sábado, 24 de novembro de 2012

Não sou alarmista, nem utópico

alarmista
a.lar.mis.ta
s m+f (alarma+ista) Pessoa que espalha boatos alarmantes.


utópico
u.tó.pi.co
adj (utopia+ico2) 1 Relativo a utopia. 2 Que encerra utopia. 3 Fantasioso.

Divulgar os resultados robustos da Ciência do Clima, recorrentemente confirmados por fontes independentes que vão desde medidas de superfície a estimativas por satélite, de resultados convergentes de uma miríade de modelos climáticos a testemunhos do paleoclima nada tem a ver com "espalhar boatos".

Até porque as projeções e estimativas apresentadas pelo IPCC têm-se mostrado, em sua maioria, conservadoras.
Todas as projeções climáticas de aquecimento do sistema terrestre têm se confirmado. As de degelo, especialmente no Ártico, e de elevação do nível dos oceanos têm subestimado estes fenômenos que, na prática, têm-se mostrado mais intensos. Sabemos o mecanismo por trás do aquecimento observado. É mostrado por experimentos de laboratório e por tudo o que conhecemos dos climas da Terra e até de outros planetas (Vênus, principalmente) como o CO2 interage com radiação infravermelho e qual o impacto disso no balanço energético planetário. Sabemos, até pela "impressão digital" isotópica que o aumento da concentração desse gás na atmosfera terrestre se deve à queima dos combustíveis fósseis. Sabemos também que um clima mais quente será também um clima de extremos e implicará em crise hídrica e alimentar, em perda de biodiversidade e um sem número de impactos perigosos à nossa espécie e a grande parte da biota terrestre
, com quem compartilhamos, via DNA, um histórico comum de bilhões de anos. Desde quando alertar o gênero humano sobre esses riscos é "alarmismo". Calar-se, sim, mereceria diversos nomes: covardia, pusilanimidade, omissão, irresponsabilidade. Mentir a esse respeito como fazem os negadores, aí já é uma ignomínia, um verdadeiro crime perpetrado contra as gerações mais jovens e as gerações posteriores.
Também não há nada mais fantasioso do que acreditar nos benefícios dos combustíveis fósseis. Utopia é achar que vai "ficar tudo bem" num regime de "business as usual", que não se deve temer a desetabilização do clima ou que algum milagre de "geoengenharia" vai resolver o problema mais à frente. Cada molécula de CO2 que se acumula na atmosfera em função do desequilíbrio do ciclo do Carbono  é um ataque aos pobres do Haiti, de Cuba e da Jamaica, que enfrentaram Sandy em condições terríveis; aos sem-teto e "imigrantes ilegais" de nova-iorque que temiam ir para abrigos e serem presos; aos trabalhadores estadunidenses que não têm seguro contra enchente (diferente dos segmentos abastados) e, a cada catástrofe, só fazem juntar os destroços; aos países insulares, que têm seus mananciais de água potável e seu próprio território carcomidos a cada avanço dos oceanos; aos agricultores de sequeiro, cujas culturas tradicionais podem ficar para sempre comprometidas num planeta mais quente com maiores taxas de evapotranspiração; aos coletores, que dependem dos mangues, e dos pescadores artesanais, que serão vitimados pelo declínio da biota marinha e costeira associada à acidificação dos oceanos. Cada ppm aumenta a probabilidade de eventos extremos. Sabemos o que deve ser feito e sabemos que urgem medidas para manter a maior parte das reservas fósseis intocadas. No Brasil, isso poderia ser feito imediatamente, com um programa de desmatamento negativo (isto é, reflorestamento), taxação do Carbono com atribuição real dos preços, monopólio estatal da exploração dos combustíveis fósseis, compensação internacional pela não exploração do pré-sal (o Equador abriu mão de explorar petróleo sob a reserva Yasuni), um programa acelerado de substituição das fontes fósseis de energia e uma política agressiva nas reuniões de clima, unindo-se ao movimento por Justiça Climática e aos países insulares na defesa da estabilização das concentrações de CO2 em 350 ppm. Encarar essa realidade dura e difícil, mas ter consciência de que é possível cumprir a missão, brecando a locomotiva consumista-fossilista, não tem nada de fantasia. É realismo. 
Então, como cientista da área, como pai, como militante social, por que não bradar, a toda voz? Com medo de um punhado de pilantras negadores me tachar de alarmista? Com receio de uma maioria de acomodados "realistas", que defendem involuntariamente o desvario fossilista, me considerarem sonhador ou "utópico"? Ah, não. Respondam-me, nessas condições, o que você faria se soubesse o que eu sei?!?

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