O dia 26 de agosto de 2016 será para sempre lembrado. Dica: tem a ver com o CO2.

26 de agosto é aniversário do Palmeiras e de Madre Tereza.
Mas a partir de 2016 ficará marcado por algo impressionante.
O dia 26 de agosto de 2016 vai entrar certamente para a história. Mas não por conta do 106º aniversário de nascimento de Madre Tereza de Calcutá ou do 102º aniversário de fundação da Sociedade Esportiva Palmeiras. Tampouco será por nesse dia terem-se completado 227 anos desde que a Assembléia Nacional Constituinte da França revolucionária aprovou a "Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão"...


O fato ocorrido nessa data e que representa um marco tem a ver com medições feitas no observatório de Mauna Loa. Nesse local, observações da concentração de CO2 vêm sendo realizadas desde 1958, "todo santo dia" e que produziram a famosa "Curva de Keeling", o famoso gráfico que mais do que o ciclo anual de respiração e fotossíntese do planeta, revela a rápida acumulação de CO2 na atmosfera terrestre em virtude das emissões humanas, levando-nos a um aumento de mais de 40% na concentração desse gás em relação aos tempos pré-industriais.

Medidas de CO2 em Mauna Loa em 2016, de Janeiro a
Outubro: valores diários (pontos azuis), médias semanais
(linhas verdes) e médias mensais (linhas vermelhas).
A imagem mostrada ao lado é o "print" da página do ESRL (Earth System Research Laboratory), indicando que, desde Janeiro de 2016, um único ponto, um único dia, ficou abaixo do patamar de 400 ppm (partes por milhão). Além de ter ficado excepcionalmente abaixo dos dias vizinhos, será quase certamente a última medida diária de concentração de CO2 abaixo de 400 ppm, por motivos bem simples: a partir de outubro, com a decomposição das folhas que caem no outono do hemisfério norte, a concentração de CO2 volta a subir e, como a cada ano mais CO2 se acumula na atmosfera, esse também é um ponto sem retorno, já que em setembro de 2017, ou seja, o mínimo do ano que vem estará acima do mínimo de 2016.

Além dos valores diários, com a exceção de 26/08, todas as medidas semanais de concentração de CO2 este ano ficaram bem acima de 400 ppm (a média semanal mais baixa tendo ocorrido na última semana de setembro, com 400,72 ppm) e todos os meses ficaram acima de 401 ppm (o mínimo registrado foi de 401,03 ppm na média mensal de setembro).

O ritmo de elevação dessas concentrações tem se acelerado nas últimas décadas. A taxa de acumulação média era de 0,85 ppm/ano nos anos 1960. Na década de 1990, esse número saltou para 1,50 ppm/ano e nos anos 2010, atingiu impressionantes 2,38 ppm/ano em média, sendo que em 2015, com a contribuição do El Niño se somando ao fator (dominante) antrópico, acumularam-se 3,05 ppm de CO2 na atmosfera.

Essa aceleração é muito preocupante. Usando estimativas conservadoras da sensibilidade climática (uma duplicação da concentração de CO2 levando a um aquecimento de 3°C), conclui-se que para se evitar um aquecimento de 2°C deveriámos ficar abaixo de 444 ppm. Na atual trajetória de uma acumulação cada vez mais rápida de CO2 na atmosfera, é provável que na década de 2020 a taxa anual gire em torno de 3 ppm/ano ou mais, o que nos dá cerca de 15 anos para atingirmos esse patamar de alto risco. Ou menos.

O Acordo de Paris indicou onde não deveríamos chegar, mas quase um ano após o fechamento do documento e às vésperas da sua provável ratificação (após aprovação no parlamento europeu), não se viu nenhuma medida efetiva de contenção da principal causa do aquecimento global, isto é, a queima de combustíveis fósseis. Pelo contrário, investimentos continuam sendo feitos em pesquisa de exploração de petróleo e gás, mantém-se a prospecção desses combustíveis, especialmente nos oceanos, espalha-se o fraturamento hidráulico (fracking) e insiste-se na propaganda enganosa de que o CCS (captura e armazenamento de carbono) permitirá que essa indústria assassina siga operando.

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