quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Contra o Negacionismo Oficial: é preciso defender a Ciência brasileira

Aldo Rebelo, aquele que nega a Ciência
do Clima e diz que o movimento ambi-
entalista é "pró-imperialismo" é nome-
ado Ministro da Ciência, Tecnologia e
Inovação. Antes fosse apenas uma piada
de péssimo gosto.
Nos próximos dias, outras instituições de pesquisa e monitoramento climático, incluindo NOAA e NASA, deverão confirmar, cada uma usando uma metodologia diferente, o que a Agência Japonesa acabou de divulgar: 2014 é, com efeito, o ano mais quente de todo o período instrumental. Mas a virada do ano em Terra Brasilis,  ao contrário do que um fato desses deveria provocar (isto é, priorização da temática e transversalização da mesma em todos os ministérios), um negacionista climático é nomeado para o cargo de Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, justamente aquele que deveria induzir, incentivar e conduzir trabalhos de pesquisa junto à comunidade brasileira, envolvendo quantificação das mudanças, dos seus impactos e dos riscos e desenvolvimento de estratégias, incluindo soluções tecnológicas, para redução das vulnerabilidades, mitigação e adaptação.

Dois textos de autoria do agora ministro são duas verdadeiras pérolas de ignorância relativa à ciência do clima, ao mesmo tempo em que se caracterizam pelo acentuado grau de arrogância. O primeiro e mais importante, é o relatório que Aldo Rebelo preparou para alterar profundamente o Código Florestal. Dentre outras coisas (como tratar "o homem como o único ser vivo dotado de consciência e inteligência, capaz de interagir com a natureza e de transformá-la"), sua visão da Amazônia é assustadora, como se vê na passagem a seguir (parte de uma extensa citação de um livro do geógrafo Josué de Castro, publicado em 1946 e que Aldo Rebelo reivindica como correta...):

"Assim se apresenta o caso da conquista econômica da Amazônia: luta tenaz do homem contra a floresta e contra a água. Contra o excesso de vitalidade da floresta e contra a desordenada abundância da água dos seus rios. Água e floresta que parecem ter feito um pacto da natureza ecológica, para se apoderarem de todos os domínios da região. O homem tem que lutar de maneira constante contra esta floresta que superocupou todo o solo descoberto e que oprime e asfixia toda a fauna terrestre, inclusive o homem, sob o peso opressor de suas sombras densas, das densas copas verdes de seus milhares de espécimes vegetais, do denso bafo de sua transpiração. Luta contra a água dos rios que transformam com violência, contra a água das chuvas intermináveis, contra o vapor d’água da atmosfera, que dá mofo e corrompe os víveres. Contra a água estagnada das lagoas, dos igapós e dos igarapés. Contra a correnteza. Contra a pororoca. Enfim, contra todos os exageros e desmandos da água fazendo e desfazendo a terra. Fertilizando-a e despojando-a de seus elementos de vida."
Estimativa da forçante radiativa (em W/m2) de 1750 a 2011.
O total antrópico é cerca de 2,3 W/m2 enquanto a contribui-
ção da variação de irradiância solar no período é de meros
0,05 W/m2. As atividades humanas são, de longe, o princi-
pal fator a provocar alterações climáticas, não havendo nem
sombra do "elevado grau de incerteza" mencionado pelo Sr.
Aldo Rebelo em seu relatório antifloresta.
Já que a preservação da floresta não teria valor per se, sendo, na visão deturpada de Aldo Rebelo, necessário desferir-lhe um ataque, seria preciso também ampliar o repertório de falsificação e pseudo-ciência para negar a importância da Amazônia como estoque de carbono. Daí, o então deputado passou a abusar do negacionismo climático. Em suas palavras, "não há consenso (...) sobre até que ponto as mudanças climáticas recentes decorrem da ação humana ou de processos cujos ciclos podem ser medidos em centenas, milhares ou milhões de anos" o que, evidentemente, é falso, bastando lembrar que a razão entre as componentes antrópica e solar da forçante radiativa (isto é, a diferença entre a energia por unidade de área por unidade de tempo que entra e que sai do sistema Terra no topo de sua troposfera) é nada menos que 46 (conforme mostra a Figura 8.15 da parte do WG-I no 5º Relatório do IPCC, reproduzida ao lado).

Na seção intitulada "As grandes certezas e incertezas sobre as mudanças climáticas", o relatório de Aldo Rebelo repete várias fraudes negacionistas bem conhecidas, como a de haveria "há não muito mais de 30 anos" um "consenso científico" de que "nos avizinhávamos de uma nova 'era do gelo'", o que nunca correspondeu à verdade, bastando dizer que a criação do IPCC como painel de especialistas se deu precisamente porque ainda que o efeito estufa fosse bem conhecido e já houvesse evidências do aquecimento global, não havia um claro consenso científico ainda há 30 anos. Depois, demonstra uma total leviandade ao afirmar que "grande parte do que se apresenta como 'fatos', são, na verdade, estimativas obtidas via métodos que muitos consideram falhos e subjetivos e projeções de cálculos em computadores montados a partir de estatísticas não comprovadas", o que é séria candidata ao título de frase com maior razão entre o número de erros e mentiras e o número de palavras. Primeiro, porque grande parte das evidência do aquecimento global são observações. Segundo, os "muitos" citados aqui no Brasil se resume a um punhado de pessoas desprovidas de ética profissional e autoridade científica como Molion e Felício (diga-se de passagem o primeiro foi - vergonhosamente - convidado para uma das audiências públicas que tratou do Código Florestal!). Terceiro, porque os modelos climáticos não são "montados a partir de estatísticas", mas se constroem a partir das equações da dinâmica e termodinâmica da atmosfera e oceanos e nas trocas entre estes e os demais componentes do sistema climático terrestre, de onde fica claro que Aldo Rebelo não entende absolutamente nada daquilo que se propôs a falar.

Aldo Rebelo prefere ignorar os relatórios do
IPCC, compêndios científicos elaborados,
de milhares de páginas, preparados por
milhares de especialistas no clima, seus
impactos e em tecnologias de mitigação e
embasar sua visão de mundo a partir de um
grupo de economistas ligados a um instituto
cujo conselho de diretores é formado por
representantes de bancos e corporações,
incluindo... a Chevron-Texaco...
Uma das referências citadas por Aldo no seu relatório é ridícula. A longa citação iniciada por "a razão para que o debate continue é que as mudanças climáticas implicam cálculos muito complexos, que envolvem muitos fatores que são difíceis de medir e de prever..." é de um trio de autores ligados ao Peterson Institute for International Economics, um instituto privado, cujo corpo dirigente é formado por inúmeros banqueiros e representantes de corporações, incluindo o Banco de Desenvolvimento Chinês, o Citigroup e... a Chevron...

Claro, Aldo não se dá por satisfeito e numa carta (intitulada "A Trapaça Ambiental") a Márcio Santilli, que escreveu um artigo criticando o Relatório Antiflorestal, destila novamente toda a sua incapacidade de seguir um raciocínio minimamente coerente, baseado em evidências, e refuta o que Santilli apresenta com... uma longa citação de "Dialética da Natureza", uma das maiores bolas foras de Friedrich Engels, parceiro de Karl Marx. Repetindo a ladainha negacionista, afirma que "a teoria do aquecimento global" e insiste que "não há comprovação científica das projeções do aquecimento global, e muito menos de que ele estaria ocorrendo por ação do homem e não por causa de fenômenos da natureza". Ora, quem se recusa a examinar a questão com um mínimo de isenção e zelo, e se recusa a travar contato com as evidências, nunca haverá "comprovação". Aldo Rebelo, exatamente para servir ao propósito de abrir guerra contra as florestas, com uma motivação política, ideológica e econômica clara, no sentido de favorecer o agronegócio, faz o papel típico do negacionista: o de mercador da dúvida, nem que seja uma mercadoria apodrecida que só ele mesmo consuma.

E eis que esse senhor, capaz de escrever e afirmar tantas sandices, que não tem o menor zelo pela pesquisa científica real, que atropela, por se colocar no caminho do seu servilismo ao agronegócio, as conclusões científicas de uma comunidade internacional extremamente competente, incluindo os/as representantes brasileiros/as que participaram da elaboração dos últimos relatórios do IPCC, que foi nomeado por Dilma Rousseff ministro de ciência e tecnologia... Antes fosse apenas uma piada. Antes fosse... A inexistência de requisitos mínimos para o cumprimento desse cargo por parte de Aldo Rebelo é eloquente!

Não é que as pessoas não possam mudar de ideia. É que não há indícios de uma alteração profunda no ponto de vista do ministro, cujo raciocínio, em tantas outras questões, também é pobre e linear. Na posse, por exemplo, esquivando-se de reafirmar suas teses negacionistas (usadas inclusive como justificativa para o desmonte do Código Florestal), Aldo Rebelo se saiu com algo do tipo "sou um homem público e estou acompanhando o debate". Ele estava ciente de que seu desgaste, antes mesmo de por os pés na entrada do MCTI já era bastante significativo.

É bom avisar ao ilustre ministro que isso não o poupa do vexame. Primeiro, porque não há mais debate científico legítimo sobre se há ou não aquecimento global e se as causas das mudanças climáticas são fundamentalmente antrópicas ou não. Sequer há mais debate sério no meio acadêmico sobre a extensão e gravidade dos impactos.

Em poucos dias, outras instituições, incluindo a NOAA, deve-
rão corroborar o anúncio da Agência Meteorológica Japonesa,
de que 2014 estabeleceu novo recorde histórico de temperatu-
ra. Na figura, a situação de Janeiro a Novembro.
Se ele diz estar "acompanhando o debate" é que mal consegue sair do ambiente poluído da mídia e da blogosfera, em que negacionistas têm uma audiência completamente desproporcional em relação à sua inserção e seu respaldo na comunidade científica (que é nenhuma ou quase nenhuma). Ou seja, não é capaz de distinguir sequer o que é um periódico científico de um pasquim. Não sabe o que é literatura científica e como opera o processo de revisão por pares, que garante minimamente a legitimidade de boa parte do que é publicado em periódicos científicos, especialmente aqueles de maior prestígio (como Science, Nature e os principais de cada campo do conhecimento).

Se ele considera haver "debate", sequer sabe de fato o que é um painel de cientistas e o peso que tem a comunidade em torno do IPCC, tampouco desconhece que é desse painel que saíram os mais completos e relevantes compêndios científicos já elaborados por qualquer coletivo de especialistas em qualquer que seja a área do conhecimento.

Negacionista explícito ou negacionista envergonhado, Aldo Rebelo é, de um jeito ou de outro, uma vergonha para a comunidade científica brasileira. Esta deveria reagir à sua nomeação, que adquiriu tom de escárnio.

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