sábado, 7 de setembro de 2013

Piscar de olhos, ou menos...

Seguindo a metáfora da publicação anterior (5 minutos), fiz um levantamento de alguns paralelos entrea rapidez atual das mudanças climáticas e ambientais impostas pelas atividades humanas (com destaque, sempre, para a emissão de dióxido de carbono associada à queima de combustíveis fósseis) e outros momentos da história geológica terrestre na literatura científica. Espero que esse tipo de comparação, que aproxima a idéia abstrata de tempo geológico em tempo humano, possa contribuir minimamente para enxergarmos melhor a gravidade e a urgência de um novo rumo civilizatório, livre dos combustíveis fósseis.



Anomalia de temperatura (acima) e CO2 atmosférico
(abaixo). Fonte: Nature (http://tinyurl.com/7dg43p6)
Primeiro, retorno ao tema da ultrapassagem da marca de 400 partes por milhão de CO2 atmosférico. Trata-se de um valor sem nenhum paralelo próximo durante toda a duração do registro de "ice cores" (cilindros de gelo) da Antártica, que cobre os últimos 800 mil anos, durante os quais a concentração desse gás oscilou entre cerca de 180 a no máximo 300 ppm, antes do período industrial, como na figura, do importante artigo de Dieter et al. (2008), publicado na Nature [1]. Para períodos anteriores a este, as fontes para estimativa do CO2 atmosférico não são tão precisas como o registro em gelo, mas não deixam dúvidas de que é necessário retroceder entre 3 e 5 milhões de anos no tempo, a fim de encontrar concentrações de CO2 como as atuais (uma breve discussão, mas com excelentes referências sobre isto pode ser encontrada em http://tinyurl.com/bymyuuw). Se pudéssemos transpor esses 3 milhões de anos (no mínimo) para um ano somente, os cerca de 200 anos de Revolução Industrial equivaleriam a pouco mais de 5 segundos. Seriam 5 segundos, portanto, e não 5 minutos?

A resposta depende evidentemente da referência, pois durante o Plioceno (período entre cerca de 2 e 5 milhões de anos), as variações no CO2 atmosférico eram bem mais lentas do que hoje em dia. Se tomarmos a velocidade com a qual tem de variado a forçante radiativa (conceito explicado em mais detalhes em alguns textos do meu blog), o paralelo mais próximo está bem mais distante: há cerca de 55 milhões de anos. É muito, mas somente nesse período, conhecido como o máximo térmico do Paleoceno-Eoceno, emissões naturais de gases de efeito estufa são comparáveis às emissões antrópicas do presente, segundo diversas referências, sumarizadas nesta seção do 4º Relatório do IPCC. Durante esse evento, que aparece claramente em registros paleoclimáticos de mais alta resolução, a temperatura subiu vários graus durante um rápido intervalo de tempo (do ponto de vista geológico), da ordem de poucos milhares de anos. Acredita-se que a liberação de metano aprisionado em clatratos tenha sido a principal razão desse desequilíbrio no sistema climático com rápido aquecimento, mostrando novamente duas coisas: primeiro, que o sistema climático responde a qualquer que seja a forçante que sobre ele atue; segundo, que esse sistema é bastante sensível no que diz respeito a uma resposta significativa (em termos de elevação de temperatura e outros parâmetros) a variações da forçante radiativa, particularmente as associadas a mudanças na composição química da atmosfera em termos da concentração de gases de efeito estufa. Esse momento da história geológica terrestre já é tão distante que, se os 55 milhões de anos fossem reduzidos a somente um, a Revolução Industrial equivaleria a 3 décimos de segundo, o tempo médio de um piscar de olhos, que comumente dura entre 100 e 400 mili-segundos.



Branqueamento e morte de corais e corrosão de conchas,
inibição de crescimento e morte de pequenos moluscos
podem trazer um efeito devastador para o equilíbrio do
ecossistema marinho global.
No entanto, como o aquecimento abrupto no Paleoceno-Eoceno se deu provavelmente mais pelo metano do que pelo CO2, outros efeitos deste sobre os ciclos biogeoquímicos globais não se fizeram sentir. Se o paralelo escolhido for a taxa de acidificação dos oceanos, há que se retrocede nada menos do que 300 milhões de anos no passado. Um artigo publicado há um ano e meio na Science [2] (e comentado de forma mais popular neste link) mostra bem o que se conhece em termos de registro geológico do pH oceânico e mostra que o que está sendo feito com a biota marinha no momento é sem precedentes nas eras Mesozóica e Cenozóica. É um período extremamente longo. Se o reduzíssemos a um ano, o relógio marcaria 23:59:59.9424 do dia 31 de dezembro. Restariam menos de 58 milésimos de segundo para a meia-noite

58 mili-segundos. É menos do que um piscar de olhos... Há que abri-los, portanto, já!



Dieter Lüthi, Martine Le Floch, Bernhard Bereiter, Thomas Blunier, Jean-Marc Barnola, Urs Siegenthaler, Dominique Raynaud, Jean Jouzel, Hubertus Fischer, Kenji Kawamura & Thomas F. Stocker
Nature 453, 379-382 (15 May 2008)
Bärbel Hönisch, Andy Ridgwell, Daniela N. Schmidt, Ellen Thomas, Samantha J. Gibbs, Appy Sluijs, Richard Zeebe, Lee Kump, Rowan C. Martindale, Sarah E. Greene, Wolfgang Kiessling, Justin Ries, James C. Zachos, Dana L. Royer, Stephen Barker, Thomas M. Marchitto Jr., Ryan Moyer, Carles Pelejero, Patrizia Ziveri, Gavin L. Foster, Branwen Williams. Science. March 2012: Vol. 335 no. 6072 pp. 1058-1063. DOI: 10.1126/science.1208277

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