Rio 40 Graus... 41, 42, 43...


Rio 40 Graus é o título de um filme de Nelson Pereira dos Santos, de 1955, portanto de quase seis décadas atrás. Meninos da favela vendem amendoim sob um sol escaldante, em pontos turísticos do rio. Provavelmente pela realidade social mostrada no filme, o filme foi proibido durante a ditadura militar. O censor alegou, no entanto, posando de climatologista, que o filme seria mentiroso, pois a temperatura do Rio nunca teria excedido os 39,6 graus... Mas eis que hoje os sites de notícias anunciaram que a estação de Santa Cruz, na zona oeste da Cidade Maravilhosa, teria estabelecido novo recorde de temperatura, chegando aos 43,2°C.

Como cientista, não me contento em simplesmente receber esse tipo de informação e sair veiculando-a diretamente, então fui imediatamente caçar dados na página do Instituto Nacional de Meteorologia, o INMET. Sou cético. Sim, verdadeiramente cético, isto é, busco informação na fonte, checo a verdade dos fatos por mim mesmo, verifico a confiabilidade de minhas fontes e aí formo (e emito) minha opinião. E essa saudável dose de desconfiança, que nos leva a buscar evidências, é muito diferente da negação, que implica na recusa a aceitar as evidências, por mais avassaladoras que sejam.

Infelizmente, não é tão fácil navegar na página do INMET, mas consegui algumas informações interessantes. Peguei dados de dois pontos na cidade do Rio: da estação meteorológica de Santa Cruz e da estação meteorológica do próprio Rio de Janeiro. Não há registros disponíveis na página do INMET anteriores aos anos 1960, pois a instituição ainda está num esforço grande de digitalização dos dados passados. No caso da estação do Rio, os dados após julho de 2008 não aparecem, o que nos priva da possibilidade de checar o que aconteceu nos anos mais recentes nessa segunda estação. Mas ainda assim, foi possível reunir algumas informações interessantes.

De cara, contrariando os censores da ditadura, antes do golpe militar de 1964, a temperatura havia chegado na casa dos 40 graus em uma ocasião na estação de Santa Cruz (40,2°C em 05 de dezembro de 1963). Por 7 vezes isso aconteceu na década de 70, com valores de 40,6°C ocorrendo em duas datas (21 de fevereiro de 1974 e 25 de janeiro de 1976). Mas "Rio 40 graus" só voltaria a ocorrer depois que Fernandinha Abreu gravou, em 1992, a composição de Fausto Fawcett, Carlos Laufer e Fernanda Abreu, mais exatamente no ano seguinte, em 1993.

Mas foi no século XXI que igualar ou ultrapassar essa marca virou "moda". Na estação de Santa Cruz, temperaturas de 40 graus ocorreram em 2002 (incluindo o primeiro registro desde os anos 1960 acima de 41 graus em 21 de outubro), 2003, 2005, 2006, 2010 (3 vezes, incluindo a maior marca das últimas 5 décadas em Santa Cruz, os 41,5°C em 08 de fevereiro) e 2011 (4 vezes, com mais uma ocorrência de temperaturas acima de 41 graus, desta feita em 28 de janeiro). Analisando os dados, portanto, não encontrei recorde anterior de 43,1 graus há 29 anos, mas um recorde, que foi pulverizado hoje, 1,7 graus "mais frio". A estação do Rio, por sua vez, simplesmente não tem nenhum registro de temperaturas maiores ou iguais a 40°C até os 42 graus registrados em 1° de dezembro de 2002! Por 4 décadas desde os anos 1960 até o último dia do século XX, na verdade a maior temperatura registrada nessa estação foi de "apenas" 39 graus... No século XXI, porém, teve registros seguidos, por todos os anos, de 2002 a 2007. Imagino que ocorrências acima dos 40 graus também tenham se dado de 2008 para cá...

Essas temperaturas passaram a compor definitivamente a vida da cidade, como o samba e o funk. Mas é importante que estabeleçamos um "link" com outro processo recente, ocorrido no Rio: a manifestação patrocinada pelo Governo Cabral reivindicando veto presidencial sobre a proposta de redistribuição dos royalties do petróleo. Diga-se de passagem, a este ato aderiu boa parte da esquerda socialista do Rio, sem perceber que o "buraco" é muito mais embaixo, abaixo da camada do pré-sal...

Evidentemente, não se pode atribuir uma única onda de calor ao aquecimento global, até pelas definições distintas de tempo e clima (a relação entre extremos "de tempo" e o aquecimento global foi examinado por mim neste texto anterior). Também seria necessária uma investigação mais rigorosa dos dados, usando as ferramentas matemáticas apropriadas para aferir significância estatística em relação a esses eventos. Porém, um exame preliminar, mesmo que superficial, sugere que a ocorrência de ondas de calor que chegam a trazer não apenas desconforto, mas risco à saúde humana, tem-se mostrado mais frequente.

A ciência estabelece muito claramente: a emissão de gases de efeito estufa, principalmente na queima de combustíveis fósseis, está alterando significativamente o clima. Além da elevação das temperaturas médias, ondas de calor mais severas deverão se tornar mais comuns. Mesmo que ao invés do Governo Cabral existisse uma outra governança, com controle social e democrático sobre os recursos, nada justifica que as migalhas dos royalties e qualquer um dos pequenos benefícios de curto prazo que eles possam trazer se sobreponham aos interesses de longo prazo da humanidade e à garantia de direitos às futuras gerações, que não podem ficar à mercê de mudanças climáticas fora do controle. É sobre esse aspecto totalizante que quem pensa criticamente na bela cidade do Rio deveria se debruçar, abandonando uma mentalidade "desenvolvimentista" de dinossauro, incompatível com a necessidade de se colocar freio ao aventureirismo antiecológico do capital. Os argumentos contrários à falsa polêmica dos royalties e pela necessidade de manter parcela significativa das reservas fósseis intocadas já foram exploradas por mim neste conjunto de textos: (1), (2), (3) e (4). Espero que tais argumentos ganhem força e se tornem ação e luta... afinal, não queremos Fernandinha entoando "Rio 50 graus", queremos?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O colapso (in)evitável e o Antropoceno

A Falácia da "Mini-Era do Gelo"

Chega de desmaios por Justin Trudeau. O cara é um desastre para o planeta. (Artigo de Bill McKibben no Guardian)