sábado, 28 de setembro de 2013

As Mentiras que os Negadores Contam. Parte 1 - "Que buraco?"

Às vésperas do anúncio do 5º Relatório do IPCC, a negaciosfera andou bastante eriçada (e continua), na tentativa desesperada de continuar confundindo a opinião pública e minimizar possíveis impactos do referido relatório. Fizeram com que eu me lembrasse de "As Mentiras que os Homens Contam", uma coletânea de crônicas de Luis Fernando Verissimo (assim mesmo, com "s" e sem acentos), muito gostosa de se ler, por sinal. Vou tomar a liberdade de reproduzir um trecho - só o comecinho, juro, verdade! - de uma das crônicas dessa coletânea, que me lembrou demais o comportamento dos negadores (pois nela, a mentira aparece por diversas vezes na forma de negação). A crônica é entitulada "O Que Dizer" e começa assim:

Capa do livro de Luis
Fernando Verissimo
"Dez coisas para dizer quando um visitante mal informado perguntar que buraco enorme é esse no chão. jamais diga a verdade, que é para um metrô que só ficará pronto quando o Cristo Redentor perder a paciência, botar as mãos na cintura e ameaçar com intervenção. Ele não vai acreditar.) 
1 - Foi um meteorito. 
2 - Há insistentes rumores de guerra com a Argentina e o governo está construindo abrigos antiaéreos para a população. 
3 - Que buraco? 
4 - Todas as ruas estão sendo rebaixadas para aumentar a altura dos prédios, que assim pagarão mais impostos. 
5 - Está bem, está bem, mas e o problema dos negros nos Estados Unidos? 
6 - Estão procurando restos de uma antiga civilização que viveu aqui, os Cariocas (...). 
7 - Como vamos todos entrar pelo cano, estão instalando um bem grande. 
8 - Você quer brigar? 
9 - São as obras do novo aeroporto, e não faça mais perguntas. 
10 - É para o metrô que só ficará pronto quando o… eu sabia que você não ia acreditar." 

Hoje, começamos uma série de artigos, dedicados à refutação do negacionismo à luz, dentre outras fontes, do que traz a parte referente ao WG1 (Grupo de Trabalho sobre as Bases Físicas da Mudança Climática) do 5º Relatório do IPCC, cujo sumário foi recém-divulgado.

É impressionante como há análogos quase perfeitos entre essas várias vertentes do "negacionismo do buraco do metrô" verissimiano e o negacionismo climático e, portanto, usarei o mote de LFV. Tentarei explicitar o paralelo entre algumas das "dez coisas para dizer" e "As Mentiras que os Negadores Contam". Estas últimas são muitas, bem mais do que dez, portanto terei de ser seletivo. Todas são vergonhosas à luz do que se conhece não só da Ciência do Clima, mas até de fundamentos básicos de disciplinas como Física, Química, etc. E constituem escalas diferentes de negacionismo. A grosso modo, pode-se negar o fato, negar o mecanismo, negar as causas, negar os impactos, etc. Comecemos, então...

"Que buraco?"

Evolução temporal da anomalia de temperatura média
global. Como se vê, o aquecimento parou e o mundo
está resfriando... Só que não! Fonte: IPCC AR5.
O equivalente climático a isto é dizer que "não há aquecimento", que vem nas versões delírio ("o mundo está entrando em uma era glacial"), distorção ("o aquecimento global parou há X anos") e outras.

Este é o chamado "negacionismo de 1º grau". Nega-se o fato. Nega-se a própria realidade. Para refutá-lo, como coloquei anteriormente neste post e em outros, basta olhar para as evidências objetivas. A rede de estações de superfície, satélites, radiossondas e demais instrumentos de medida corroboram com a elevação da temperatura da superfície da Terra e de sua troposfera, bem como o esperado ao se aumentar a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. É loucura suficiente para fazer o sujeito teimar com um termômetro...

A Figura ao lado deveria ser suficiente para dirimar quaisquer dúvidas sobre isso, pois a tendência de aquecimento ao longo do século XX é visível para qualquer um. Ela mostra a evolução, ao longo de mais de um século e meio, da anomalia de temperatura média global, isto é, quanto essa temperatura diferiu daquela do período de referência (1961-1990). Na série anual, há subidas e descidas mais evidentes, afinal de um ano para o outro há e sempre haverá bastante variabilidade. Ignorando o todo, os negadores se apegam ao finalzinho da série. Ligam o pico isolado de 1998 (quando ocorreu o maior El Niño de que se tem registro) com os anos mais recentes, mas é evidente que isto é manipulação, afinal bastaria pegar qualquer outro ano (1997 ou 1999 serviriam) e a "brilhante conclusão" dos negadores (de um aquecimento supostamente inexistente há 15 anos) se desmancha no ar. Ao se considerar não cada ano, mas cada década, o que se vê é no mínimo espantoso. O aquecimento na segunda metade do século XX é evidente, é acelerado e persiste claramente até o presente. A primeira década do século XXI é a mais quente de todo o registro, já se aproximando de 1ºC acima do início do século. Ou seja, globalmente, considerando devidamente as escalas de tempo e a variabilidade interanual (isto é, de um ano para outro), não há sinais de pausa no aquecimento global. Assim, a variante "light" do negacionismo de 1º grau ("o aquecimento acabou") é tão falsa quanto sua versão delirante ("estamos indo para uma era glacial"), que será desmontado em outra publicação.

Mudança na temperatura de 1901-2012 por estações de
superfície. Fonte: IPCC AR5.
Esse aquecimento também não é homogêneo espacialmente, isto é, certas localidades se aquecem mais do que outras. Isto fica evidente na figura ao lado, que mostra  que o aquecimento é diferenciado, tendo algumas porções continentais se aquecido mais rapidamente ao longo do século XX, como grande parte do continente asiático e grandes extensões de terra no norte da América do Norte e no leste da América do Sul.

Quando os negacionistas usam a última versão (a ingênua) do negacionismo de 1º grau, ignoram ou uma, ou outra, ou ambas as flutuações (no tempo e no espaço). É algo do naipe... "Este ano, em Setembro fez um frio em São Paulo que não fazia há anos" ou "Nevou na serra catarinense este ano e não me lembro disto ocorrer!" Às vezes, esse tipo de afirmação é baseado em mera impressão; às vezes é um fato real, mas que nada significa para a média de temperatura global de longo prazo, que é o que constitui o aquecimento global. É um ponto de vista flagrantemente ingênuo.

Não tem como negar. O planeta, globalmente, na escala de vários anos a décadas, segue aquecendo, e muito! O "buraco" existe (o da camada de ozônio também, negadores!). Mostraremos, em seguida que sabemos quem o cavou, como o cavou, porque ele é diferente de outros buratos e que o mesmo é muito, muito profundo!


2 comentários:

  1. Olá Professor.
    Saberia me informar como é feito o calculo da anomalia de temperatura? Ou ainda, teria a relação de estações meteorológicas ( ou imagens) utilizadas para tal?

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    Respostas
    1. Olá Ariel,
      Uma boa descrição das estações e métodos é apresentada neste link:
      http://www.skepticalscience.com/surface-temperature-measurements-advanced.htm

      Abraços!

      Excluir

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