segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O "leitor" e os "cientistas"

Jornal da Ciência, da SBPC
Como os leitores possivelmente sabem, enviei carta à diretoria da SBPC, em que critiquei o posicionamento da Sociedade sobre os recursos advindos do pré-sal. É lamentável que, tendo a mesma sido enviada para o email pessoal de cada um dos diretores, nenhuma resposta tenha surgido.

Por outro lado, o Jornal da Ciência, veículo da Sociedade, publicou meu questionamento. Aqui, porém, deixo momentaneamente de lado a questão de mérito científico sobre a discussão do impacto climático da exploração do petróleo do pré-sal para falar do discurso.

A publicação no Jornal da Ciência estampa a manchete "Leitor questiona posicionamento de cientistas sobre os royalties do pré-sal", que, no meu entender, passa, subliminarmente, a idéia de se tratar de um questionamento de um leigo em relação à opinião de especialistas abalizados para falar do assunto (os royalties do pré-sal).


Percebam que um sem número de manchetes alternativas poderiam ser propostas. A minha favorita seria "Especialista em clima questiona posicionamento da diretoria da SBPC sobre os royalties do pré-sal", por motivos óbvios... Mas algo mais neutro como "Leitor questiona posicionamento da diretoria da SBPC sobre os royalties do pré-sal" me pareceria bem mais razoável, não introduzindo nas entrelinhas nenhum argumento de autoridade, a priori.

- O rei está nu! O rei está nu!
Consciente ou inconscientemente, trata-se de uma tentativa de minimizar o problema, evitar que se chame atenção para o fato, ingenuamente apontado por este "leitor", que o rei está nu, ou melhor, que a lógica de desenvolvimento baseada em combustíveis fósseis não se sustenta. 

A realidade, como apontada pela carta, é absolutamente cristalina: se não desejamos levar o sistema climático terrestre a um estado em que poderosos mecanismos de retroalimentação podem mudar radicalmente os ecossistemas terrestre, com profundas consequências para o gênero humano, temos a obrigação de evitar a exploração das fronteiras fósseis. Isto inclui o petróleo do Ártico, as areias betuminosas de Alberta, o carvão dos EUA, Austrália e China e o pré-sal brasileiro. Os links, obviamente, remetem a ativismo contra o uso dessas reservas fósseis como demonstração de que combater a exploração do pré-sal - campanha que ainda não existe, infelizmente! - não faz parte de uma "conspiração" para evitar o desenvolvimento do Brasil.

Mas claro, isso está sendo apontado por um humilde leitor, contra a sapiência dos  doutos cientistas...

Como o rei da tradicional historinha, é fundamental para a diretoria da SBPC e demais sociedades científicas, despir-se. Despir-se da arrogância e analisar de maneira serena, sem desqualificações subliminares, sem a soberba que leva a ignorar, os argumentos do contraditório. 


Um comentário:

  1. Adjetivos pessoais à parte, a ciência é clara. Os efeitos são importantes, e a inércia é um crime às gerações futuras.

    Entendo que uma mensagem simples e clara das instituições que representem autoridade na ciência em geral, ou na climatologia em específico, seria essencial para que a população pudesse escolher seu destino com base na informação disponível. Aliás, considero ser um dever destas instituições fazer isso: Saramago expressa isso bem como "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam".

    Com certeza, se fosse possível questionar a SBPC sobre as propriedades óticas do CO2, sobre sensibilidade climática ou sobre as mudanças climáticas decorrentes do aquecimento, a resposta seria corroborar o consenso científico. Assim, apoiar a exploração de grandes jazidas sem nem ao menos mencionar as conseqüências físicas disso é um grande contra-senso que não se pode atribuir à falta de conhecimento daquela sociedade.

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