quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Impossível negar... Está ficando cada vez mais quente!


"Anomalia" de temperatura de 1880 a 2011. Fonte: National
Oceanic and Atmospheric Administration
(NOAA),
disponível em http://www.ncdc.noaa.gov.
Não há mais margem para dúvidas: o sistema climático terrestre está aquecendo. Registros de estações meteorológicas se tornaram regulares a partir do final do século XIX, pouco depois, portanto, do advento da era industrial. Nos últimos 100 anos, em média, a superfície do planeta já aqueceu em cerca de 1°C, como se pode ver na Figura ao lado. Esta figura mostra a chamada “anomalia” de temperatura, isto é, a diferença entre a temperatura observada e a média do século XX, com os três gráficos se referindo respectivamente à média global (acima), à média sobre os oceanos (no meio) e sobre os continentes (abaixo). Fica evidente que, sobre os continentes, o aquecimento é mais pronunciado.

Esses dados, é claro, são devidamente tratados para evitar que apareçam erros devido a introdução ou remoção de alguma estação, à troca de sensores ou devido a efeitos de escala local como a chamada ilha urbana de calor (algumas estações mais antigas foram instaladas em localidades originalmente rurais ou periféricas, o que mudou com a expansão de áreas urbanas, refletindo-se nas medidas de temperatura). Correções são aplicadas nesses casos para garantir a fidedignidade das medidas.

Ranking de temperatura dos anos do século XXI em relação
aos 132 anos de registro histórico.
    
Esse aquecimento é tão pronunciado que, dos 10 anos mais quentes de todo o registro histórico, somente 1998 não pertence ao século XXI, como mostrado na Tabela ao lado. De quebra, somente dois anos do século XXI não estão nessa lista: 2009 e 2011. Ambos foram anos de La Niña (fenômeno marcado pelo resfriamento das águas do setor central e leste, como um oposto ao El Niño) e, portanto, deveriam ter apresentado temperaturas abaixo da média, mas ainda assim ficaram respectivamente em 13° e 11° em 132 anos de registro histórico! Vale lembrar também que, até Outubro, 2012 vai se posicionando entre os “top ten”. 


Esse aquecimento, evidente na superfície, é também verificado em toda a troposfera (a camada inferior da atmosfera, que contém a maior parte de sua massa e na qual ocorrem os fenômenos meteorológicos mais importantes para a espécie humana e o restante da biosfera, incluindo a formação de nuvens e precipitação, isto é, chuva, neve, etc.). Como um gás se expande ao ser aquecido, empurrando para cima um êmbolo ou pistão, o aquecimento da troposfera tem levado à elevação da tropopausa terrestre (isto é, a superfície imaginária que separa a troposfera da estratosfera, camada imediatamente acima), cuja altitude é bem determinada através de radiossondagens feitas com balões meteorológicos. A Figura abaixo, do lado esquerdo, mostra como um gás, sujeito a temperaturas maiores, aumenta o seu volume; à direita, mostra a evolução da posição da tropopausa de 1890 a 1999 segundo reanálise (equivalente a observações) e segundo dois conjuntos de simulações de modelos climáticos (uma com, outra sem forçante antrópico). É interessante a influência das grandes erupções vulcânicas que se destaca em meio a oscilações menores, mas a tendência de elevação da tropopausa tanto na reanálise quanto na simulação com influência humana é particularmente marcante a partir dos anos 60.

À direita, expansão de um gás pelo aumento de temperatura. À esquerda, evolução da posição da tropopausa terrestre, em unidades de pressão, segundo dados de reanálise e simulações de modelos, com e sem forçante antrópica. Fonte: http://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/wg1/en/figure-9-14.html
Acima: evolução da anomalia do nível dos oceanos desde o 
final do século XIX, por reconstruções e marégrafos. Abaixo, 
nível do mar global médio, medido por satélite (Fontes: 
IPCC e Universidade do Coloradorespectivamente)


Outros processos bastante evidentes têm ocorrido em paralelo com e tendo como causa o aquecimento global, sendo um deles a elevação do nível dos oceanos que, como a quase totalidade dos líquidos, se dilatam quando sua temperatura cresce.  A Figura ao lado mostra a elevação do nível do mar desde o final do século XIX até o final do século XX, período em que os oceanos subiram em cerca de 20 cm (acima). Abaixo, a elevação do nível dos oceanos nos últimos 20 anos, período em que ela tem se acelerado (chegando a 3,1 mm por ano). Em ambos os casos, cores distintas indicam fontes diferentes de dados.


Área do Oceano Ártico coberta por gelo.
Fonte: http://nsidc.org/arcticseaicenews/
    

Igualmente significativa tem sido a redução das geleiras e do gelo marinho no Ártico. 2012 ficará marcado pelo ano em que pela primeira vez desde que vem sendo medida a partir do final dos anos 70, a área do Oceano Ártico coberta por pelo menos 15% de gelo ficou reduzida a menos de 4 milhões de quilômetros quadrados. A Figura ao lado, do National Snow and Ice Data Center (NSIDC, EUA), não deixa dúvidas de que, em comparação com as condições médias ao final do século XX (linha preta, contornada por uma faixa cinza indicativa de dois desvios-padrão) e até mesmo com o recorde anterior (2007, linha verde tracejada), o que ocorreu em setembro deste ano (linha azul) foi uma anomalia. A área coberta por gelo neste instante em que escrevo é praticamente a metade do que costumava ser nesta mesma época do ano há meros 30, 20, 12 anos. É 10% menor do que o valor já impressionante de 5 anos atrás!

É preciso que se diga que não no caso do gelo marinho, mas o derretimento do gelo continental implica em uma contribuição substancial para acelerar a elevação do nível dos oceanos.

Como veremos em textos seguintes, esse múltiplos sintomas “febris” que enumeramos (aumento da temperatura da superfície, aumento da temperatura da troposfera com elevação da altitude da tropopausa, aumento do nível dos oceanos e redução do gelo) estão todos conectados a uma única causa.
 

2 comentários:

  1. Olha, é bom evitar dizer que não há mais margens de erro. Toda medida, por melhor que ela seja, possui margem de erro. Eu não confio nesses dados, muito menos vindos de estações meteorológicas localizadas e com dados "tratados", comparando uma época moderna com uma época onde nem sequer tinham bóias meteorológicas nos oceanos. Quanto ao Ártico, 40 anos de medidas por satélite é muito pouco. Tem que analisar outros fatores, como ciclo solar, PDO, oscilação do Ártico e o pouco falado ciclo lunar de 19 anos. Abraço!

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