Tacloban, um ano depois

Há um ano atrás, ventos de mais de 300 km/h, as chuvas torrenciais e uma brutal "onda (ou maré) de tempestade" de 4 metros (quantidade enorme de água arrastada pelos ventos de grandes tormentas para dentro do continente) punha abaixo uma cidade de mais de 200 mil habitantes, capital de uma das províncias das Filipinas: Leyte, na ilha de mesmo nome. Foram 6201 mortos na tragédia.

O governo local ficou desestruturado e incapaz de agir, sem local de funcionamento, em meio a uma cidade sem energia elétrica, sem comunicações, sem serviço de água ou esgoto e com cadáveres espalhados por toda parte. Após um sobrevoo, um militar dos EUA descreveu, em choque: "não consigo encontrar uma única estrutura da cidade, um único prédio, uma única casa, que não tenha sido, quando não completamente destruída, pelo menos severamente danificada".


Em nosso blog, nós debatemos como não é mais possível tratar fenômenos como o Haiyan como "naturais", pelo simples fato de que qualquer fenômeno meteorológico hoje em dia se desenvolve numa atmosfera com uma concentração mais de 40% acima dos índices pré-industriais e, particularmente no que diz respeito a tempestades severas, são importantes qualquer décimo de grau a mais no oceano e cada décimo de grama de vapor d'água por quilograma de ar na atmosfera.

Caminhada pelo Clima, de 40 dias, chega a Tacloban,
para reverenciar os mais de 6 mil mortos pelo Haiyan.
Tacloban e as pesadas imagens da tragédia, bem como o discurso proferido pelo líder da delegação filipina na COP19, Naderev Yeb Saño precisam ficar como marcos daquilo que, se hoje é exceção, pode vir a ser regra. Sim, pois o Haiyan é precisamente o tipo de tempestade "anabolizada", esperada num clima vários graus mais quente. O mesmo Yeb Saño, hoje, completou, junto a outros ativistas, uma Caminhada pelo Clima ("Climate Walk") de 40 dias, que se encerrou exatamente hoje, em reverência aos mortos em Tacloban.

É preciso que se diga com todas as letras: só é possível adaptar-se até um determinado limite, que não está muito além do aquecimento global já "encomendado" por nossas emissões até agora (o efeito, além de cumulativo, tem uma defasagem temporal, da mesma maneira que uma panela de água não inicia a fervura assim que é colocada sobre a chama do fogão). A partir de um ponto, não há como esperar outro efeito que não a ladeira abaixo rumo a barbárie pois duvido que mesmo países desenvolvidos sejam capazes de se reconstruírem se forem atingidos por um, dois, três ou mais monstros como Haiyan, Katrina e Sandy todo ano.

Os moradores de Tacloban tentaram, após enterrarem seus mortos, reconstruírem as casas e a infraestrutura de sua bela cidade, retomarem uma vida normal. Mas não se pode falar em "volta à normalidade" quando se trata de tragédias como a proporcionada pelo Haiyan. Não se poderá jamais pensar em "volta à normalidade" de um clima como aquele na qual a civilização humana floresceu, se as concentrações de CO2 permanecerem tão elevadas, em breve ultrapassando 400 ppm na média anual. Como frisamos em diversos momentos, o nível seguro de 350 ppm fora ultrapassado já em 1988, ano em que foi criado o IPCC, na irônica tentativa de responder à ONU se o homem estava interferindo no clima e se tal interferência era perigosa, algo como questionar se um crocodilo poderia devorar um ser humano com a cabeça entre as mandíbulas de um...

E aí, é preciso voltar à mesma tecla de sempre: há que se seguir as recomendações dos cientistas do clima e restringir, urgente e profundamente, as emissões de gases de efeito estufa. Neste caso, ainda que limitemos fortemente o metano e o óxido nitroso, via mudanças radicais na agricultura e extingamos outras emissões deletérias como as de compostos halogenados (CFCs, HFCs e outros) e as de fuligem que, ao se depositarem sobre a neve e o gelo, escurecem a superfície, acelerando o derretimento e aumentando a absorção de luz solar; não se pode esquecer do fundamental. Isoladamente, o CO2 de origem antrópica tem um efeito dominante, equivalente à soma dos demais fatores e sua principal fonte, a queima de combustíveis fósseis, é a garganta do monstro, onde é preciso desferir o golpe mortal. E esse golpe só é mortal para um punhado de corporações e para um sistema que se sustenta nelas para gerar a energia que movimenta suas engrenagens. Para a maioria da população humana, para um sem número de espécies da biota terrestre, para nossas futuras gerações, esse golpe mortal na indústria fóssil é um sopro de vida necessário, essencial, urgente para quem já luta pelo fôlego.

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