As Secas como Fenômeno Sócio-Climático (por Airton de Farias)

"Retirantes", de Cândido Portinari

Resolvi compartilhar com vocês texto de Airton de Farias, sobre a conotação social das secas. Airton é Professor e Historiador, autor de "História do Ceará", "Além das Armas: Guerrilheiros de Esquerda no Ceará Durante a Ditadura Militar" e "Fortaleza Uma Breve História" e seu texto, bastante didático, dialoga com uma perspectiva que tenho sistematicamente abordado em meu blog, que é o caráter desigual dos impactos da variabilidade natural e das mudanças antrópicas no clima. Como abordei nesta postagem, os impactos de eventos extremos são evidentemente díspares no que tange à nacionalidade, etnia e classe social. Neste outro, longe de querer travar um debate aprofundado (até porque não sou sociólogo ou antropólogo e não tenho "bagagem" para tal), alerto para a desigualdade de gênero, ligada à questão climática. É nesse contexto que me agrada a idéia de estabelecermos pontes com pesquisadores, professores e intelectuais de outros campos do conhecimento, como faço neste momento com Airton. Boa leitura para vocês!


Devido a sua regularidade, as secas eram de grande importância para a compreensão da história do Ceará, influenciando no dia-a-dia dos habitantes, no movimento das populações e mesmo na produção da cultura local. Assim, a seca não é somente um fenômeno climático, mas também social.  A cada final e início de ano, o cearense busca sinais de como será o período chuvoso – o comportamento de certos animais, de insetos, manchas no sol ou no céu, o os ventos, podem ser indicativos de bom inverno ou de mais um período de estiagem.
    
No encontro de amigos nas vilas ou nas reuniões nos alpendres das casas sertanejas, o assunto normalmente vem à tona. Nas orações diárias ou nas missas, o pedido aos Santos era pela graça de se ter água em abundância.
Quando, porém, acabava o mês de março chegava Abril, sem chuvas, as preocupações começavam: como encarar a escassez de alimentos, a perda de safras,  e a falta de pastos para os rebanhos. Diante das grandes distâncias dos sertões, o calor insuportável, a falta de água e alimentos, a seca poderia ser fatal.
  
As irregularidades das chuvas já são registradas nos documentos desde os primeiros momentos da conquista do atual território do Ceará. Em 1608, Pero Coelho retirou-se do Siará Grande em sua frustrada tentativa de conquista da terra, em meio à calamitosa estiagem. Nos primeiros séculos da conquista, há referências a diversos períodos de seca. Em todos eles, normalmente ficavam nos sertões um rastro de morte e fome, pois se arruinava a produção agrícola e pecuarista. Não raro ocorriam surtos de doenças como a varíola, afligindo e dizimando a população. 

O fenômeno da seca atinge a todos, ricos e pobres. A falta de água e comida obrigava os sertanejos a se deslocarem, num estratégia de sobrevivência.  Vilas e fazendas ficavam despovoadas ou precariamente habitadas.

Contudo, a maneira como os grandes fazendeiros e comerciantes experimentavam a seca era distinta da forma sentida por pequenos proprietários, escravos, agregados e outros. Como os grandes latifundiários tinham propriedades em regiões diferentes (serras, vilas, etc) tinham mais opções de deslocamento dos rebanhos e dos familiares, não sofrendo os infortúnios e dependendo menos da ajuda de outros. 

"Família da Seca",
de Descartes Gadelha
Já as camadas mais humildes da população buscavam refúgio onde moravam familiares ou amigos. A presença destes era importantíssima, afinal significava facilidade em obter comida, trabalho, teto, ou apoio para recomeçar a vida e reconstruir suas modestas habitações.

Havia casos de os homens partirem na frente, em busca de uma área propícia, deixando a mulher com os filhos para trás – isso para terem mais facilidades nos deslocamentos, e não submeter a família às dificuldades da viagem – muitos  migrantes morriam durante as longas caminhadas. Ao encontrarem uma região com melhores condições, aqueles homens voltavam para buscar a mulher e os filhos. Existiam ocasiões, contudo, dos homens nunca voltarem , ou quando voltaram, encontraram seus parentes mortos.

As regiões cearenses eram atingidas pela seca de maneira distinta. Vilas mais prósperas, situadas em regiões litorâneas ou áreas serranas, a exemplo de Aracati e Crato, resistiram com menos dificuldades ao flagelo, apesar de terem suas populações aumentadas com a migração dos retirantes.

fonte:
História do Ceará, de Aírton de Farias

Comentários

  1. Caro Alexandre,

    interessante texto esse que você divulgou do Aírton de Farias. Acho importante construírmos análises que possam constantemente dialogar com as diversas áreas do cihecimento (climatologia, economia, socioligia, geografia, história). Assim podemos compreender a complexidade dos fatos socias sem cair em armadilhas mecanicistas. Tenho recolhido algumas informações sobre o processo desta última seca no Ceará. Um fato importante é que ela se realiza no contexto da desertificação de 70% do solo cearense. Outro fato é que segundo o presidente da Federação dos Trabalhadores Agrícolas do Estado do Ceará, esta seca só não causou ainda mais calamidades sociais porque os programas de assistência do governo tem conseguido minimamente conter os danos. Mas desde já, esta situação climático-social já testa os limites desses programas.

    Um abraço.

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