Viagem ao Mundo de 400 ppm

Abril de 2014: a média mensal, bem como todas as médias
semanais e medidas diárias em Mauna Loa, sítio de medidas
de CO2 que funciona desde 1958, acima de 400 ppm, fato
absolutamente inédito (quando as medidas se iniciaram, os
valores giravam em torno de meros 315 ppm).
Os dados de Mauna Loa (disponíveis no site do Scripps e no site da NOAA) estão a cada dia com "cara mais feia". A medida diária recorde ainda é de 01/05/2014: 403,1 partes por milhão (ppm), mas tem tudo para ser batido. Também deve ser superada a média mensal de Abril (401,3 ppm), já que a média mensal de CO2 neste mês de Maio será, com certeza, novo recorde, provavelmente acima de 402,5 ppm. É quase certo também que, este ano, teremos 3 meses com concentração de CO2 acima de 400 ppm, pois o mês de Junho deve fechar com algo em torno de 401,5 ppm (em Abril, já tivemos média de 401,3 ppm).

Em Julho, seguindo o ciclo anual, essa concentração deve descer abaixo de 400 ppm, para fechar, ao fim de 2014, numa média anual recorde próximo a 399 ppm (ou até acima!). 2015, assim, deverá ser o primeiro ano para o qual a média deverá superar 400 ppm.



O mínimo de CO2 é atingido, a cada ano, em Setembro-Outubro e ano passado atingiu-se 393,5 ppm. Ou seja, no ritmo atual, 2016 corre o risco de ser o primeiro ano para o qual o medidor de CO2 em Mauna Loa não descerá, em nenhum mês, abaixo da marca fatídica... E é quase certo que em 2017 ou 2018 valores abaixo de 400 ppm jamais ocorrerão em nenhum dia sequer!


Nenhum ser humano, nenhum indivíduo do gênero Homo (ou mesmo de gêneros anteriores da nossa linhagem, como Pithecanthropus e até algumas espécies de Australopithecus) havia vivido num mundo de 400 ppm. As crianças nascidas nos próximos anos serão pioneiras. Serão os primeiros hominídeos desde os primeiros australopitecíneos (que surgiram há 3,9 milhões de anos) a habitarem um planeta assim, cada vez mais quente, com nível do oceano cada vez mais elevado, com mais eventos severos (tempestades mais intensas, secas mais severas, furacões mais devastadores, etc.). O Australopithecus africanus, mostrado ao lado, habitou o planeta há 2,5-2,9 milhões de anos. Eles já não habitaram um planeta de 400 ppm de CO2 ou mais.

Um mundo de 400 ppm é como outro planeta. E algo como ele (ou até com concentrações maiores) já existiu, como indicam os registros paleoclimáticos. Combinando a informação de colunas de gelo (de alta precisão, disponível para até 800 mil anos atrás) com outras fontes (estimativas a partir das dimensões dos estômatos, por exemplo) chega-se, para os últimos 65 milhões de anos (Era Cenozóica) em algo como a figura ao lado, adaptada a partir de Hansen et al. (2013). Ela mostra claramente que é preciso retroceder 3 milhões de anos ou mais a fim de se encontrar concentrações de CO2 excedendo 400 ppm.

Mas também mostra outros aspectos ao mesmo tempo interessantes e assustadores. Os dados mostrados por Hansen e colaboradores sugerem que uma calota de gelo permanente no Ártico não é compatível com concentrações de CO2 acima de 400-450 ppm e que mesmo uma cobertura de gelo parcial/intermitente (por exemplo, formando-se somente no período frio a cada ano para desaparecer por completo no verão) não existia para condições atmosféricas de 500 ppm de CO2 ou mais. Aparentemente, esse também é o limiar (talvez um pouco mais, 550 ppm) para que a própria calota do sul se torne intermitente (como entre o Oligoceno e o Mioceno, há algo como 14-27 milhões de anos atrás). Importante frisar que certamente não há registro de existência, pelo menos na Era Cenozóica (últimos 65 milhões de anos) do manto de gelo sobre a Antártica com concentrações de CO2 acima de ~700 ppm.

Um cenário de Terra arrasada é o único que se pode esperar
se a ocorrência de eventos extremos continuar a crescer,  o
que se espera em um clima mais quente. A devastação pro-
movida por tempestades como Katrina, Sandy Haiyan (foto)
e outros ocorrendo de forma mais frequente pode não per-
mitir sequer a reconstrução da infraestrutura mínima entre
um evento extremo e outro, levando à degradação cada vez
maior das condições de vida de refugiados climáticos.  
Viver sob 400 ppm, 500 ppm ou 600 ppm ou mais é como viver em outro planeta. Afinal o degelo da Groenlândia implica em uma elevação de cerca de 7 metros no nível dos oceanos globais, em média. O derretimento pleno do gelo da Antártica (muito maior em extensão e muito espesso, chegando a 3km de profundidade em algumas porções) levaria a uma elevação de outros 64 metros. Isso para não falar da tendência muito clara, discutida em outros textos do nosso blog, particularmente este, de ocorrência de eventos extremos mais frequentes e mais intensos, o que poderia fazer com que o Haiyan, que devastou as Filipinas poucos meses atrás, deixasse de ser exceção para ser regra.

200 milhões de seres humanos habitam áreas costeiras abaixo de 5 metros de altitude e nada menos do que 38% da população mundial está alocada a 100km ou menos do litoral ou de estuários. Só a elevação dos oceanos será suficiente para desalojar milhões ou até bilhões de pessoas, num prazo desconhecido face as incertezas ainda existente referentes à dinâmica do gelo dos mantos continentais citados. Uma elevação de 7 metros faria cidades inteiras desaparecerem do mapa, para não falar dos 70 metros resultantes do derretimento conjunto da Groenlândia e da Antártica. No primeiro caso, o mapa mundi seria simplesmente redesenhado. No segundo, países inteiros e muito populosos deixariam de existir ou perderiam a maior parte de seus territórios, como Bangladesh (154 milhões de habitantes), Holanda (quase 17 milhões), Senegal (quase 14 milhões), Dinamarca (5,6 milhões). Sumiriam ainda a Ilha de Marajó e quase todo o estado da Flórida. Mais da metade das capitais de estado brasileiras ficariam submersas (é possível saber a situação de sua cidade, seu bairro e até sua rua em diferentes cenários de elevação dos oceanos através do site http://geology.com/sea-level-rise/).
Bangladesh é um país condenado. Ele abriga nada menos do que 154 milhões
de habitantes, a sétima maior população mundial.
Mas o quadro pavoroso, pintado a partir dos cenários possíveis de elevação do nível do mar, é ainda mais agravado ao se considerar o efeito das inundações costeiras associadas a eventos extremos. O Katrina, em 2005, matou 1800 pessoas, inundou 80% de Nova Orleans e destruiu 182 mil residências. O Sandy deixou desabrigados na Jamaica, agravou as condições já extremamente precárias no Haiti (54 mortos e cerca de 200 mil pessoas tendo perdido suas casas), promoveu estragos na República Dominicana (30 mil pessoas evacuadas), atingiu Cuba duramente (11 mortos e mais de 130 mil famílias desabrigadas), passou por Bahamas e Bermuda e atingiu em cheio os EUA (deixando 87 mortos, 6 milhões de pessoas sem energia elétrica e produzindo prejuízos estimados em cerca de 65 bilhões de dólares). O Haiyan, nas Filipinas, provocou 6300 mortes, deixou outros 1000 desaparecidos, deixou quase 2 milhões de pessoas sem teto, desalojou/deslocou/forçou a evacuação de nada menos de 6 milhões de pessoas e deixou 90% da estrutura da cidade de Tacloban destruída.
No mundo de 400 ppm tem...
Calor extremo, tempestades severas,
elevação do nível do mar...

Um mundo de 400 ppm ou mais vai gradualmente se transformar em algo muito distinto do "mundo como o conhecemos".

É como outro planeta. Mas fica no mesmo lugar. E não dá para encarar a questão com a tranquilidade de quem envia o filho ou filha para uma viagem a um local hospitaleiro, pois não é. A própria viagem será certamente atribulada. O destino final, a menos que se mude o curso, em nada lembra a casa dos avós ou um lar de intercâmbio.

Referência:
Hansen, J., Sato, M., Russell, G. e Kharecha, P., 2013: Climate sensitivity, sea level and atmospheric carbon dioxide. Phil. Trans. R. Soc. A 28 October 2013 vol. 371 no. 2001 doi 20120294.


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