segunda-feira, 27 de abril de 2015

Leo Dicaprio: "Eu não sou um cientista, mas não precisa ser."

O discurso foi feito há alguns meses, mais precisamente na cúpula da ONU em Setembro passado, mas acredito que ele tenha escapado ao radar das mídias alternativas do Brasil. Leonardo Dicaprio é uma expressão de algo que precisamos ver com mais frequência: figuras públicas entendendo a gravidade da situação, percebendo a urgência para se resolver a crise climática e propondo ação. Da minha parte, acho que sem uma efetiva pressão de baixo, dos mais atingidos pela mudança climática, os governos tenderão a continuar na zona que mistura conforto e rendição aos lobbies fósseis: que leva à inação e à irresponsabilidade, à continuidade dos subsídios às petroleiras e mineradoras. E pela força e sinceridade do discurso de Dicaprio, acredito que valha a pena apresentar para vocês a tradução. Mais Leos, por favor!


Obrigado, Senhor Secretário-Geral, Excelências, Senhoras e senhores, e convidados ilustres. Estou honrado de estar aqui hoje. Estou diante de vocês não como um especialista, mas como um cidadão preocupado, uma das 400 mil pessoas que marcharam nas ruas de Nova York, no domingo, e os bilhões de outros ao redor do mundo que querem resolver a crise climática.


Leonardo Dicaprio ao lado dos povos originários, defendendo
o fim da exploração das areias betuminosas, na Marcha
Popular pelo Clima em setembro do ano passado.
Como ator, eu finjo para viver. Eu interpreto personagens fictícios, muitas vezes resolvendo problemas fictícios. E eu acredito que a humanidade olhou para a mudança climática da mesma maneira: como se fosse uma ficção, acontecendo em outro planeta, como se, ao fingir que a mudança climática não era real, de alguma forma ela fosse embora.

Mas eu acho que nós sabemos mais do que isso. Toda semana, estamos vendo eventos climáticos novos e inegáveis e as evidências de que a mudança climática acelerou estão aqui e agora. Sabemos que as secas estão se intensificando, que nossos oceanos estão se aquecendo e se acidificando, com nuvens de metano emanando a partir do piso do oceano. Estamos vendo eventos climáticos extremos, o aumento da temperatura, e os glaciares da Antártica Ocidental e da Groenlândia derreterem em taxas sem precedentes, décadas à frente de projeções científicas.

Nada disso é retórica e nada disso é histeria. É verdade. A comunidade científica sabe que, indústria e governos sabem disso, que até mesmo o exército dos Estados Unidos sabe disso! O chefe do comando da Marinha dos EUA no Pacífico, almirante Samuel Locklear, disse recentemente que a mudança climática é a nossa maior ameaça de segurança.

Meus amigos, esta cúpula - talvez mais do que qualquer outra reunião na história humana - agora enfrenta tarefa difícil. Vocês podem fazer história ... ou virarem vilões perante ela.

Para ser claro, não se trata apenas de dizer às pessoas para mudar suas lâmpadas ou para comprarem um carro híbrido. Este desastre tem crescido para além das escolhas que as pessoas fazem. Agora diz respeito às nossas indústrias e cabe aos governos de todo o mundo agirem em uma grande escala, decisiva.

Eu não sou um cientista, mas não precisa ser. Porque a comunidade científica do mundo tem falado e eles nos deram um prognóstico, de se não agirmos em conjunto, certamente pereceremos.

Agora é o nosso momento para a ação.

Precisamos colocar um preço sobre as emissões de carbono e eliminar os subsídios do governo para o carvão, gás e companhias de petróleo. Precisamos acabar com o passe livre que aos poluidores industriais foi dado, em nome de uma economia de livre mercado. Eles não merecem o dinheiro dos nossos impostos, eles precisam é do nosso controle. A economia é que morrerá se nossos ecossistemas entrarem em colapso.

A boa notícia é que a energia renovável não é apenas uma política econômica viável, mas boa. Uma nova pesquisa mostrou que, em um 2050 limpo, a energia renovável poderia suprir 100% das necessidades energéticas do mundo, utilizando tecnologias existentes, e criaria milhões de empregos.

Este não é um debate partidário; é um debate humano. O ar puro, a água e um clima habitável são direitos humanos inalienáveis. E resolver esta crise não é uma questão de política. É nossa obrigação moral, o que chega a ser assustador.

Temos apenas um planeta. A humanidade deve assumir a responsabilidade de, em grande escala, ter agido para a destruição gratuita de nossa casa coletiva. Proteger o nosso futuro no planeta depende da evolução consciente de nossa espécie.

Este é a mais urgente dos tempos, e a mais urgente das mensagens.

Honrados delegados, líderes do mundo, eu finjo para viver. Mas vocês não. As pessoas fizeram com que as suas vozes fossem ouvidas no domingo em todo o mundo e esse impulso não vai parar. Agora é a sua vez: o tempo para responder ao maior desafio da nossa existência neste planeta ... é agora. Peço-lhes que o enfrentem com coragem. E honestidade. Obrigado.


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