terça-feira, 1 de outubro de 2013

As Mentiras que os Negadores Contam - Parte 2

Na publicação anterior neste blog, iniciei uma analogia entre uma crônica divertida de Luis Fernando Verissimo ("O Que Dizer"), publicada em "As Mentiras que os Homens Contam".

Uma das respostas da crônica à evidente e incômoda presença de um buraco é "São as obras do novo aeroporto, e não faça mais perguntas" e esta chega a, só que não no nível da anterior ("Que buraco?"), a negar o fato. Reconhece-se que existe algo, mas inventa-se que é outra coisa.
A realidade do clima é que "não é outra coisa". Não é "apenas um ciclo natural", não é "uma pausa antes do resfriamento global" (mesmo a suposta "pausa" ao longo desta década é, pelo contrário, prenúncio de um aquecimento mais acelerado quando variabilidade natural e feito antrópico voltarem a ter o mesmo sinal, algo que expliquei em texto anterior do nosso blog). Tampouco é a "retomada das temperaturas da idade média" (que já foram ultrapassadas globalmente e, no ritmo atual, não tardarão a ser superadas mesmo nas localidades em que ainda não o foram).

Quando o IPCC, desde o AR4, já afirmava que o aquecimento do sistema terrestre era inequívoco e que era "muito provável" (hoje, "extremamente provável") que a ação antrópica fosse a força dominante neste processo, já se baseava em múltiplas linhas de evidência. Isto se deve ao fato de que as análises contidas nos relatórios do IPCC se baseiam em diferentes fontes de dados, referentes a diversas variáveis do sistema climático (não apenas a temperatura média da superfície, mostrada na "Parte 1" desta série) e de que suas conclusões são baseadas em milhares de referências do que há de melhor na literatura científica (aquela que foi avaliada e revisada "pelos pares", ou seja, por outros cientistas). É o que se vê na contribuição do WG-1 (o "working group" ou "grupo de trabalho" I é o que lida com as bases físicas das mudanças climáticas enquanto os grupos II e III lidam, respectivamente, com impactos, adaptação e vulnerabilidade e com mitigação).

A Figura abaixo é a mostra de que não apenas a temperatura média global, mas uma variedade de outras quantidades apresentou modificações significativas ao longo de pouco mais de um século, especialmente as últimas décadas, atestando mudanças importantes no sistema terrestre. Perceba que os dados referentes a cada uma das variáveis vêm de múltiplas fontes (entre duas e sete).

Média global (ou regional, se for o caso) de diversas variáveis ou de suas anomalias (temperatura do ar próximo à superfície, temperatura da superfície do mar, temperatura do ar marinho, nível do mar, área coberta por gelo marinho no Ártico no verão, temperatura da troposfera, umidade específica, cobertura de neve do Hemisfério Norte e balanço de massa das geleiras). Fonte: sumário técnico da contribuição do WG-I ao AR5 do IPCC.

Se quiséssemos traduzir a mensagem da figura, poderíamos simplesmente dizer que a história recente da Terra (que tem percorrido passos geológicos em escalas de tempo humanas, isto é, muito mais rapidamente do que o ordinário) se resume a: maiores temperaturas, oceanos mais elevados, menos gelo, mais vapor d'água na atmosfera.

O AR5, a esse respeito, emite as seguintes conclusões (textos traduzidos do resumo técnico, mais denso cientificamente do que o sumário para formuladores de políticas):
- É certo que a Média Global da Temperatura da Superfície aumentou desde o século XIX. Cada uma das três últimas décadas tem sido mais quente do que todas as décadas anteriores do registro instrumental e a década de 2000 a mais quente de todas. A temperatura global combinada sobre continentes e oceanos aumentou em cerca de 0.89°C [0.69–1.08] ao longo do período 1901–2012 e cerca de 0.72°C [0.49- 0.89] no período 1951–2012 quando descrita por uma tendência linear. (...) É também virtualmente certo que as temperaturas máximas e mínimas sobre os continentes aumentaram em escala global desde 1950.  
Baseado em múltiplas análises independentes de medidas de radiossondas e sensores de satélite, é praticamente certo que globalmente a troposfera tem aquecido e a estratosfera resfriado desde meados do século XX. 
- É praticamente certo que o oceano superior (acima de 700 m) aqueceu entre 1971 e 2010, e é provável que tenha aquecido desde a década de 1870 até 1971. (...) É provável que o oceano tenha se aquecido entre 700 e 2000 m de 1957 a 2010, baseado em médias de 5 anos. É provável que o oceano tenha aquecido de 3000m até o fundo entre 1992 e 2005, quando observações suficientes se tornaram disponíveis para uma avaliação global.
- Há uma confiança muito alta de que a extensão da cobertura de neve tem diminuído no Hemisfério Norte, especialmente na primavera. Registros de satélite indicam que ao longo do período 1967–2012, a cobertura de neve muito provavelmente diminuiu, a maior redução, –53% [–40% a –66%], ocorrendo em Junho.
- É muito provável que a umidade específica próximo à superfície e no ar troposférico tenha aumentado desde a década de 1970. No entanto, nos anos recentes a tendência de umidificação sobre os continentes tem se reduzido (média confiança). Como resultado, decréscimos bastante generalizados da umidade relativa têm sido observados sobre os continentes em anos recentes.  
- Há uma confiança muito alta - com poucas exceções regionais - de que, desde o AR4, as geleiras continuaram a diminuir mundialmente, como revelado por mudanças medidas em sua extensão, área, volume e massa. 
Detalhe: mesmo com a umidade específica (ou a umidade absoluta) tendo aumentado (só que a um ritmo menor nos últimos anos), a queda da umidade relativa sobre os continentes se deveu fundamentalmente ao aumento de temperatura, como esperado!

Todos esses "sintomas" são absolutamente compatíveis com outra alteração fundamental no sistema terrestre: a mudança no seu balanço energético, a respeito do qual o sumário técnico da contribuição do WG-I ao AR5 é categórico:
A Terra tem estado em desequilíbrio radiativo, com mais energia entrando do que saindo no topo da atmosfera desde aproximadamente 1970. É praticamente certo que a Terra tem armazenado uma energia substancial de 1971 a 2010. O aumento estimado no inventário de energia entre 1971 e 2010 é 274 [196 a 351] x 1021 J, com uma taxa de aquecimento de 213 1021 W (...).
Esclarecendo os números acima, o Joule (J) é a unidade de energia. O Watt (W) é a energia de potência, usada, dentre outras coisas, para medir a energia consumida por unidade de tempo pelos eletrodomésticos de sua casa. O que implica que o aquecimento global proporcionado pelo aumento dos gases de efeito estufa equivale a nada menos que 200.000.000.000.000.000.000 (duzentos quintilhões) de ferros de engomar ligados! Ou, se preferir, mais de 15 trilhões de usinas hidrelétricas iguais à de Itaipu, gerando a pleno... Ou ainda o equivalente à energia liberada na explosão de 900 mil "Bombas Tsar", o mais poderoso artefato nuclear já disparado em testes nucleares...

O buraco existe e é fundo! Negar que se está dentro de um e
continuar cavando só tornará mais difícil sair dele!
O buraco, ao contrário do que querem dizer os negacionistas, existe e é fundo. Diferente do que vendem, não é a Ciência do Clima que não quer que se faça perguntas. Pelo contrário, ao menos no caso do clima terrestre e suas transformações, a Ciência é disparadamente a ferramenta melhor que se tem para respondê-las. O que não faz sentido é ficar preso ao mesmo ponto, isto é, questionando a existência de algo que é agora tão óbvio e tão bem compreendido quanto a queda dos corpos, a órbita dos planetas e a gravidade. As perguntas que precisaríamos estar fazendo (e para estas também já há respostas) são outras! São sobre como sair do buraco em que os negacionistas e a indústria de combustíveis fósseis insistem para ficarmos!

Um comentário:

  1. E o Alexandre Garcia jornalista da globo tão inteligente falando uma groselha daquelas "O o aquecimento global não existe"
    itatiaia.com.br/central-de-aud­io/comentarios
    Veja os comentários do dia 23/10
    Palpiteiro de mão cheia

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A resposta, meu amigo, está soprando ao vento...

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