segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Brasil Seco: o que a Superinteressante mostrou... e o que ela não mostrou.

O terceiro chimpanzé
está assando o planeta
Na edição da Super Interessante do mês anterior fomos citados Antônio Donato Nobre, Déborah Danowski, Eduardo Viveiros de Castro e eu, numa boa matéria, da jornalista Camila Almeida, intitulada "O Brasil Secou". Não sei como foi com os demais, mas em meu caso, a frase curta a mim atribuída foi, na verdade, extraída de um diálogo bem mais longo.

Como tento fazer na maioria dos casos, ainda que isso me renda um bocado de trabalho, preferi responder por escrito. Os jornalistas, mesmo os mais competentes, de mais boa fé e compromisso com a boa informação, vivem sob forte pressão produtivista e, claro, não se pode exigir deles pleno domínio da temática do clima. A resposta escrita reduz as dificuldades impostas por essas barreiras e, via de regra, garante um repasse mais fidedigno de informação. Fica, portanto, o convite para acessar o link acima e ver o que a Super mostrou, bem como a ler a entrevista completa abaixo e ver o que ela não mostrou.


Mapa de precipitação padronizado, mostrando
enormes áreas do Brasil com seca de severa a
excepcional. Fonte: CPTEC/INPE, em 09/2014.
Superinteressante: Este ano, praticamente não choveu no Sudeste. O mapa do índice de precipitação padronizado mostra que, nos últimos 12 meses, o estado de São Paulo inteiro, assim como a maior parte da região entrou em uma situação que pode ser classificada como de “seca extrema” a “seca excepcional. Também há áreas com seca de moderada a extrema em boa parte do Nordeste e em alguns estados do Norte e do Centro-Oeste. Gostaríamos de entender melhor que mecanismos estariam por trás dessa situação.

Alexandre Costa: Provavelmente, há mais de um mecanismo responsável por esse quadro. No caso do Nordeste (e, em parte, do Norte), muitas das secas foram historicamente associadas a um quadro de El Niño (como o que está se desenvolvendo neste momento), mas nos últimos anos o déficit de precipitação parece estar mais associado a condições anomalamente quentes no Atlântico tropical Norte, que têm persistido nos últimos anos.

Já no que diz respeito ao Sudeste, o aparecimento recorrente de padrões de bloqueio tendeu a manter as frentes frias localizadas mais ao sul e, como sabemos, esta região depende fortemente da chegada dessas frentes para receber precipitação. Some-se a isso o fato de que nos últimos anos ondas de calor recorde têm assolado a região, o que implica em uma maior taxa de evaporação.

SI: Já podemos considerar esses efeitos que estamos vivendo como sintomas do aquecimento global? Podemos identificar algumas causas para essa seca tão extrema?

AC: Em vários aspectos, o agravamento das secas é esperado, com o aquecimento do sistema planetário (assim, como de todos os demais extremos, incluindo enchentes, tempestades etc.). O mecanismo é relativamente simples e tem a ver com a chamada equação de Clausius-Clapeyron que mostra um crescimento exponencial da quantidade de vapor necessária para “saturar a atmosfera” (ou seja, para iniciar a condensação e a formação de nuvens) em função da temperatura.

Ora, se uma atmosfera mais quente funciona como um maior “reservatório” de vapor d’água, o que temos é que é necessário mais vapor para preenchê-lo, o que demanda mais tempo e tende a prolongar, portanto, os períodos de estiagem. Por outro lado, quando finalmente se chega à saturação, as nuvens se formam a partir de uma quantidade maior de vapor d’água e a tendência é que os eventos de precipitações também se tornem mais intensos. Em resumo, secas mais longas e mais severas, menos eventos de chuva com chuva mais intensa. Um planeta mais quente é um planeta de extremos.

Projeções de temperatura, especialmente
em cenários de grandes emissões, apon-
tam para um aquecimento significativo
no Sudeste Brasileiro e em outras por-
ções do nosso território, principalmente
na Amazônia. Fonte: AR5/IPCC
SI: Temos previsão de melhora para o ano que vem? E mais futuramente? A previsão é de que iremos viver secas cada vez mais intensas? E enchentes cada vez piores também?

AC: Com o desenvolvimento do fenômeno El Niño, especialmente se este crescer em intensidade no início de 2015, há chances de assistirmos ao agravamento do quadro principalmente no Nordeste. As condições meteorológicas mais comuns sob a ação de um El Niño favorecem chuvas no Sul, mas não necessariamente favorecem o Sudeste, em que as condições tendem a ser mais incertas.

Não se pode falar de previsão climática com um mínimo de confiabilidade para além da escala de meses, pelo menos por enquanto (embora alguns grupos de pesquisa venham investindo no que se convencionou chamar de “previsão climática decadal”). O que se tem a mais longo prazo são projeções climáticas que nos fornecem cenários de como a atmosfera deve se comportar, em média, em função do aquecimento global.


Tons quentes são áreas em que se espera um aumento da dura-
ção dos períodos sem chuva. O Brasil inteiro está incluído, su-
gerindo que o aquecimento global pode nos atingir brutalmente
em termos de segurança hídrica, segurança energética e produ-
ção agropecuária, principalmente de alimentos para a demanda
interna. Fonte do mapa: AR5/IPCC
De acordo com a média do conjunto dos modelos do CMIP (Coupled Model Intercomparison Project), que subsidia a elaboração dos relatórios do IPCC, a tendência é, em geral, para uma ligeira redução da precipitação média sobre a maior parte da América do Sul, com exceção principalmente da Bacia do Prata. O que em me parece mais preocupante, porém, é a combinação da expectativa de aumento de temperatura (4 a 5 graus, vide figuras) com aumento da ocorrência de fenômenos extremos, como é o caso do número de dias consecutivos sem chuva em quase todo o território brasileiro, especialmente no cenário de maiores emissões.

SI: O que é preciso fazer para reverter esse quadro tão severo? Tem como ou já chegamos num limiar irreversível?

AC: Há muitos anos, insistimos que é preciso investir em duas frentes, mas a maioria dos governos ignora solenemente a comunidade científica.

A primeira delas é a frente da “adaptação”, isto é, de ajustes para melhor enfrentarmos os efeitos que porventura já sejam inevitáveis, como é o caso do que já assistimos hoje. Especificamente no que diz respeito à política de recursos hídricos, seria necessário uma ampla reformulação desta, para evitar o colapso do abastecimento. Além de melhorar o sistema de armazenamento e distribuição, é preciso mexer na demanda. De norte a sul do País, o que se vê é que o agronegócio e indústrias pesadas (siderúrgicas, refinarias), a geração de energia (termelétricas consomem bastante água), a mineração etc. são consumidores vorazes de água. Uma única usina termelétrica a carvão pode consumir até 1000 litros de água por segundo, suficiente para abastecer uma cidade quase do tamanho de São José dos Campos. Um quilo de carne bovina demanda 15 mil litros de água em sua produção e uma tonelada de aço requer 280 mil litros. É preciso abrir a caixa-preta da água em todos os estados para que as pessoas decidam sobre o uso dela e sobre que modelo de desenvolvimento, que opções de industrialização etc.

Segundo, e mais importante, é preciso apostar seriamente, de uma vez por todas, na outra frente: a da “mitigação”, isto é, na redução – urgente – das emissões de gases de efeito estufa. Até porque, a partir de um determinado momento não há como se adaptar. A partir de um determinado ponto, a crise climática pode se tornar irreversível.

450 ppm de CO2 na atmosfera implicam
num aquecimento que ultrapassa dois
graus. A luz vermelha está acesa.
Existem evidências cientificas de que o limiar seguro de concentrações de CO2 na atmosfera seria de 350 ppm, o que foi ultrapassado em 1988. Hoje, flertamos com 400 ppm (ficamos acima desse valor por 3 meses em 2014). A maioria da comunidade cientifica entende que o limiar de 2 graus Celsius de aquecimento é aquele que não deve em hipótese alguma ser ultrapassado, sob pena de arruinarmos um sem número de biomas terrestres e acelerar o aquecimento com a liberação dos estoques naturais de metano (clatratos do piso oceânico e derretimento do permafrost), derretimento das geleiras e saturação da capacidade dos oceanos e florestas em sequestrar carbono.

Isso só pode ser feito mediante um corte acelerado nas emissões, com uma transição energética rápida e uma mudança no paradigma de transportes que promova em poucas décadas o abandono dos combustíveis fósseis. Se os governos, a se reunirem em Lima em dezembro próximo, preferirem continuar ouvindo as corporações do ramo petroquímico a reconhecerem os limites que a ciência apresenta para a segurança da humanidade, aí já são outros quinhentos.. ppm de CO2.


Um comentário:

  1. A CAUSA são ao AVIÕES que estão a despejar SILICATOS nos céus, que SEQUESTRAM a umidade do ar e POTENCIALIZA a EVAPORAÇÃO de rios e lagos. PAREM COM ELES e a chuva volta!

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