Os Negadores das Mudanças Climáticas encontram uma Radical à Altura: a Natureza!


Furacão Sandy
O título alternativo deste artigo bem poderia conter “o IPCC é fichinha” ou, de forma mais inclusiva, “Cientistas do Clima somos fichinha”. Isto porque, de fato, o embate entre nós e os negadores está longe de ser justo.

O debate científico se dá em Conferências e Congressos e, principalmente, por meio da literatura com revisão. São necessários vários meses para um artigo científico (que não raro sintetiza resultados de anos de trabalho), após, às vezes, múltiplas idas e vindas de revisões, finalmente ser publicado (suas conclusões sendo geralmente restritas a um pequeno aspecto da ciência e, por ter de necessariamente ser apresentada de forma técnica, acessível a um público muito restrito de especialistas da própria área).  Apesar de suas imperfeições (erros em artigos científicos podem, sim, ocorrer), do olhar não raro fragmentado, e de sua aparência geralmente obscura para o grande público, são – particularmente hoje em dia - as contribuições parciais, os pequenos avanços e retrocessos, que pavimentam o caminho para sólidas conclusões científicas.


A clareza de entendimento em torno da mudança climática atual, do papel antrópico determinante e do risco envolvido foi fruto dessa acumulação de evidências. Apoiando-se em conhecimentos mais fundamentais da Física, da Química, da Astronomia, da Biologia, da Geologia e das interfaces entre elas, e sobre uma colossal quantidade de dados, análises, modelos de diversos níveis de complexidade é que a Ciência do Clima erigiu seu edifício. Nesse contexto, quando as peças se encaixam, a quantidade (as múltiplas informações parciais, mas convergentes) se transforma em qualidade (a “Big Picture”), no quebra-cabeça montado, demonstrado várias e várias vezes nos relatórios de avaliação do IPCC.

Por outro lado, os negadores não seguem as regras do debate e do método científicos. Pelo contrário, atacam-nos, sem cerimônia. É possível fazer qualquer afirmação tresloucada em um blog, em uma palestra, em um “debate” (desses que mais parecem debate eleitoral) ou em uma aparição na mídia. A liberdade para mentir, fantasiar, tergiversar nesses casos é quase infinita e para quem tem compromisso com a verdade científica, é difícil dar conta até de uma pequena parcela dessas mentiras, falsificações e tergiversações. Explicar porque determinada afirmação é falsa dá muito mais trabalho do que fazê-la. Desnudar inveracidades, desmistificar o “cherry-picking” (o ato de escolher um dado entre mil que aparentemente serve de base para uma dada afirmação), localizar sofismas não é trivial no pouco tempo ou espaço que se tem nesse terreno. É desse terreno que os negadores gostam. É por meio dele, e não de um debate verdadeiramente científico e honesto, que eles tentam envenenar a opinião pública e os tomadores de decisão. Deveriam se envergonhar. Mas não! Nesse terreno, um negador que seja um orador (ou escritor) talentoso, cujo semblante não trema, mesmo quando faz afirmações obviamente mentirosas como “o efeito estufa não existe” ou “os modelos de clima não consideram as correntes oceânicas”, deita e rola.

Poucos cientistas, portanto, terminam por entrar nessa arena de gládio, para encararem o vale-tudo dos negadores. Individualmente, nada se ganha ao fazê-lo, pelo contrário. Perde-se tempo e energia que poderia estar sendo dedicada à pesquisa e à produção científica (que infelizmente é avaliada segundo métricas quantitativas que nem sempre refletem a real contribuição à ciência). Há também os cientistas que acham que não é seu papel popularizar a ciência ou sequer combater a pseudo-ciência e a anti-ciência junto ao público. Por fim, há um fator que não se deve desprezar. Pela virulência dos ataques e pelo grau acentuado de desonestidade dos negadores, muitos dos meus pares simplesmente preferem não lutar no terreno deles. É preciso, realmente, muito estômago!

Mas felizmente, os negadores têm um adversário à altura, que não precisa, como nós, caminhar sobre ovos! Um adversário duro, bruto, que vai direto ao assunto, que não se intimida, que não faz juízo de valor, que não tem ideologia. É esse adversário, e não o IPCC e o restante da comunidade da Ciência do Clima, quem tem feito o contraponto mais cristalino aos negadores. Chama-se Natureza! Esta não tem de se preocupar em testar múltiplas vezes suas próprias hipóteses, nem em revisar, em um processo lento, uma análise sobre suas próprias leis. Ela simplesmente é. Simplesmente se comporta de acordo com suas próprias regras. Simplesmente faz! E bate duro na negação!

Chequemos, portanto, o que a Natureza nos tem afirmado. No que diz respeito às projeções do IPCC de temperatura, feitas quando da preparação do seu 4° relatório, estas têm-se confirmado de forma bastante clara, como mostra a Figura ao lado.

A região cinza nessa Figura representa a faixa de projeções do conjunto do IPCC (de tal modo que 95% das previsões se encontra dentro dela). A linha preta é a média delas. As linhas coloridas representam observações da temperatura média global, de acordo com 3 centros de pesquisa. Baixa atividade solar e ocorrência mais frequente de La Niñas (situação em que o Pacífico Equatorial esfria) nos últimos anos podem ter diminuído a velocidade do aquecimento verificada nos anos 90, mas o que assusta é que, em condições como as dos últimos anos, nós deveríamos ter observado um resfriamento do sistema terrestre! Ou seja, ficamos com o nó na garganta, esperando o que pode vir no próximo período em que uma maior atividade solar coincidir com uma maior frequência de El Niños (quando o Pacífico Equatorial se aquece)... Tudo indica que, neste caso, ao invés de aumentarem num ritmo um pouco abaixo, mas próximo ao da média do conjunto dos modelos do IPCC, as temperaturas voltem a mostrar um aumento pronunciado.

Existe outra figura, talvez ainda mais relevante (ao lado) e que reforça essa idéia. Nela, percebe-se uma grande variação de ano a ano na temperatura média global (linha vermelho clara), mas segundo uma metodologia de remoção do ruído produzido pela combinação de El Niño, vulcanismo e variabilidade solar (produzindo a linha destacada em vermelho), percebe-se a concordância plena entre o conjunto de modelos do IPCC e as observações (veja que, descontado o El Niño forte de 1997-1998 e as La Niñas fortes de 2007-2008 e 2011-2012, os pontos mais distantes se aproximam da curva central, com sua tendência absolutamente clara de aquecimento.

Mas na verdade, mesmo que tivéssemos observado uma constância nas temperaturas ou mesmo um ligeiro resfriamento nos últimos anos, isso não poderia servir de argumento para os negadores! La Niñas e sol pouco ativo deveriam ter servido para resfriar o planeta, o que obviamente não aconteceu em função da contribuição antrópica.

Representação simplificada da
contribuição antrópica para a
mudança de temperatura
Representação idealizada da variação 
"puramente natural" de temperatura

(oscilação simples)
As figuras que mostro ao lado são para explicar, de forma didática, a sobreposição dessas duas contribuições (natural e humana). Os processos naturais, a princípio, poderiam ser considerados cíclicos, ou quase cíclicos. Há muitos ciclos, de diferentes frequências e uma boa dose de “caos” (que dá um cara de aleatoriedade a alguns processos climáticos), mas por simplicidade, assumiremos uma oscilação simples, com a temperatura subindo durante alguns anos, descendo nos anos seguintes, depois voltando a subir, e assim por diante, como na figura acima, à esquerda. Mas existe a contribuição do homem, que é obviamente de aquecimento (como já discuti, acumular CO2 e outros gases de efeito estufa na atmosfera não tem como produzir outra coisa!). Isso seria representado por uma curva ascendente, isto é, com a temperatura sempre subindo. Como a contribuição antrópica tem-se acelerado, um gráfico da contribuição “puramente humana” poderia ter a aparência da curva em vermelho.

Representação do resultado da sobreposição dos efeitos
natural e antrópico, indo de um estado dominado pelo
fator natural até um estado dominado pelo fator antrópico
Somando as duas contribuições, isto é, a “natural”, representada pela primeira curva e a “antrópica”, pela segunda, o que se verifica é algo bastante interessante, ilustrando em parte o que já se viu e em parte o que se deve esperar no futuro (figura ao lado). No começo (faixa azul), o sinal humano é muito pequeno e as oscilações naturais dominam por inteiro. No período imediatamente posterior, as oscilações naturais ainda se destacam, mas o sinal humano cresce, tornando-se discernível, mesmo sendo ainda relativamente pequeno. Em seguida (faixa laranja), temos algo como aumentos acelerados de temperatura, alternados com períodos de poucas variações. No meu ponto de vista, estamos ainda nessa fase, mas duas coisas devem ser ditas. No próximo ciclo em que o sinal humano e o sinal natural estiverem ambos contribuindo para o aquecimento (como no local indicado pela seta, na figura acima), deveremos experimentar um aquecimento mais acelerado do sistema climático do que aquele verificado nos anos 90. Mais ainda! No período posterior (faixa vermelha), o sinal antrópico tende a ser dominante! Isso é representado pelo final do gráfico, em que mesmo quando tivermos condições naturais (sol menos ativo, ocorrência maior de La Niñas), o aquecimento praticamente não desacelera!

Comparação das projeções de elevação do nível do mar dos
modelos do IPCC com observações. 
Fonte:
http://www.global-warming-forecasts.com/resources/sea-level-increase.png
Mas são outros componentes do sistema climático terrestre que, por sofrerem menos influência de oscilações naturais de alta frequência do que a atmosfera, têm-se mostrado ainda mais veementes ao “negarem a negação”.

Comparação das projeções de degelo do Ártico dos
modelos do IPCC com observações. Fonte: 

http://www.realclimate.org/images/seaice11.jpg
Comparemos primeiro as projeções de elevação do nível do mar com o que tem acontecido na realidade. É fácil verificar que apenas o modelo mais "pessimista" ou "catastrofista" (não gosto desses juízos de valor) tem acompanhado a realidade (vide figura ao lado. As observações (representadas pelas linhas vermelha - marégrafos - e azul - satélite) estão sistematicamente acima da faixa cinza, que contém a maioria das projeções de modelos. Outro processo que tem mostrado uma realidade pior do que a das projeções do último relatório do IPCC é a do degelo do Ártico, como mostrado na Figura ao lado. O degelo real (linha vermelha) tem sido mais acelerado do que qualquer projeção dos modelos (várias outras linhas). Ainda que, nesses dois casos, outros processos que não o aquecimento global antrópico possam ter contribuído para acelerar as mudanças (elevação do nível do mar e degelo) para além das piores projeções feitas pelo IPCC, a Natureza tem falado alto. A humanidade, ridiculamente, faz ouvidos moucos.

Um dos paleoclimatologistas mais respeitados do mundo e um cientista de atuação inspiradora e contangiante, o Prof. Richard Alley, da Pennsylvania State University, costuma colocar a questão de forma muito simples. A realidade pode, sim, não ser tão ruim quanto a apresentada pelo IPCC que é baseada, como mostrei num texto anterior, em estimativas médias de várias quantidades, processos e fenômenos. Mas é fundamental dizer que existe a mesma chance de ser ainda pior e se o que mostrei podem não ser indícios totalmente claros nesse sentido, deveriam ao menos servir de alerta! Não agir para reduzir globalmente as emissões de gases de efeito estufa é, em tais condições, uma postura de total irracionalidade, irresponsabilidade e desprezo para com os direitos e aspirações das gerações futuras!



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