quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Clive Hamilton no Guardian: "O grande silêncio climático: estamos no limite do abismo, mas ignoramos"

"Como podemos entender o miserável fracasso do pensamento
 contemporâneo em enfrentar o que agora nos confronta?"
 Fotografia: Piyal Adhikary / EPA

O grande silêncio climático: estamos no limite do abismo, mas ignoramos

Clive Hamilton

Continuamos planejando o futuro como se os cientistas do clima não existissem. A maior vergonha é a ausência de um sentimento de tragédia. 

Após cerca de 200 mil anos da existência dos humanos modernos em uma Terra de 4,5 bilhões de anos, chegamos a um novo ponto da história: o Antropoceno. A mudança veio sobre nós com velocidade desorientadora. É o tipo de mudança que geralmente leva duas, três ou quatro gerações para ser assimilada.



Nossos melhores cientistas nos dizem insistentemente que uma calamidade já está se desenrolando, que os sistemas de suporte à vida da Terra estão sendo danificados de um modo que ameaça a nossa própria sobrevivência. No entanto, diante desses fatos, seguimos como se nada estivesse acontecendo.

A maioria dos cidadãos ignora ou minimiza as advertências, muitos de nossos intelectuais se entregam a ilusões e algumas vozes influentes declaram que nada está acontecendo, que os cientistas estão nos enganando. No entanto, as evidências nos dizem que os seres humanos se tornaram tão poderosos que entramos nesta nova e perigosa época geológica, definida pelo fato de que a pegada humana no ambiente global tornou-se tão grande e ativa que rivaliza com algumas das grandes forças da natureza em seu impacto no funcionamento do sistema terrestre.

Essa situação bizarra, na qual nos tornamos potentes o suficiente para mudar o destino da Terra embora incapazes de nos regularmos a nós mesmos, contradiz toda crença moderna sobre o tipo de criatura que é o ser humano. Para alguns, é absurdo sugerir que a humanidade possa sair dos limites da história e inscrever-se como uma força geológica de tempo profundo. Os seres humanos seriam muito insignificantes para mudar o clima, eles insistem, por isso seria extravagante sugerir que possamos mudar a escala de tempo geológica. Outros atribuem a Terra e sua evolução ao reino divino, de modo que não é mera petulância sugerir que os humanos possam sobrepujar o todo poderoso, mas uma blasfêmia.

Muitos intelectuais das ciências sociais e das humanidades não aceitam que os cientistas da Terra tenham algo a dizer que possa influenciar a compreensão do mundo, porque o "mundo" consiste apenas em seres humanos envolvidos com outros seres humanos, enquanto a natureza, não é mais do que um cenário passivo para que dela aproveitemos como quisermos.

A orientação "somente humana" das ciências sociais e humanas é reforçada pela nossa absorção total das representações da realidade derivadas da mídia, encorajando-nos a ver a crise ecológica como um espetáculo que ocorre fora da bolha de nossa existência.

É verdade que compreender a escala do que está acontecendo exige não só quebrar a bolha, mas também fazer o salto cognitivo ao "pensamento do sistema terrestre" - isto é, conceber a Terra como um sistema único, complexo e dinâmico. Uma coisa é aceitar que a influência humana se espalhou por toda a paisagem, os oceanos e a atmosfera, mas outra é entender que as atividades humanas estão perturbando o funcionamento da Terra como uma totalidade complexa, dinâmica e em constante evolução, composta de inúmeros processos de interligação.

Mas considere esse fato espantoso: com o conhecimento dos ciclos que governam os movimentos da Terra, incluindo a inclinação do eixo e sua precessão, paleoclimatologistas são capazes de prever com certeza razoável que a próxima era de gelo deveria vir em 50.000 anos. Mas o dióxido de carbono persiste na atmosfera por milênios e se espera agora que o aquecimento global causado pela atividade humana nos séculos XX e XXI suprima não só essa glaciação, mas possivelmente o seguinte, prevista para 130 mil anos.

Se a atividade humana ao longo de um século ou dois pode transformar irreversivelmente o clima global por dezenas de milhares de anos, somos incitados a repensar a história e a análise social como um assunto puramente intra-humano.

Como devemos entender o fato inquietante de que a massa de evidências científicas sobre o Antropoceno, um evento que se desenrolou de proporções colossais, seja insuficiente para induzir uma resposta racional e adequada?

Para muitos, o acúmulo de fatos sobre a ruptura ecológica parece ter um efeito anestesiante, muito aparente nas atitudes populares em relação à crise do sistema terrestre, e especialmente entre formadores de opinião e líderes políticos. Alguns se abriram para o pleno significado do Antropoceno, atravessando esse limiar por meio de um processo gradual, mas cada vez mais perturbador, de assimilação de evidências ou, em alguns casos, após uma percepção que os invade de repente e com grande força em resposta a um evento ou a uma peça de informação em si bastante pequena.

Fora da ciência, uns poucos alertas percebem a situação difícil da Terra e sentem que algo insondavelmente grande está ocorrendo, conscientes de que enfrentamos uma luta entre a ruína e a possibilidade de algum tipo de salvação.

Então, hoje a maior tragédia é a ausência de um senso da tragédia. A indiferença da maioria diante do distúrbio do sistema terrestre pode ser atribuída a uma falha de razão ou a uma fraqueza psicológica; mas estas parecem inadequadas para explicar por que nos encontramos à beira do abismo.

Como podemos entender o miserável fracasso do pensamento contemporâneo para enfrentar o que agora nos confronta? Poucos anos após a queda da segunda bomba atômica, Kazuo Ishiguro escreveu um romance sobre o povo de Nagasaki, um romance em que a bomba nunca é mencionada, mas cuja sombra paira sobre todos. A sombra do Antropoceno também cai sobre todos nós.

Com efeito, as livrarias são regularmente reabastecidas com livros sobre o futuro do mundo de nossos principais intelectuais de esquerda e direita, mas nos quais a crise ecológica é pouco mencionada. Eles falam do surgimento da China, o advento de civilizações e máquinas que assumem o mundo, mas são escritos e apresentados como se os cientistas do clima não existissem. Prognosticam sobre um futuro a partir do qual os fatos dominantes foram expurgados, futurologistas presos em um passado obsoleto. É o grande silêncio.

Ouvi falar de um jantar durante o qual um dos psicanalistas mais eminentes da Europa falou apaixonadamente sobre todos os assuntos, mas ficou mudo quando as mudanças climáticas foram levantadas. Ele não tinha nada a dizer. Para a maioria dos intelectuais, é como se as projeções dos cientistas da Terra fossem tão absurdas que pudessem ser ignoradas com segurança.

Talvez a rendição intelectual seja tão completa porque as forças que esperávamos que tornassem o mundo um lugar mais civilizado - as liberdades pessoais, a democracia, o avanço material, o poder tecnológico - estão na verdade abrindo o caminho para sua destruição. Os poderes em que mais confiamos nos traíram; o que nós acreditamos que nos salvaria agora ameaça nos devorar.

Para alguns, a tensão é resolvida rejeitando as evidências, ou seja, descartando a Luz da ciência. Para outros, a resposta é desqualificar os apelos para que se dê atenção ao perigo como uma perda de fé na humanidade, como se a angústia da Terra fosse uma ilusão romântica ou uma regressão supersticiosa.

No entanto, os cientistas da Terra continuam a perseguir-nos, seguindo-nos como aparições lamentáveis ​​enquanto seguimos apressados com a nossa vida, dando a volta ocasionalmente com irritação para continuar segurando o Crucifixo do Progresso.

Este é um extrato editado da obra de Clive Hamilton Terra Desafiadora: o destino dos humanos no Antropoceno , disponível agora através da Allen & Unwin. O extrato foi publicado na edição de 05/05/2017 do periódico britânico The Guardian neste link.

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