terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Brasil Seco: o que a Superinteressante não mostrou. Parte II - A Entrevista de Deborah Danowski

Professora Deborah Danowski, do De-
partamento de Filosofia da PUC-RJ
A reportagem "O Brasil Secou" publicada pela Revista Superinteressante foi construída, em boa parte, com a contribuição de pesquisadores através de entrevistas. Estas constituem um material riquíssimo, do qual as menções na reportagem são apenas uma fração muito pequena. Como já publiquei a íntegra de minha entrevista, passo a palavra agora para a pesquisadora e filósofa Deborah Danowski, professora do Departamento de Filosofia da PUC-RJ e que publicou, recentemente, ao lado de seu companheiro Eduardo Viveiros de Castro, o livro "Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins". Uma das organizadoras do simpósio "Os Mil Nomes de Gaia", Deborah tem sido uma crítica profunda do modo de vida engendrado pelo capitalismo contemporâneo e confrontado sem meio-termo o negacionismo climático. Vejam o que ela diz sobre crise ecológica, mudanças climáticas e "fim do mundo"!

Superinteressante: Tudo indica que o aquecimento global é causado pela ação do homem, exclusivamente. Até que ponto teremos que ir para que tenhamos consciência de que estamos criando um mundo pior para nós mesmos? O que precisa acontecer para que possamos parar de destruir?

Em protesto contra a inação a respeito das mudanças climáticas,
australianos protestaram, mostrando exatamente o que os gover-
nos e a maior parte da sociedade faz: enterra a cabeça na areia e
finge que o perigo ou não existe, ou que ele desaparece ao ser
ignorado, ou "alguém vai tomar conta, que a razão humana vai
conseguir inventar uma tecnologia para nos salvar antes que se-
ja tarde".
Deborah Danowski: Sim, o atual aquecimento global é causado quase exclusivamente pela ação humana, sobretudo pela emissão de gases de efeito estufa devido à queima de combustíveis fósseis. É difícil saber até que ponto esse aquecimento e suas consequências terão que chegar para que se ganhe consciência de que há limites que devem ser respeitados se quisermos ter alguma chance de continuar vivendo em um mundo com condições razoavelmente favoráveis à nossa espécie. Mas nem todo o problema se deve à falta de consciência. Muitos têm consciência mas não fazem nada a respeito, ou seja, não passam do conhecimento à ação. Muitos acreditam que ainda poderão lucrar um pouco (ou muito) mais antes de ter que restringir suas práticas predatórias. Outros sabem que há algo acontecendo mas fingem para si mesmos que não é nada demais, que alguém vai resolver as coisas, que alguém vai tomar conta, que a razão humana vai conseguir inventar uma tecnologia para nos salvar antes que seja tarde: quem sabe conseguiremos viver em um mundo onde a natureza seja totalmente controlada, gerenciada pelo homem? – pensam eles. Por outro lado, conforme os efeitos nocivos da degradação ambiental e das mudanças climáticas vão se tornando mais evidentes, mais graves e frequentes, vamos vendo o crescimento e a multiplicação de movimentos sociais de resistência (como os protestos ecológicos que vêm aumentando muito na China, ou as resistências ao oleoduto Keystone XL, ou a recente Marcha Popular pelo Clima que aconteceu em setembro passado em Nova York, e que reuniu mais de 400 mil pessoas - para dar apenas alguns exemplos recentes), o crescimento também de práticas alternativas de diversos tipos e dimensões, de políticas locais que tentam passar à ação independentemente de decisões governamentais ou globais. Ainda é muito pouco, pouquíssimo, porque estamos lutando não só contra a destruição cada vez maior, mas também contra o tempo: quanto mais demorarmos a diminuir as emissões e a pôr em prática outras maneiras de viver e de construir relações, mais drásticas terão que ser as mudanças.

Livro recém-lançado por Deborah Danowski e
Eduardo Viveiros de Castro.
SI: O novo livro de vocês questiona o futuro do mundo. O fim será causado por nós?

DD: O livro "Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins", que escrevi juntamente com Eduardo Viveiros de Castro, é um sobrevôo filosófico-antropológico do estado de espírito do nosso tempo, uma tentativa de entender os diferentes movimentos de pensamento e de imaginação que têm se constituído, explícita ou implicitamente, em torno do que significa ter um mundo e perder um mundo. Um pouco como aconteceu após as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, estamos nos redescobrindo uma espécie mortífera e mortal. Na situação da Guerra Fria, apesar do grande medo que todos sentiam muito fortemente (sobretudo nos EUA e na URSS), ainda podíamos esperar (e até hoje esperamos, aliás) que nunca nenhum país “apertaria o botão” dessa guerra final. Como disse uma vez o filósofo Günther Anders, desde então vivemos em um adiamento, em um “tempo do fim”, que pode durar em princípio eternamente, mas que será sempre um adiamento do fim, já que para sempre teremos ou seremos capazes de fabricar bombas atômicas em número suficiente para destruir o planeta várias vezes. Mas no caso das mudanças climáticas, é como se já houvéssemos apertado o botão. Quero dizer que muito da crise climática já não pode mais ser revertido. Mesmo se cortássemos agora em 100% as emissões de CO2 (o que politicamente é pouquíssimo provável, diga-se de passagem), o assim chamado "Sistema Terra" ainda iria se aquecer aproximadamente 1ºC, o Ártico e parte da Antártica iriam continuar seu processo de derretimento, os mares se acidificando etc. Isso porque já jogamos no ar uma quantidade enorme de CO2 que ainda nem foi absorvida totalmente pelo sistema. Mas 1ºC a mais (2º C em relação à época pré-industrial) não é a mesma coisa que 3º ou 4ºC a mais. Nesse caso a vida será realmente muito difícil para nós humanos e para uma enorme quantidade de outras espécies vivas. Então quando falamos de “fim do mundo” podemos querer dizer muitas coisas diferentes, mas, mais realisticamente, não estamos nos referindo a um fim absoluto do mundo, e sim a uma degradação progressiva de nossas condições de existência, que pode se dar em diversos graus. Isso é a perda do mundo. O que pode acabar muito mais rapidamente do que muitos pensam é nosso modo de vida, nossa “civilização” tecno-industrial e capitalista, baseada no consumo. E, entendido desse modo, sim, o fim será causado por nós, ou melhor, pelo retorno, pelo troco da natureza sobre nossas ações predatórias.

SI: É possível imaginar uma mudança profunda no nosso estilo de vida? Uma mudança que nos conecte mais profundamente com a natureza e com o meio em que vivemos? Chegaremos ao ponto de preservar nosso ambiente – além de só explorá-lo – ou imaginar essa nova postura é utopia demais?

"Podemos viver sem celular, sem carros particulares, sem con-
sumir produtos supérfluos, produtos importados do outro lado
do mundo; podemos viver sem desmatar, conectando-nos em
redes alternativas baseadas antes na construção de relações, na
troca e na solidariedade. Podemos até viver sem luz se necessá-
rio. Mas não podemos viver sem água potável, sem terra razo-
avelmente fértil para plantar nossos próprios alimentos."
DD: Creio que essa mudança é muito difícil, mas não impossível. Basta pensar que esse nosso modo de vida insustentável tem uma história de apenas 250 anos, se contarmos desde a Revolução Industrial. A civilização humana (cidades, escrita, agricultura) tem pouco mais de 10 mil anos, enquanto a nossa espécie, o Homo sapiens, tem aproximadamente 200 mil anos. Ou seja, o nosso modo de vida atual é um detalhe temporalmente mínimo se comparado à nossa existência enquanto espécie. Além disso, há 370 milhões de pessoas hoje no mundo, segundo estimativas da própria ONU, formando “minorias étnicas", que vivem e lutam para continuar vivendo de maneiras distintas. De qualquer maneira, o que hoje pode parecer quase impossível para alguns terá que se tornar possível em algumas décadas, porque o que é materialmente impossível é continuarmos a viver como vivemos no último século. Quando recursos como água potável começarem realmente a faltar, quando a seca que está acontecendo por exemplo na cidade de São Paulo se tornar um evento frequente e recorrente, quando a Amazônia virar uma enorme savana ou começar a se incendiar várias vezes por ano como tem acontecido na Califórnia ou na Austrália, quando enchentes monumentais forem a norma, quando doenças tropicais começarem a assolar cidades importantes nos dois Hemisférios, quando enormes contingentes de desalojados do clima começarem, em ondas cada vez maiores, a pedir abrigo nos países mais desenvolvidos - então já estaremos vivendo de maneira diversa. Então, nós podemos viver outras vidas muito diferentes da nossa. Podemos viver sem celular, sem carros particulares, sem consumir produtos supérfluos, produtos importados do outro lado do mundo; podemos viver sem desmatar, conectando-nos em redes alternativas baseadas antes na construção de relações, na troca e na solidariedade. Podemos até viver sem luz se necessário. Mas não podemos viver sem água potável, sem terra razoavelmente fértil para plantar nossos próprios alimentos. É claro que nem tudo depende apenas da tomada de consciência e de ações individuais. Hoje no Brasil, por exemplo, vivemos sob um governo que não enxerga um palmo à frente de seu nariz. Que faz vista grossa para o desmatamento da Amazônia e para a degradação do Cerrado, que quer barrar a maior parte dos grandes rios barráveis para produzir energia que irá alimentar grandes indústrias de alumínio, grandes plantações de soja e fazendas de gado voltados sobretudo para a exportação, um governo que não pára de incentivar o uso do carro privado, que chama os ecologistas de ecochatos e considera seus questionamentos como fantasias impossíveis. Não estou negando a enorme importância das políticas sociais dos governos Lula e Dilma, mas o que dirão aqueles 20 ou 30 milhões de pessoas que, já dentro da “classe média”, entretanto não tiverem água limpa para beber? Ou quando, ao contrário, tiverem que viver fugindo de enchentes e de desmoronamentos? Quando o ar se tornar irrespirável? Quando não houver mais peixes no mar? Poderemos viver todos de alimentos transgênicos regados a quantidades absurdas de agrotóxicos? Qual o preço disso para a saúde e o bem-estar das pessoas?

SI: Como seria possível conciliar crescimento econômico com a preservação ambiental? É preciso pisar no freio do crescimento ou há alternativas?

É possível distribuir melhor o “bem-viver”, mas não é possível continuar a crescer economicamente sem acabar de destruir o meio-ambiente. Sobretudo se levarmos em conta que a população mundial alcançará por volta de 10 bilhões de pessoas até o fim deste século. Falávamos há pouco de utopias e fantasias; pois bem, creio que um crescimento econômico ilimitado é que é a verdadeira fantasia, uma ideia completamente absurda, até paradoxal. Para entender isso basta pensar que os recursos naturais que sustentariam esse crescimento, os recursos materiais que são afinal a fonte última de qualquer tecnologia, por mais eficiente que seja, são limitados, e que, além disso, também é limitada a capacidade que tem o planeta de processar os resíduos da atividade industrial. O dióxido de carbono é apenas um desses resíduos. Essa ideia das limitações termodinâmicas, ou biofísicas, para o crescimento econômico foi proposta pela primeira vez, se não me engano, em 1971, pelo economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen, em A Lei da Entropia e o Processo Econômico. Ela foi desprezada ou permaneceu simplesmente ignorada até bem recentemente, quando foi “redescoberta” e resgatada. Hoje já há vários economistas, inclusive no Brasil, que começam a pronunciar essa palavra que até há bem pouco tempo era para eles uma espécie de impronunciável, o decrescimento, a redução.

A invasão do nosso continente pelos europeus foi um verda-
deiro fim do mundo: a destruição das civilizações aqui exis-
tentes, o massacre dos povos originários. Os povos indígenas
aprenderam na sua carne que "viver é perigoso, que tudo tem
um custo, que é preciso pisar de leve e ter medo, mas sem ne-
cessariamente perder a alegria". Agora é a vez da civilização
ocidental, organizada em torno do capital e do consumo como
divindade moderna, em vias de ser esmagada pelo peso desse
estranho deus.
SI: Precisamos mesmo esperar pelo pior? É o pior que está no nosso horizonte?

DD: O que é o pior? Muitas pessoas já vivem o pior, nos bairros mais pobres do Brasil e do mundo, nas prisões superlotadas, nas sweatshops da China, da Indonesia ou de Bangladesh, no Haiti, na Siria, no Iraque, em vários países da Africa. Os índios Guarani obrigados a morar na beira da estrada no sul do país já vivem o pior. O que “nós”, aqui hoje, estamos chamando de pior é termos que viver num mundo cada vez mais parecido com esses mundos. E entretanto, há piores mais ou menos piores que outros, há muitos mundos dentro do “mundo”, e de toda forma há muito o que fazer. O que nos cabe hoje é tentar mitigar as causas que estão levando ao aprofundamento das mudanças climáticas, e ao mesmo tempo fazer o possível para nos adaptar à vida em um mundo mais pobre e difícil ecologicamente, sobretudo aprender a viver com essa nova situação, imaginar novas maneiras de viver, de nos relacionar com outros humanos e com os não-humanos, inventar novos mundos com o mundo que teremos. Talvez (com sorte) aprendendo com os povos que já passaram por situações semelhantes e encontraram suas próprias saídas, que sabem que viver é perigoso, que tudo tem um custo, que é preciso pisar de leve e ter medo, mas sem necessariamente perder a alegria.

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