
E para falar sobre este assunto, o Estado Verde conversou com o físico cearense, Alexandre Costa, integrante do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC). Segundo o professor, a marca do aquecimento global e das mudanças climáticas, especialmente, na região Nordeste, é absolutamente clara. No entanto, por aqui, ainda chegamos ao absurdo de manter no Complexo do Pecém, uma termelétrica a carvão, a fonte mais suja de energia que existe, consumindo 800 litros de água doce por segundo (suficiente para abastecer uma cidade de meio milhão de pessoas), com 50% de abatimento no preço, enquanto o Sertão sofre com a seca severa.

[OeV] E possível perceber sinais significativos na nossa região que indiquem o impacto do aquecimento global? Por exemplo, diferenças significativas nos movimentos das marés, regimes de chuvas, alterações de temperaturas. [AC] Em nossa região, aos efeitos globais se sobrepõem vários efeitos locais. O avanço dos oceanos depende também das intervenções realizadas na costa e nas cidades há alterações climáticas de cunho local, constituindo o efeito chamado “ilha de calor”. Mas em certos aspectos, a marca do aquecimento global é absolutamente clara. De acordo com as observações de temperatura da superfície, o Nordeste Brasileiro tem vastas áreas em que, ao longo deste século, a temperatura se elevou mais de 1,5 graus e isso não se deve a fatores “locais” ou “urbanos”. É algo que resulta de efeitos de maior escala.
[OeV] O novo relatório do IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, da Organização das Nações Unidas (ONU), e o primeiro relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) servem de alerta para a questão da desertificação no Ceará? [AC] Sim. Ambos os relatórios indicam uma tendência inequívoca de aumento da temperatura na região. No que diz respeito às chuvas, existem chances de as mesmas ou se manterem essencialmente inalteradas, ou decrescerem junto a esse aquecimento, mas com incertezas nas projeções. Do ponto de vista global, porém, sabemos que um clima mais quente implica em uma maior frequência de ocorrências de eventos severos como ondas de calor, o que pode acentuar o impacto de secas e veranicos mesmo que, em média, o total de chuvas não se altere. Face o processo avançado de degradação ambiental sobre o bioma Caatinga, é evidente que tais condições agravam o risco de aridização e desertificação.


[OeV] O Brasil é considerado um dos maiores emissores de Gases de Efeito Estufa (GEE). Parcela considerável das nossas emissões líquidas estimadas de CO2 é proveniente de mudança no uso do solo (desflorestamento para uso agropecuário). Esta informação é possível porque consta do Segundo Inventário de Emissões de GEE, do País publicado em 2010. E aqui no Ceará, já temos o nosso inventário? [AC] Nosso País avançou na sua capacidade de estimar as emissões, particularmente de CO2. De fato, nossas emissões caíram, graças à redução do desmatamento, que foi possível em função da política de crédito agrícola que impôs restrições aos desmatadores. Por outro lado, o cenário futuro não é dos mais animadores, por dois motivos: primeiro, pelo desmonte do Código Florestal, que pode levar a uma retomada das emissões por desmatamento; segundo, e principalmente, porque as fontes das emissões brasileiras estão mudando, com a participação de emissões de transporte (automóveis, caminhões, etc.) e do setor energético (com as termelétricas) aumentando a olhos vistos. Lamento também que a maior parte dos estados e municípios, infelizmente, não desdobrou ainda a Política Nacional sobre Mudança no Clima. O Ceará, por exemplo, precisa urgentemente integrar uma Política Estadual de Mudanças Climáticas com o planejamento de recursos hídricos, de manejo de resíduos sólidos e de infraestrutura energética, assim como Fortaleza precisa articular uma política municipal de clima às várias políticas públicas, incluindo a de transporte e mobilidade pública e de preservação de áreas verdes.
[OeV] Falta vontade política ou conhecimento sobre os impactos e combate às mudanças climáticas e na adaptação de seus efeitos no Ceará? [AC] Eu diria que tanto a população em geral quanto os formuladores de política e tomadores de decisão não têm atentado para a gravidade do problema. Se permanecermos presos ao imediatismo e/ou a falsas prioridades, pagaremos, nós mesmos e as gerações futuras, o preço dessa incompreensão e da inação.
[OeV] Qual a principal atribuição do Fórum Cearense de Mudanças Climáticas e qual a participação do mesmo na construção de uma via de convívio com os efeitos das mudanças do clima, no Estado? [AC] No Ceará, o Fórum se vincula ao Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente (Conpam). Como o próprio nome diz, ele se propõe a ser um fórum de discussão de políticas públicas em torno da questão climática. É necessário, portanto, que ele se torne mais ativo nesse sentido, especialmente face a divulgação do 1º Relatório do PBMC e do 5º Relatório do IPCC.
Por Tarcilia Rego
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