BBCdoB

À esquerda, reprodução da página da BBC Brasil. À direita, reprodução
da página da BBC News, ambos na manhã de 10 de Janeiro nos links
mencionados no texto
Por acidente, a partir de um site parceiro, o Portal Ecodebate. Foi assim que, após seguir o link para uma matéria da BBC Brasil, percebi que a mesma era assinada por David Shukman, Editor de Ciência da BBC News. Em se tratando de um texto assinado, imaginei que se tratasse de uma tradução fidedigna, isto é, não literal (o que comumente deixa de fazer sentido), nem "exata" (pois não há correspondências perfeitas de língua para língua), mas que preservasse ao máximo o sentido do original. De qualquer modo, fui ao original da BBC News. E qual não foi o meu espanto!



Na página brasileira, o título da matéria é chamativo e não condiz com o verdadeiro conteúdo da matéria assinada por David Shukman, no original em Inglês. A BBCdoB publicou "Órgão revê previsão de aquecimento global e alimenta polêmica", ao passo que a manchete original poderia perfeitamente ser traduzida como "Previsão de modelo climático é revista". A legenda da foto (mostrando chaminés), no site britânico diz: "A Met Office diz que suas projeções de longo prazo antecipam aquecimento significativo". Mas isso vira, na página brasileira, "Estudo prevê agravamento do aquecimento global crescente, mas em ritmo menos acelerado"! Há ainda importantes inversões entre trechos da matéria e a pura e simples omissão de um trecho inteiro, que discute os limites da previsão em escala decadal e coloca outras questões importantes, como o papel do vulcanismo. Esse trecho, eu reproduzo e traduzo a seguir:

"Future forcingsIt describes the decadal projections as part of an experimental effort launched in 2004 to fill the gap between daily weather forecasts and century-long estimates for climate change. 
But this is an emerging and highly complex area of science because of the interplay of natural factors and manmade greenhouse gases at a time when a key set of temperatures - in the deep ocean - is still relatively unknown. 
One aim of attempting to project the climate on this timescale is to be able to rapidly check the accuracy of the models being used. 
A paper published last month in the journal Climate Dynamics, authored by scientists from the Met Office and 12 other international research centres, combined different models to produce a forecast for the next decade. 
It said: "Decadal climate prediction is immature, and uncertainties in future forcings, model responses to forcings, or initialisation shocks could easily cause large errors in forecasts."
However the paper concluded that, "in the absence of volcanic eruptions, global temperature is predicted to continue to rise, with each year from 2013 onwards having a 50 % chance of exceeding the current observed record". 
Scrutiny of Met Office forecasts and climate science generally is set to increase in the build-up to the publication of the next assessment by the UN's Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) in September."

"Forçantes futurasEle (o Met Office) descreve as projeções decadais como parte de um esforço experimental lançado em 2004 para preencher o vazio entre as previsões de tempo diárias e as estimativas de mudança climática em escala de séculos. 
Mas esta é uma área da ciência emergente e altamente complexa por conta da interação de fatores naturais e gases de efeito estufa num momento em que um conjunto chave de valores de temperatura - no oceano profundo - ainda são relativamente pouco conhecidas. 
Um objetivo de se tentar prever o clima nessa escala de tempo é o de se tornar capaz de rapidamente verificar a precisão dos modelos que estão sendo usados.
Um artigo publicado mês passado no periódico Climate Dynamics, de autoria de cientistas do Met Office e outros 12 centros de pesquisa internacionais, combinaram diferentes modelos para produzir uma previsão para a próxima década. 
O artigo dizia: 'previsões climáticas decadais são incipientes a as incertezas nas forçantes futuras, nas respostas dos modelos às forçantes ou "choques de inicialização" podem facilmente produzir erros grandes nas previsões'. 
No entanto, o artigo concluía que 'na ausência de erupções vulcânicas, prevê-se que a temperatura global continue a subir, com cada ano a partir de 2013 tendo uma probabilidade de 50% de exceder o recorde observado atual'. 
O exame das previsões do Met Office e ad Ciência do Clima em geral está em rota de avançar, durante a preparação da publicação da próxima avaliação pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU em Setembro".


Evidentemente, a ausência desse trecho deixa de passar algumas informações importantes, sobre o caráter inicial, experimental e limitado das previsões decadais e a indicação de uma tendência clara de elevação de temperaturas na ausência de erupções vulcânicas fornecida por um conjunto de modelos (o que geralmente é mais confiável do que a previsão de um único modelo).

A BBC costuma ser uma rede de notícias que não distorce informações científicas e portanto não sai por aí divulgando bobagens negacionistas. Usando da credibilidade da BBC, por sinal, os negadores chegam ao cúmulo de atribuir a essa rede a responsabilidade por um "documentário" claramente tendencioso e anticientífico ("The Great Global Warming Swindle") que, na verdade, foi produzido pelo Channel 4 britânico, uma outra rede de TV! 

No que diz respeito à página na internet, é evidente que o braço no Brasil não seguiu essa linha geralmente sóbria da sede... O jornalista responsável, ainda que não tenha agudo maquiavelicamente (não, não o estou acusando de um "agente da indústria de combustíveis fósseis") misturou, a um texto assinado pelo Editor britânico, suas impressões e opiniões pessoais. Ao final, a manchete diferente, a legenda alterada, as mudanças no texto e a omissão, por inteiro, de um trecho importante, terminaram por distorcer o conteúdo.

O jornalista que prestou esse desserviço pode não ser um "negador" militante, como o Sr. Aldo Rebelo que, para justifica as mudanças no Código Florestal a favor do agronegócio chegou a negar as mudanças climáticas. De qualquer modo, do PCdoB (ou PCO2doB, como costumávamos nos referir eu e um saudoso combatente das causas sócio-ambientais) à BBCdoB, a regra é a informação distorcida e distante do conhecimento científico. 

Em tempo: o UOL acaba de reproduzir a reportagem da BBC Brasil, com os mesmos erros, evidentemente... Lamentável... 

P.S.: Para quem quiser saber mais detalhes das diferenças entre previsão de tempo, previsão climática (sazonal e decadal) e projeções climáticas de longo prazo, convido-os a lerem meu post anterior.

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