segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Serra Leoa: precisamos falar de pobreza, desigualdade e mudanças climáticas

Quase 500 mortes confirmadas e mais de 600 pessoas ainda desaparecidas. É o saldo terrível dos deslizamentos ocorridos em Serra Leoa nos últimos dias. A pouca atenção da mídia internacional à catástrofe em si faz com que o silêncio paire ainda mais absoluto sobre dois aspectos intrinsecamente ligados a ela: a pobreza e as mudanças climáticas.

Serra Leoa é o país de menor expectativa de vida do mundo: 50,1. É também o 178o menor PIB per capita segundo a ONU e o 9o menor Índice de Desenvolvimento Humano. Seus habitantes emitem uma quantidade insignificante de gases de efeito estufa: apenas 0,2 toneladas por habitante por ano, uma pegada 12,5 vezes menor do que um “brasileiro médio” e mais de 80 vezes menor do que a média de quem mora nos EUA.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

De onde saiu tanto negacionismo?

Nas últimas duas semanas pensei várias vezes na frase “quanto mais rezo, mais assombração me aparece”. Daí lembrei que, como bom ateu, nem rezo nem deveria acreditar em assombração.

Mas com efeito, certas assombrações do mundo real existem e são, além de teimosas, nocivas. Há diversas pragas anticientíficas, incluindo o criacionismo, a negação de que o homem tenha ido à Lua, o movimento antivacina e até o terraplanismo, mas o negacionismo climático é certamente a mais prejudicial. Envolve vínculos econômicos poderosíssimos (como mostramos em artigo na Revista Vírus) e chegou à presidência da nação mais poderosa do planeta através de Trump, o Nero Laranja. Diferente de outras fraudes anticiência, o negacionismo climático incide sobre políticas públicas e o faz justamente quando sabemos que as consequências da inação serão profundas e duradouras quanto mais seguirmos com os “negócios como sempre”.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Trump bombardeia o Clima

Trump como meteoro.
Fonte: Der Spiegel
Embora extremamente insuficiente e limitado nos mecanismos de proteção do sistema climático, o acordo celebrado em 2015, na COP21 em Paris, reconhecia claramente a necessidade de limitar o aquecimento global e contou com a pronta adesão de quase todos os países-membros da ONU. Síria e Nicarágua eram, até esta quinta-feira 1o de Junho de 2017 os únicos países fora do tratado. A Síria, presa em um quadro de caos, guerra, devastação e migração. A Nicarágua, vejam só, por considerar o Acordo fraco demais, impróprio no sentido de não atribuir responsabilidades proporcionais entre países ricos e pobres, e tendo ela promovido medidas de mitigação bem antes da COP21. A novidade: bombardeada pelos EUA logo no inicio da desastrosa gestão de Donald Trump, a Síria agora recebe a companhia do algoz.

Não é surpresa. Desde bem antes da campanha eleitoral, Trump insiste no negacionismo climático. Pelo twitter, ele já havia decretado que o aquecimento global seria “uma farsa inventada pelos chineses” para prejudicar a competitividade da indústria dos EUA. O anúncio da eleição do bilionário fanfarrão foi suficiente para fazer as ações das companhias de carvão e petróleo decolarem nas bolsas, assim como viriam a decolar mais tarde as ações das corporações do setor bélico em abril, após Trump mandar despejar 59 mísseis Tomahawk contra uma base aérea do país com que agora divide a infâmia de estar de fora do Acordo de Paris.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Chega de desmaios por Justin Trudeau. O cara é um desastre para o planeta. (Artigo de Bill McKibben no Guardian)

Falar de mudanças climáticas e declarar amor aos combustíveis
fósseis? Que feio, Sr. Trudeau!
Em artigo publicado no periódico britânico "The Guardian", o ambientalista Bill McKibben desmonta uma das farsas mais abjetas da América do Norte. Você errou se pensou nos EUA e em Trump, que é um vilão explícito (misógino, racista, xenófobo, arrogante, um crápula óbvio) e, portanto, nesse sentido não pode ser considerado uma fraude. Afinal, seus ataques contra os imigrantes, o ambiente, as mulheres, os pobres, são todos coerentes com sua fala. O artigo é sobre Trudeau, o "bom rapaz" da fronteira de cima, com todo o discurso correto, que vai do debate de gênero à preocupação com a mudança climática. Obrigatório, o artigo de McKibben mostra a realidade suja por trás da aparência do primeiro-ministro do Canadá.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Greenwashing: o Ogro Filantropo


Segundo a Wikipédia: "Greenwashing (do Inglês green, verde, a cor do movimento ambientalista, e washing, lavagem, no sentido de modificação que visa ocultar ou dissimular algo), em português, lavagem verde; é um anglicismo que indica a injustificada apropriação de virtudes ambientalistas por parte de organizações (empresas, governos, etc.) ou pessoas, mediante o uso de técnicas de marketing e relações públicas. Tal prática tem como objetivo criar uma imagem positiva, diante a opinião pública, acerca do grau de responsabilidade ambiental dessas organizações ou pessoas (bem como de suas atividades e seus produtos), ocultando ou desviando a atenção de impactos ambientais negativos por elas gerados". 

terça-feira, 14 de março de 2017

"A fábrica de ilusões que leva ao colapso civilizacional" - Entrevista ao IHU

Capa do número 500 da Revista do Instituto
Humanitas Usininos - IHU
Neste ano, a Campanha da Fraternidade aborda a proteção dos biomas brasileiros, no que considero um desdobramento bastante interessante dos elementos de discussão trazidos pelo documento elaborado pelo Papa Francisco, a encíclica Laudato Sí. Nesse contexto, fui procurado pela equipe do IHU, o Instituto Humanitas Usininos para uma entrevista para o número 500 da Revista do Instituto, cujo tema geral é "Biomas Brasileiros e a Teia da Vida", disponível neste link. Para mim, foi muito interessante contribuir com o trabalho, pois as questões que me foram endereçadas foram muito além de um recorte específico sobre os biomas, mas vi que visavam estabelecer conexão entre este tema e aspectos mais gerais da crise ecológica, incluindo as mudanças climáticas, o papel nefasto cumprido pela indústria de combustíveis fósseis, que sabia há décadas o dano que estavam causando, o significado da eleição de Trump e, principalmente, o debate da insustentabilidade do modo de vida que produziu o Antropoceno. Agradecendo à equipe do IHU e em especial ao jornalista João Vitor dos Santos, trago a vocês a entrevista, também aqui, em nosso blog:

quinta-feira, 2 de março de 2017

O colapso (in)evitável e o Antropoceno

O sistema produtivo capitalista experimentou nas últimas décadas enormes transformações, que colocaram o planeta sob intensa pressão no que diz respeito às fontes de matérias-primas e de energia. A China virou um enorme galpão de fábrica, a ser alimentado por carvão e gás para suas termelétricas, minério de ferro, cobre e metais raros para eletro-eletrônicos, plástico e químicos diversos. Por todo o globo, a frota automobilística e também a frota aérea não pararam de crescer, demandando materiais metálicos e não-metálicos para sua fabricação e, sobretudo, derivados de petróleo para movimentá-las. Interconectado globalmente, o sistema capitalista proporcionou um fluxo extremamente intensivo não apenas de capital especulativo, mas desses materiais e dos produtos a partir deles fabricados. As redes longas desse sistema econômico ligaram, via extração, produção e consumo, praticamente todos os indivíduos em praticamente todos os cantos do planeta. Por terra, pelo ar e pelos mares, milhões de toneladas de material de bauxita a celulares viajam todo ano, numa espiral crescente.

Copo "meio cheio" não salva uma casa em chamas

Alok Sharma, presidente da COP26, teve de conter as lágrimas no anúncio do texto final da Conferência, com recuo em tópicos essenciais ...

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