensa, com os respectivos links (infelizmente apenas em inglês) em que descobertas importantes e críticas da Ciência do Clima foram apresentadas ao público, mas acrescentarei uma, que, obviamente não se trata de uma peça de propaganda negacionista (afinal as baboseiras que os negacionistas dizem não têm lugar em um evento científico de verdade) mas que parece vir na contra-mão e nos mostra o tamanho do enrosco que temos, dentro mesmo da comunidade científica, algo que só poderia mesmo se revelar melhor num ambiente multidisciplinar como um encontro de "Geociências" que vão da Sismologia à Hidrologia; da Climatologia à Tectônica.

Coletiva de imprensa de 2009 sobre o
futuro da criosfera: geleiras e permafrost
em perigo. O slide de Larry Hinzman
mostra um episódio súbito ("overnight")
de rebaixamento da supefície causado
pelo derretimento de gelo que preenchia
rachaduras em camadas mais profundas.
Uma das preocupações constantes nas conferências de imprensa da EGU é o destino da criosfera, ou seja, do gelo, particularmente no Ártico. Na edição de 2009 do evento, o Dr. Luke Copland, da Universidade de Ottawa, apresentou, para além do conhecido problema da perda de gelo marinho, evidências de colapso acelerado das plataformas de gelo no Ártico. Na mesma coletiva, Dr. Wilfried Haeberli mostrou a aceleração da redução das geleiras (com a taxa de derretimento dobrando de uma década para a outra) e debate a conexão disso com o suprimento de água em vários locais do mundo. Por último, o Prof. Larry Hinzman, da Universidade do Alaska, alertou para o aquecimento do permafrost vários metros (20m, em um dos conjuntos de medidas mostradas) abaixo da superfície, numa porção do solo em que as variações anuais sequer são percebidas, mas na qual o aquecimento global já demonstrava ali o seu impacto. Naquele momento, ele documentou episódios súbitos de rebaixamento da superfície, associados precisamente ao derretimento de gelo que preenchia rachaduras no permafrost ("perma"?) e o risco imenso para os assentamentos de comunidades originárias. Também em 2009, uma das coletivas mostrou parte do documentário "A Sea Change", seguido de perguntas para cientistas envolvidos no projeto, mostrando um pouco da dramaticidade da profunda mudança na biogeoquímica oceânica que acompanham as mudanças climáticas: a acidificação oceânica, que coloca em risco grave simplesmente todo o ecossistema marinho.

Em apenas 5 anos, o cenário apresentado
pelo Prof. Wadhams na EGU2010, de
desaparecimento do gelo marinho do
Ártico no verão não apenas se mostra
ainda mais concreto como vem
acompanhado do avanço de perdas em
geleiras da antes supostamente intacta
Antártica. 
No ano seguinte, o Prof. Peter Wadhams, da Universidade de Cambridge, falou sobre a expectativa concreta de desaparecimento praticamente já inevitável (em suas estimativas, em 20 a 40 anos) do gelo do Ártico durante o verão (além da sua redução tanto em área quanto em espessura no próprio inverno). De lá para cá, o recorde de redução da cobertura do gelo no verão estabelecido em 2007 já foi quebrado em 2012, medidas indicaram que a redução em volume é de incríveis 81% desde que o monitoramento por satélite se tornou possível há pouco mais de 3 décadas, levando a representação do declínio do gelo marinho do hemisfério norte através de um gráfico conhecido como "espiral da morte" e 2015 iniciou com a menor quantidade de gelo de inverno já registrada. Além disso, constatou-se que a Antártica, que Wadhams citava como livre de degelo, longe disso, também mostra sinais preocupantes de derretimento, não do gelo marinho, mas de geleiras importantes como a geleira Totten, por meio de processos não conhecidos até recentemente, incluindo correntes marinhas aquecidas subsuperficiais.

O negacionismo enquanto ideologia ou
propaganda realmente não aparece em
nenhum evento científico sério. Mas há
outras variantes, sutis, da negação da crise
climática, que podem ser tão ou mais
peigosas e danosas. O que inclui a
denegação, a dissociação e a indiferença
Mas aí, no mesmo ano (2010), temos outra coletiva de imprensa que involuntariamente denuncia parte do problema em que estamos metidos. Ela reuniu especialistas trabalhando com metano: Alina Stadnitskaia, Matthias Haeckel, Helge Niemann e Martin Krüger, o que poderia sugerir que tivéssemos um debate importante que nos levaria a avaliar os riscos de suas emissões, possíveis mecanismos de retroalimentação envolvendo esse gás no sistema climático terrestre, etc. Ao invés disso... Um dos apresentadores (Krüger) inicia sua apresentação afirmando:

"Tem aparecido nas últimas décadas evidências generalizadas de formação biogênica de metano em sistemas profundos, ou seja, reservatórios de petróleo e carvão e por que isso é importante para nós? Uma razão é que emissões de metano na mineração de carvão contribuem com 8% das emissões globais e um aumento na mineração de carvão na China ou na Índia, o que é esperado, deve levar a que essas emissões aumentem ainda mais. Outro aspecto importante para nós é que o metano é um combustível mais amigável ao clima. Comparado com carvão ou petróleo, a queima de gás leva a emissões muito menores de CO2. Outro ponto é que a disponibilidade de combustíveis fósseis, carvão e petróleo, é limitada, e vemos aqui a previsão de produção de petróleo ao longo dos próximos 50 anos e dependendo de que tipo de recursos você introduz nos cálculos o pico do petróleo (...) está vindo em 2020 ou 2040 (...)".

E por aí segue, mencionando a "qualidade" do petróleo que resta, a necessidade de "independência energética" e chega à conclusão de que "novas tecnologias" são necessárias, incluindo a conversão microbiana de petróleo e carvão em metano... Sim, leitor/a, você provavelmente percebeu que as mudanças climáticas apenas foram tangenciadas no discurso em seu início, certamente ficou sentindo falta de uma crítica à matriz fóssil e de qualquer menção à necessidade de adoção de fontes energéticas renováveis e de emissão zero. Claramente se percebe que o Sr. Krüger simplesmente não entendeu (ou fingiu que não entendeu) nada do que se passou nas salas vizinhas. Pois é... "Pico de petróleo", "transformação de petróleo e carvão em metano"? Alguém esqueceu de avisar ao rapaz que 80% do carbono fóssil precisa ficar exatamente onde está, independente se na forma original de carvão ou bioprocessado em metano, ou seja, não deve sair do subsolo? Pior é ouvir de outros participantes da mesma coletiva de imprensa que se cogite usar o metano aprisionado nos hidratos/clatratos como fonte de energia. É a própria orquestra do Titanic tocando enquanto o navio afunda!

Escolha. Talvez ainda tenhamos. Mas o próprio meio
acadêmico  estranhamente continua dando sustentação a
ramos do "conhecimento" que a sabotam.
É uma gritante contradição com outra coletiva, de 2012, cujo link já apresentei, que reuniu numa mesma mesa além de James Hansen e Michael Mann, o Prof. Michael Gill, da UCLA, dois anos depois, que abordou a questão da sensibilidade climática e cujas conclusões podem ser resumidas em uma das frases de Hansen no evento: "precisamos restabelecer o equilíbrio energético do planeta". Está também em igualmente perturbadora contradição com a apresentação feita acerca do mais recente relatório do IPCC, o AR5, na edição do ano passado da Assembleia Geral da EGU, que também pode ser resumida em uma frase proferida então por Thomas Stocker (e mostrada em um slide): "Hoje, nós temos escolha" (com um "ainda" obviamente implícito).

Se no mesmo evento portanto encontramos uma desconexão tão gritante, o que dizer no dia-a-dia do trabalho acadêmico e da própria sociedade em geral? Na minha opinião, é evidente que há um sério problema de ausência de conectividade, portanto, não apenas entre a Ciência do Clima e a sociedade e governos, mas inclusive entre ela e outros ramos da ciência não muito distantes. E aqui é preciso mais uma vez colocar o dedo em algumas feridas. É evidente que campos como certas Engenharias, a Geologia, a Agronomia etc. têm uma ligação forte com segmentos econômicos diretamente vinculados a emissões dos gases de efeito estufa. Geólogos e engenheiros são contratados aos montes pela indústria petroquímica e pela indústria de mineração (o que inclui, naturalmente, a mineração de carvão) e é evidente que o agronegócio, incluindo a pecuária, são um destino quase natural para egressos dos cursos de Ciências Agrárias. Economistas são ensinados, claro, a terem o crescimento econômico como paradigma sagrado, em nome do qual vale quase qualquer coisa, sem serem instruídos acerca dos sérios limites ecológicos para as atividades produtivas. Administradores e gestores, lembrando uma observação feita pelo Prof. Gill dão um estranho valor a resultados de modelos macroeconômicos, cheios de premissas questionáveis, ao mesmo tempo que ignoram quão fortemente baseados em princípios físicos são os nossos modelos, os modelos climáticos. Evidentemente essa percepção distorcida afeta a formulação de políticas públicas e a tomada de decisões de uma maneira bastante negativa.

E aí entramos na própria discussão do que fazer com esses ramos do conhecimento, os currículos acadêmicos a eles relacionados e, por fim, a integração dos seus egressos no mundo do trabalho. É inadmissível que, em pleno 2015, não existam disciplinas diretamente inseridas no currículo de cada um destes cursos, voltadas para os impactos das atividades econômicas nas quais os estudantes estão por se envolver. Se o/a leitor/a acha que isso introduziria contradições nos currículos, bingo! Mas asseguro que muito mais contraditório (contraditório com as necessidades da sociedade humana no século XXI) é continuarmos a parir, em nossas instituições acadêmicas, geólogos e engenheiros de petróleo que não tenham estudado devidamente o aquecimento global, bem como os impactos ambientais de vazamentos e outros desastres associados à indústria fóssil, bem como agrônomos que ignorem o impacto das emissões de metano e CO2 associadas à fermentação entérica e ao desmatamento e o desequilíbrio nos ciclos globais do nitrogênio e fósforo associados ao uso de fertilizantes, isso para não mencionar o que se conhece sobre os profundos malefícios trazidos pelos agrotóxicos.

O negacionismo ópera-bufa de meia dúzia de pilantras pode 
estar com os dias contados. Mas diante da formação de um
exército de profissionais prontos a negar a mudança climática
para não negarem a própria existência, há muito mais com o
que se preocupar. 
Na verdade, na exata medida em que defendemos a extinção de ramos inteiros da economia (pelo menos aqueles que têm levado de forma mais direta o Sistema Terra a uma condição perigosa de desequilíbrio, como a indústria de combustíveis fósseis), defendemos a extinção de determinadas carreiras acadêmicas ou, no mínimo, uma transformação radical em seu sentido, com alterações igualmente radicais no seu suporte teórico e em suas práticas. Essa desconexão disciplinar produz perigosamente uma legião de profissionais que, independente do bom caráter, introjetam e naturalizam valores, conceitos e noções que não só não são naturais como são extremamente prejudiciais. Aos milhares, seja por pouco conhecimento dos impactos da própria atividade, por limitações de entendimento, apego a ideias profundamente incutidas em anos de estudos universitários e, depois, exercício da profissão, tem-se uma massa cuja inércia intelectual é uma forte inimiga nossa. Essa massa, confrontada com a realidade apontada pela Ciência do Clima, tende à denegação, evita o conflito cognitivo simplesmente recusando a informação sobre a mudança climática e outros aspectos ambientais e prefere "seguir sua vida normalmente", engrenagens de um sistema extremamente forte e poderoso, tanto quanto destrutivo e perigoso.

Nesse contexto, o negacionismo bufão de Molion e Felício, então, fica como um bode (fantasiado) na sala. É espalhafatoso e fedido. Claro, não que o papel que cumprem (de confundir a opinião pública, de bajular o agronegócio e de dar lastro à ausência de posicionamento de governantes e gestores sobre a crise climática) seja menos prejudicial e nocivo. Longe disso. Continua sendo. Mas a energia que se tem de despender para refutar as mentiras baratas vendidas por gente de seu calibre poderia ser usada para travar outro combate. Aquele contra ramos do conhecimento que, a princípio, se fosse possível tomá-los isoladamente, poderiam ser considerados cientificamente legítimos.

Comentários

  1. Se você fosse adorador de Alá, iria pregar o extermínio de todos os que não o adoram : " ...defendemos a extinção de determinadas carreiras acadêmicas... "

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