sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Rio de Fevereiro

Imagem: Folha de São Paulo
Com um saldo terrível de 6 pessoas mortas, centenas de árvores derrubadas e inúmeros danos materiais a residências, edifícios públicos e comerciais, à infraestrutura da cidade, etc., tudo indica que os impactos da enxurrada que lavou o Rio de Janeiro são bem maiores do que teriam sido caso medidas básicas de prevenção e uma gestão minimamente decente de risco tivessem sido adotadas. Tendo gasto apenas 22% do orçamento previsto para controle de enchentes e contenção de encostas, é óbvio que o prefeito Marcelo Crivella (PRB) tem culpa no cartório.
Mas este texto pretende se dedicar a uma reflexão um pouco mais além (ressalto que isso não pode servir de modo algum para isentar nenhum gestor, a começar do prefeito da cidade debaixo d'água, de suas responsabilidades mínimas).


Crivella "cuidando das pessoas"?
Foto: O Globo
Haveria menos alagamentos não fosse o lixo nas galerias pluviais... A água não escoaria tão violenta se a cidade não fosse tão impermeabilizada... Os pobres seriam menos impactados se as construções fossem adequadas e fora de locais de risco... O alerta e o socorro seriam mais eficazes se um péssimo prefeito não tivesse sucateado órgãos responsáveis e cortado verbas para as ações durante enchentes... Os R$ 564 milhões que deixaram de ser repassados para ações de controle de enchentes e contenção de encostas certamente fizeram falta, e muita.

Mas é preciso, mais do que nunca, que se diga: as chances de uma tempestade como a que desabou sobre o Rio de Janeiro seriam menores se o planeta não estivesse mais quente do que há pouco mais de um século! Toda tempestade, no mundo de hoje, se desenvolve numa atmosfera com 46% a mais de CO2 e com temperatura 1°C mais quente do que a dos tempos pré-industriais e isso faz toda a diferença!

Para quem tiver interesse em se aprofundar um pouco mais, a Física por trás é relativamente simples, dada pela chamada "Relação de Clausius-Clapeyron" que estabelece que a pressão de vapor de saturação cresce (quase) exponencialmente com a temperatura. A consequência prática dessa relação é que a cada 1°C, a capacidade da atmosfera em armazenar vapor d'água cresce em aproximadamente 7%. Ora, se quanto mais quente a atmosfera, mais vapor d'água ela será capaz de armazenar, por conseguinte também haverá mais água para ser despejada depois que ele se condensar.

Claro, sempre choveu e sempre houve, ocasionalmente, precipitações extremas. Mas a conclusão é que eventos extremos de precipitação (e seus impactos como inundações, deslizamentos, etc.) são exacerbados com o aumento da temperatura. Temos reiterado em nosso blog: um clima mais quente é um clima de extremos.

Evolução da temperatura média global (continentes e oceanos)
de 1880 a 2018, segundo a NASA. Fonte: NASA-GISS.
E se é para falar de um clima mais quente, as evidências nunca foram tão nítidas após a divulgação dos dados consolidados de 2018 pelas agências dos EUA que monitoram o clima: NASA e NOAA. 2018 não foi um recordista (ficou em 4º lugar no ranking), mas os 5 anos mais quentes do registro histórico foram exatamente os 5 anos mais recentes. Os sete anos mais quentes são todos de 2010 para cá. Entre os 10 mais quentes, apenas 1998 não pertence a este século e é quase certo que 2019 vai chutá-lo para fora desse conjunto.

Prevenção é fundamental, e seguiria sendo mesmo se não houvesse mudanças climáticas. Adaptação é essencial, e seguiria sendo mesmo se estivéssemos fazendo direitinho o dever de casa de reduzir as emissões a fim de estabilizar o clima e conter o aquecimento global em patamares menos inseguros.

Mas não dá pra ficar nisso. No varejo. No local. Não dá mais para assistir a tragédias como a que se abateu sobre o RJ e não falar da relação de eventos extremos com o aquecimento global. Virão tempestades violentas com mais frequência e ainda maior intensidade a cada décimo de grau que a temperatura do planeta subir. Combater as emissões de gases de efeito estufa (CO2, metano, óxido nitroso, halocarbonetos) é tarefa para lá de urgente. Abandonar os combustíveis fósseis, pôr um fim ao desmatamento e adotar outras medidas para evitar que a temperatura global suba descontroladamente é tão urgente quanto coletar o lixo e equipar a defesa civil.

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