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terça-feira, 14 de março de 2017

"A fábrica de ilusões que leva ao colapso civilizacional" - Entrevista ao IHU

Capa do número 500 da Revista do Instituto
Humanitas Usininos - IHU
Neste ano, a Campanha da Fraternidade aborda a proteção dos biomas brasileiros, no que considero um desdobramento bastante interessante dos elementos de discussão trazidos pelo documento elaborado pelo Papa Francisco, a encíclica Laudato Sí. Nesse contexto, fui procurado pela equipe do IHU, o Instituto Humanitas Usininos para uma entrevista para o número 500 da Revista do Instituto, cujo tema geral é "Biomas Brasileiros e a Teia da Vida", disponível neste link. Para mim, foi muito interessante contribuir com o trabalho, pois as questões que me foram endereçadas foram muito além de um recorte específico sobre os biomas, mas vi que visavam estabelecer conexão entre este tema e aspectos mais gerais da crise ecológica, incluindo as mudanças climáticas, o papel nefasto cumprido pela indústria de combustíveis fósseis, que sabia há décadas o dano que estavam causando, o significado da eleição de Trump e, principalmente, o debate da insustentabilidade do modo de vida que produziu o Antropoceno. Agradecendo à equipe do IHU e em especial ao jornalista João Vitor dos Santos, trago a vocês a entrevista, também aqui, em nosso blog:

sábado, 21 de março de 2015

Depois dos Achacadores, os Açaimadores... do Clima

Obra de Marcus Schinwald:
Grita (2010)
Na semana, um bate-boca entre o agora ex-ministro Cid Gomes (Cid, o Breve) e o presidente do Congresso Nacional mais corrupto e reacionário desde a ditadura empresarial-militar, Eduardo Cunha, dominaram as manchetes. Cid Gomes (cuja história não o credencia exatamente como um acusador coerente) havia posto em evidência um termo pouco usado na língua portuguesa, ao considerar que centenas de parlamentares se postavam cumpriam papel de "achacador", ou seja, aquele que chantageia, extorque, ameaça, para fins de vantagem financeira. Mas enquanto os achacadores do Congresso brasileiro com Cunha à frente exibiam sua força política e o PMDB mostrava que só não tem seu lugar garantido no inferno por conta do temor que o demônio deve nutrir só em pensar em entregar a vice, a direção da Petroinferno e o Ministério das Caldeiras e Tridentes, indivíduos tão perigosos quanto agiam...


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Para. Para tudo. Já.

Uma das maiores panacéias que vêm sendo vendidas à sociedade brasileira é que a construção de grandes hidrelétricas na Amazônia irá nos assegurar segurança energética no futuro. Há também toda uma chantagem do tipo "ou isso ou as termelétricas", estas, que seriam apenas uma reserva energética mas que estão literalmente a todo vapor e a todo CO2, além de levarem a um aumento no valor médio da tarifa. A ostensiva campanha em torno de Belo Monte, Jirau e outros belos monstros anestesia grande parte da sociedade brasileira, que prefere ver os povos indígenas do Xingu e do Tapajós completamente extintos a trocarem seu chuveiro elétrico por um sistema de aquecimento solar de água (calma... de que água mesmo estamos falando?).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Contra o Negacionismo Oficial: é preciso defender a Ciência brasileira

Aldo Rebelo, aquele que nega a Ciência
do Clima e diz que o movimento ambi-
entalista é "pró-imperialismo" é nome-
ado Ministro da Ciência, Tecnologia e
Inovação. Antes fosse apenas uma piada
de péssimo gosto.
Nos próximos dias, outras instituições de pesquisa e monitoramento climático, incluindo NOAA e NASA, deverão confirmar, cada uma usando uma metodologia diferente, o que a Agência Japonesa acabou de divulgar: 2014 é, com efeito, o ano mais quente de todo o período instrumental. Mas a virada do ano em Terra Brasilis,  ao contrário do que um fato desses deveria provocar (isto é, priorização da temática e transversalização da mesma em todos os ministérios), um negacionista climático é nomeado para o cargo de Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, justamente aquele que deveria induzir, incentivar e conduzir trabalhos de pesquisa junto à comunidade brasileira, envolvendo quantificação das mudanças, dos seus impactos e dos riscos e desenvolvimento de estratégias, incluindo soluções tecnológicas, para redução das vulnerabilidades, mitigação e adaptação.

Dois textos de autoria do agora ministro são duas verdadeiras pérolas de ignorância relativa à ciência do clima, ao mesmo tempo em que se caracterizam pelo acentuado grau de arrogância. O primeiro e mais importante, é o relatório que Aldo Rebelo preparou para alterar profundamente o Código Florestal. Dentre outras coisas (como tratar "o homem como o único ser vivo dotado de consciência e inteligência, capaz de interagir com a natureza e de transformá-la"), sua visão da Amazônia é assustadora, como se vê na passagem a seguir (parte de uma extensa citação de um livro do geógrafo Josué de Castro, publicado em 1946 e que Aldo Rebelo reivindica como correta...):

domingo, 24 de fevereiro de 2013

SBPC: como o Clima Global e o Balanço de Carbono desapareceram entre o Código Florestal e Pré-Sal

O Brasil, segundo dados do próprio governo, detém 516 milhões de hectares de florestas. É uma área bastante generosa, bem maior do que os 24,2 milhões de hectares, segundo a Empraba, que temos de soja plantada em nosso território (na verdade, 21,3 vezes maior, para ser exato). A produtividade da soja, segundo a Embrapa, no mesmo site, é 3106 kg/ha (quilogramas por hectare) e a cotação da soja, segundo o insuspeito site "Notícias Agrícolas", gira em torno de R$ 1000,00 por tonelada, ou seja uma relação de um para um entre real e quilograma.

Uma conta que pode ser feita (e deve, para assustar) é: extrapolando esses valores, admitindo que toda a área de floresta no Brasil fosse substituída por plantação de soja, quais as cifras (ou melhor, cifrões) a que chegaríamos? Vamos lá... Multiplicando R$ 3106,00/ha por 516 milhões de hectares, e usando a cotação de U$ 1 = R$ 1,97 chegamos à marca de U$ 814 bilhões, o equivalente a mais de um terço do PIB brasileiro, de U$ 2,3 trilhões. A cada safra. A cada ano. Um PIB inteiro a cada três anos! Mas guardemos esse resultado... Claro, para escaparmos do argumento de que uma oferta muito grande da soja derrubaria seu preço nos mercados internacionais, se poderia pensar em devastar "apenas" 10% das florestas e faturar com a soja durante 30 anos...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Não existe pecado do lado de baixo do equador. Em compensação, calor...

Percentis de temperatura para Janeiro de 2013.
Fonte: State of the Climate (NOAA), em
http://www.ncdc.noaa.gov/sotc/global/2013/1
Janeiro de 2013 não trouxe grandes surpresas em relação ao que se esperava. Na média global, aparece como o 9º mais quente do registro histórico, fazendo dele o 336º mês consecutivo com temperaturas acima da média.

Na última vez em que a média global de temperatura ficou abaixo da média, Mikhail Gorbachev havia acabado de assumir o cargo de Secretário-Geral do PCUS (o Partido Comunista da União Soviética). Nelson Mandela estava na cadeia e a África do Sul havia acabado de liberar os "casamentos interraciais" (sim... nos remete à luta dos homossexuais pelo casamento igualitário nos dias de hoje). Tancredo Neves havia sido escolhido presidente do Brasil por meio de eleições indiretas num Colégio Eleitoral.

Faltavam ainda quatro anos para a queda do Muro de Berlim e para a realização de eleições presidenciais no Brasil pela primeira vez desde o golpe militar de 1964. Nessas eleições, se deu o lançamento da primeira candidatura à presidência por parte de Luís Inácio Lula da Silva, um Lula bastante diferente daquele dos dias de hoje, acreditem...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Rumo a 4 graus? Estão rindo de quê?

Neste post, quero chamar a atenção, dentre outros pontos, para um artigo de autoria de Richard Betts e colaboradores, recentemente publicado no Philosophical Transactions of the Royal Society, cujo título é "When could global warming reach 4°C?"


Apesar de, especialmente acima de 3 graus de aquecimento, as incertezas nos impactos crescerem, sabe-se que um planeta 4 graus acima da era pré-industrial (mais de 3 graus mais quente do que o presente) é virtualmente irreconhecível. O primeiro ponto diz respeito a tempestades mais intensas. Uma atmosfera mais quente permite a presença de uma maior quantidade de vapor d'água, o que tem o efeito, como discutimos em outro momento, de amplificar a intensidade de tempestades, furacões e outros fenômenos extremos. O segundo se remete às geleiras. Como se sabe as projeções de degelo tem sido profundamente conservadoras, subestimando o que de fato tem acontecido (como já mostramos, o recorde de degelo no Ártico em 2012 aconteceu com mais de duas décadas de antecipação em relação à projeção mais "pessimista" e cerca de 50 anos antes do que a média dos "modelos do IPCC" previu, quando do quarto relatório).

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Bomba-relógio: o tique-taque acelerado das mudanças climáticas


Recentemente, alguns textos têm circulado, nas mídias alternativas, acerca da justeza das projeções apresentadas pelo IPCC desde os anos 90 para o que era, então, o futuro próximo, e viria a ser, hoje, o nosso presente. Alguns, como este, destacam que as projeções de aquecimento global se confirmaram. Outros, como o texto de James Hansen, em sua versão traduzida, destacam aquilo que mais me preocupa, que é o ritmo alarmante de certas mudanças, que têm sido detectadas no sistema climático na escala de anos.

Distribuição do calor excedente no sistema climático terrestre,
com base nos dados do IPCC. Figura adaptada a partir de
http://www.skepticalscience.com/graphics.php?g=12.
Os sinais mais alarmantes, ao meu ver, estão relacionados a outras variáveis do sistema climático que não a média da temperatura global na superfície. Na realidade, como o planeta e principalmente seus oceanos são tridimensionais, o calor acumulado pelo efeito estufa mais intenso não se distribui homogeneamente e, por vezes, pela própria dinâmica do sistema climático, pode dar preferência ora para uma parte desse sistema, ora para outro. Por exemplo, é possível que parte do calor retido na Terra durante alguns anos se acumule na porção superior do oceano, sendo transmitido depois para a atmosfera. Noutros momentos, é possível que a circulação oceânica mais profunda redistribua esse calor, transportando-o através de suas correntes para regiões remotas do planeta, vindo, em algum momento, a se manifestar de forma mais clara no derretimento do gelo das calotas polares. O quarto relatório do IPCC, por sinal, identifica de forma muito evidente que os oceanos são o principal coletor desse excedente de calor. Os resultados originalmente mostrados nesse relatório são mostrados, de forma mais simples, na figura acima.

Copo "meio cheio" não salva uma casa em chamas

Alok Sharma, presidente da COP26, teve de conter as lágrimas no anúncio do texto final da Conferência, com recuo em tópicos essenciais ...

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