terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Os 8 fatos climáticos de 2016!


2016 foi tudo menos um ano típico, em várias áreas, incluindo economia e política. Mas para o clima em especial, 2016 deverá ficar para a história. Nesta espécie de retrospectiva, vamos mostrar alguns dos "fatos climáticos" mais marcantes desse ano que muita gente não vê a hora de acabar!

O Ano Mais Quente do Registro Histórico (de novo!)

Pela terceira vez consecutiva, estamos quebrando mais um recorde de temperatura média global desde que tais medições se iniciaram (algo inédito desde que esse registro se iniciou em 1880).

É verdade que 2016 se iniciou com um El Niño muito intenso, comparável àquele de 18 anos antes, o mais forte já registrado. E em anos de El Niño, o Oceano Pacífico entrega uma grande quantidade do calor que acumulou para a atmosfera, aquecendo o planeta. No entanto, é preciso que se diga: o El Niño não foi o fator dominante neste caso, até porque o fenômeno se encerrou ainda no primeiro semestre de 2016, tendo sido o trimestre centrado em Maio o último com anomalias de temperatura do mar no Pacífico que pudessem caracterizá-lo, de acordo com dados do Climate Prediction Center ligado à National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA).

Quase todos os pixels deste planetinha ficaram com temperaturas
acima do normal este ano. Em muitos, recorde absoluto!
Aliás, conforme a própria NOAA, de janeiro até novembro o planeta se encontrou em média +0,94°C mais quente do que a média do século XX ou cerca de 1,3°C acima dos níveis pré-industriais (deverá fechar em algo como 0,86°C mais quente que o século XX). Isso é incrivelmente próximo do primeiro limite estabelecido no Acordo de Paris, que prevê que as temperaturas deveriam ser estabilizadas bem abaixo de 2°C das condições pré-industriais e preferencialmente abaixo de 1,5°C.  Na verdade, em fevereiro deste ano, com o El Niño ainda atuando, tal limite foi ultrapassado pela primeira vez: as temperaturas naquele mês ficaram 1,63°C acima daquelas de antes da maldição dos combustíveis fósseis... Não é à toa que a maior parte do planeta apresentou temperaturas acima ou muito acima do normal, com muitos recordes locais tendo sido quebrados.

Saiu a previsão de temperatura para 2017 e o calor não vai passar com o El Niño!

Corroborando com o que acabamos de comentar, mesmo com o El Niño de 2015-2016 tendo se encerrado, a previsão de um dos principais centros de meteorologia e climatologia do mundo, o United Kingdom Meteorological Office, é a de que o aquecimento global não vai dar refresco.

A previsão, anunciada há uma semana, é a de que a temperatura do ano que se aproxima deverá ficar entre 0,63 °C e 0,87 °C acima da média do período de referência (1961-1990), com uma estimativa mais provável de 0,75°C, o que equivale a quase 1,1°C acima das temperaturas pré-industriais. Isso seria suficiente para colocar 2017 no mínimo como o terceiro ano mais quente de todo o registro histórico desde 1880, atrás apenas de 2016 (0,86°C) e 2015 (0,77°C), acima de 2014 (0,61°C), mas com boas chances de disputar o segundo lugar e pequena probabilidade até de desbancar 2016 do alto do ranking!

Previsão do UK Met Office mostra que, com ou sem El Niño,
temperaturas continuarão em alta. É virtualmente certo que
2017 ficará entre os 3 anos mais quentes, podendo até mesmo
desbancar 2015 pelo segundo posto.
Aliás, os dados do UKMO nos permitem fazer algumas análises interessantes: o ano de 1998, 0,53°C mais quente que a média de 1961-1990, é o único do século passado entre os 16 mais quentes do registro histórico. Naquele ano, formou-se o maior El Niño do registro histórico, por isso não faz sentido comparar 1998 com anos normais ou de La Niña. Só pode haver paralelo justo se o colocarmos diretamente com 2016 e este se revelou 0,32°C mais quente. A conclusão é de que o sinal antrópico no mínimo é igual a esse valor, em apenas 17 anos. Em tempo: detentor do recorde por vários anos, 1998 hoje é apenas o 7ª na lista de anos mais quentes. Ano que vem deverá ser superado de novo, passando a 8º. Até o fim da década deixa os top 10.


Concentração de CO2 bateu recordes impressionantes

O ano de 2015 foi o primeiro do registro histórico em que a concentração média anual de CO2 medida em Mauna Loa ficou acima dos 400 ppm (chegou a 400,83 como se pode ver ao final da série), mas o dado global (a partir de múltiplos pontos) ainda ficou um pouco abaixo: 399,47 ppm. Essa diferença se deve ao fato de que a atmosfera do Hemisfério Norte, onde Mauna Loa está localizada, contém um pouco mais desse gás do que a do Hemisfério Sul. Daí, 2016 se consolidará como o primeiro ano em que a média global da concentração de CO2 ficará acima (e bem acima!) de 400 ppm. E como também registramos, 26 de agosto de 2016 deverá passar a história como o último dia em que os sensores de CO2 de Mauna Loa mediram um número inferior a 400 partes por milhão!

A "Curva de Keeling" atualizada até
novembro de 2016.
Mais do que isso, 2016 deverá produzir a maior taxa de crescimento dessa variável em um único ano. Por enquanto, o recordista é o ano anterior, já que de 2014 para 2015 tivemos um aumento de 3,05 ppm na concentração desse gás. Mas de novembro de 2015 para novembro de 2016, o aumento foi de 3,37 ppm; de outubro a outubro, 3,28 ppm e assim por diante... A tendência, portanto é que tenhamos outro recorde impressionante: dois anos consecutivos em que a taxa de aumento da concentração atmosférica de CO2 fica acima de 3 ppm, quando a média da década passada (2001-2010) foi de 2,04 ppm por ano. A "Curva de Keeling" não apenas continua na ascendente. Ela se acelera!

O CO2 disparou? Desta vez o metano foi junto!

Como se o CO2 não fosse um problema grande o suficiente, existem outras moléculas que individualmente fazem estrago até maior (como o metano, o óxido nitroso e os halocarbonetos). O metano, por exemplo, tem um potencial de aquecimento global na escala de 100 anos mais de 30 vezes maior do que o CO2 (comparando molécula a molécula) e mais de 80 vezes na escala de 20 anos!

Pois é... e a concentração desse gás subiu loucamente nos últimos anos, como bem mostram os dados do Earth System Research Laboratory da NOAA, que também monitora o CO2.

Aumento da concentração de metano se
acelerou nos últimos anos. Mas a causa
disso ainda não foi elucidada. Não há
evidências apontando para os vilões
óbvios como gado e fracking.
O que é estranho dessa vez é que nenhum dos candidatos óbvios a culpados parece ter deixado as impressões digitais nesse aumento da concentração de metano: nem vacas, nem fracking parecem ser a causa direta, tampouco derretimento do permafrost, que seria um candidato óbvio para um "feedback" ou retroalimentação.

Matéria recente da Revista Science sugere que megaenchentes nos trópicos, aumentando a área alagada, podem ser responsáveis pelo aumento do metano. Ora, toda projeção climática sugere um aumento da precipitação nos trópicos, especialmente na forma de eventos severos, de chuva concentrada. Seria a festa dos micróbios tropicais um feedback (pouco conhecido) pronto para acelerar o aquecimento global?

Ondas de calor no Ártico

O Ártico vem aquecendo a uma velocidade duas vezes maior do que o resto do globo e em 2016, as temperaturas simplesmente enlouqueceram na região. Em mais de uma ocasião, uma área enorme ao redor do polo norte ficou 10, 15, 20 graus ou mais acima do normal ao longo deste ano.

Na realidade, nestes últimos dias, em pleno período de Natal (portanto após o solstício de inverno, com a região contida dentro do círculo polar sem receber um fóton sequer de luz solar), tivemos mais um episódio desse tipo.

Temprraturas ao norte de 80N, monito-
radas pelo Instituto Meteoológico da
Dinamarca
Os dados do Instituto de Meteorologia Dinamarquês não deixam dúvida: 2016 esteve, principalmente no início e final de ano, com condições completamente atípicas. É o que mostra a figura ao lado, que mostra a temperatura na região ao norte de 80N (ao redor do pólo), em vermelho, com destaque para as duas ondas de calor, em novembro e dezembro, em comparação com a média climatológica de 1958-2002. Embora flutuações na temperatura sejam comuns no Ártico, principalmente durante o inverno, perceba que nenhuma oscilação para temperaturas mais frias do que a média ocorreu.

Como discutimos em vários artigos em nossa página, é possível que isso já seja um efeito irreversível de feedbacks climáticos. A velocidade das mudanças naquela região estão surpreendendo até mesmo os colegas cientistas.

Recorde combinado de degelo nos dois hemisférios

Como já mostramos no nosso blog, 2016 foi o ano em que se confirmou uma das previsões dos cientistas que têm pesquisado as calotas polares: a de que o pequeno crescimento observado no gelo marinho ao redor da Antártica nos últimos anos tinha fôlego curto. Com isso, o gelo marinho do hemisfério sul se junta ao do hemisfério norte numa espiral descendente muito preocupante. Nos dois pólos, estamos presenciando recordes de mínimo históricos, situação que tem persistido por meses.

Comparando a área total de gelo marinho
em 2016 com a dos anos anteriores, per-
cebe-se que este ano fugiu completamente
da norma. Os dados são do NSIDC.
Os dados do National Snow and Ice Data Center (NSIDC) falam por si: o Ártico terminou o natal com 11,874 milhões de quilômetros quadrados de gelo marinho, quando o normal (média de 1981-2010) deveria ser 13,319. Na Antártica, Papai Noel também não levou gelo de presente para os pinguins e os números de 25/12/2016 são de 6,667 milhões de quilômetros quadrados contra uma média climatológica de 8,608. Em ambos os casos, a diferença para a média é maior, em módulo, do que dois desvios-padrão. Traduzindo, é sim, completamente anômalo!

Conclusão: tem gelo faltando, e muito. Façamos as contas: são 1,445 milhões de km2 faltando no Ártico e 1,941 na Antártica, ou seja, 3.386.000 km2 de gelo marinho perdido conjuntamente nos dois pólos. Essa área é maior do que o território da Índia. Equivale a 78% da área da Comunidade Europeia, ou 10 Finlândias ou quase 37 Portugais. Em termos de Brasil, equivale a 40% da superfície do nosso país, ou 77 estados do Rio de Janeiro, ou mais do dobro da área do estado do Amazonas.

Para uma constante atualização dessa situação alarmante, sugiro que acompanhem o trabalho do jovem pesquisador Zachary Labe, pelo twitter.

A mais longa temporada de furacões da história

"Oficialmente" a chamada "temporada de furacões" no Atlântico ocorre entre os meses de Junho e Novembro. Mas este ano, ela se iniciou muito antes, com o furacão Alex tendo se formado ainda em Janeiro! A temporada terminou fechando com números apenas acima da média, mas não muito: 15 tempestades, sendo 7 furacões e destes 3 para valores climatológicos (média de 1981-2010) de 12,1, 6,4 e 2,7 respectivamente. Ela se encerrou com o furacão Otto, também atípico: foi o furacão formado mais ao sul a atingir a América Central e um raro caso (há 20 anos não ocorria) de tempestade que atravessa do Atlântico para o Pacífico (Otto cruzou o Panamá).

Dos furacões de 2016, o Matthew, embora tenha sido um furacão muito poderoso, tendo chegado à categoria 5, não foi exatamente uma "tempestade do Antropoceno", já que seus ventos, de até 259 km/h, foram significativamente menores que os dos monstruosos Haiyan (315 km/h) e Patricia (325 km/h). Ainda assim, foi uma das tormentas mais destrutivas dos últimos anos, ceifando a vida de mais de 1.000 pessoas no Haiti, país no qual o total de atingidos e desalojados beirou 1,5 milhões de pessoas. Matthew foi a própria expressão do cruzamento entre o aumento do risco de formação de grandes tempestades sobre oceanos cada vez mais quente com a extrema vulnerabilidade de populações mais pobres.

O negacionismo chega à Casa Branca. "Drill baby, drill".

Dos "fatos climáticos" de 2016 talvez o mais bizarro de todos não tenha sido um evento meteorológico extremo ou um recorde de temperatura, degelo ou concentração de CO2, mas sim a eleição de Donald Trump, nos EUA. Famoso por sua incontinência verbal no twitter, o "unpresident" eleito chegou a afirmar com todas as letras, há 4 anos, que "o aquecimento global é uma farsa inventada pelos chineses", fez campanha falando em "cancelar o Acordo de Paris" e mesmo há poucas semanas, com toda a pressão que tem recebido soltou a pérola que "ninguém sabe na verdade" se o aquecimento global é real ou não.

Rex Tillerson, presidente e CEO da Exxon
Em nosso blog, já fizemos uma primeira análise, pouco após anunciada a vitória de Trump, sobre o seu significado e mostramos como o lobby da indústria fóssil ficou excitado com o acontecimento. Passado um mês e meio, Trump está montando um circo de horrores ministério com vários negacionistas e com vínculos tão explícitos com a indústria de combustíveis fósseis que o indicado para o cargo de Secretário de Estado - responsável pela política externa, incluindo as negociações climáticas - é ninguém menos que Rex Tillerson, CEO da ExxonMobil. Isso mesmo, o executivo-chefe da indústria que mais financiou o negacionismo climático, que sabia do risco climático desde o final da década de 1970 e escondeu tudo, e que pressionou (junto com Shell e outras) para liberar a perfuração para extração de petróleo e gás no Ártico um homem com enorme peso de definição nas próximas guerras imperialistas por petróleo e o chefe de boa parte da delegação dos EUA nas próximas 4 COPs...

3 comentários:

  1. Mensagem atrasada: PARABÉNS te admiro muito

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  2. Acompanho seu blog ha pouco tempo, mas eu admiro todos os posts. Estou usando como referência seus posts para alertar as pessoas de que já foi...

    O que você acha do Guy McPherson, Alexandre?

    ResponderExcluir

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