domingo, 6 de janeiro de 2013

As Secas como Fenômeno Sócio-Climático (por Airton de Farias)

"Retirantes", de Cândido Portinari

Resolvi compartilhar com vocês texto de Airton de Farias, sobre a conotação social das secas. Airton é Professor e Historiador, autor de "História do Ceará", "Além das Armas: Guerrilheiros de Esquerda no Ceará Durante a Ditadura Militar" e "Fortaleza Uma Breve História" e seu texto, bastante didático, dialoga com uma perspectiva que tenho sistematicamente abordado em meu blog, que é o caráter desigual dos impactos da variabilidade natural e das mudanças antrópicas no clima. Como abordei nesta postagem, os impactos de eventos extremos são evidentemente díspares no que tange à nacionalidade, etnia e classe social. Neste outro, longe de querer travar um debate aprofundado (até porque não sou sociólogo ou antropólogo e não tenho "bagagem" para tal), alerto para a desigualdade de gênero, ligada à questão climática. É nesse contexto que me agrada a idéia de estabelecermos pontes com pesquisadores, professores e intelectuais de outros campos do conhecimento, como faço neste momento com Airton. Boa leitura para vocês!

Confissão

Tenho uma confissão a fazer. Nessa história toda de aquecimento global, estamos vivendo uma enorme farsa. Mentiras de todo lado. Falsificação de informações. A coisa é feia, feia mesmo... Chega a ser vergonhoso. Fico impressionado como as pessoas acreditam em determinadas coisas... Sim, tenho uma confissão a fazer... uma grande confissão...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

"Pito" suave, mas bem aplicado!

Surpreendido pelo número aparentemente alto de meteorologistas de formação, no Brasil, que assumem posições de negação da mudança climática (seja negando o aquecimento global, seja negando o papel antrópico nele), tive a atenção chamada por Michael Mann, através de seu twitter, que fenômeno parecido acontecia nos EUA. A negação das mudanças climáticas e de sua causalidade antrópica é, na verdade, comum em meteorologistas que apresentavam previsões na mídia por lá, graças a uma combinação de fatores, que iam da ausência de disciplinas nos cursos de graduação que cobrissem a dinâmica do clima, paleoclimatologia, mecanismos de feedback, etc., até a opção, pura e simples, de preferir emitir posições pessoais (evidentemente "contaminadas" pelas preferências ideológicas) do que aceitar as evidências verificadas e publicadas amplamente na literatura científica especializada, como abordado neste texto (em inglês), passando pelo desconhecimento de fundamentos de modelagem climática global. Esse fenômeno se repete no Brasil e checando a grade curricular dos cursos de Meteorologia em nosso País, constato precisamente que a formação deixa a desejar em aspectos essenciais. 

Rir pra Não Chorar

O humor, não raro, é um veículo bastante interessante de crítica, seja na crítica política ou de costumes, de Henfil (que perdemos há 25 anos) a Laerte.

Esta postagem é para mostrar trabalhos de um dos meus favoritos, Tom Toles, cartunista dos EUA, amplamente premiado (inclusive com o Prêmio Pulitzer), que não poupa a direita estadunidense e os negadores das mudanças climáticas com seu humor ácido. Como muitas vezes traduções literais não são ideais para passar o humor, tomei a liberdade de incluir, como legenda, minha tradução livre. É importante perceber os pequenos personagens (muitas vezes, o próprio Toles) no canto inferior direito de cada um deles, sempre fazendo comentários...

Instigado por Toles e alguns de seus cartoons mostrados abaixo, vale rir. Pensando melhor do que o colocado no título, também vale chorar, como o Chefe da Delegação Filipina na COP18. Vale, sobretudo, fazer a crítica e ir à luta!

Paleoclima I: “O Clima Mudou Antes”, Infartos e Assassinatos

- De todo jeito é inocente, certo?
Imagine uma situação inusitada. Um assassinato foi cometido, o primeiro assassinato da história da humanidade! E imagine que o primeiro caso em que uma pessoa humana é morta por um semelhante aconteceu já em tempos modernos, com os tribunais, o sistema penal, etc., devidamente constituídos como os conhecemos.

Toda a investigação foi conduzida conforme o figurino e as evidências (motivo, arma do crime, impressões digitais, etc.) apontam muito claramente para um único suspeito. Eis que seu advogado de defesa surge com um argumento mirabolante! Ele afirma que outras pessoas, além da vítima, já morreram antes. Que em todos os casos, a causa da morte foi natural. Que ninguém fora condenado porque outra pessoa faleceu em virtude de um infarto, um acidente vascular ou um câncer e, portanto, não se poderia condenar ninguém por assassinato.

Esse quadro surrealista é mais ou menos o que eu enxergo quando algumas pessoas desavisadas tentam negar o aquecimento global antrópico, afirmando que "o clima mudou antes". Ora, um sistema complexo cujo comportamento depende de forçantes exteriores e de uma complicada dinâmica interna, que inclui uma gama de mecanismos de retroalimentação, jamais se presumiria estático. Então a afirmativa "o clima mudou antes" é quase um pleonasmo. Mais óbvio ainda é o fato de que as mudanças climáticas do passado nada tiveram a ver com a espécie humana, seja porque, como no caso do encerramento do mais recente período glacial há aproximadamente 10 mil anos, o impacto promovido pela nossa espécie no ambiente em geral e no clima em particular era diminuto; seja porque, em mudanças climáticas de um pretérito mais profundo, nossa espécie sequer existia... Mas desde quando isso é argumento plausível para negar o papel antrópico na mudança climática do presente, do aqui e do agora? Pessoas morrem de infarto e de câncer e morrem até se, por um acidente, são atingidas em um órgão vital por um objeto perfurante. Neste caso, não há assassino. Mas desde quando se pode deduzir daí que em outra situação, quando alguém, ao atingir outrem com um desses objetos perfurantes, está livre para seguir por aí, sem ser identificado e punido?

Na postagem seguinte, começarei a abordar a questão das mudanças climáticas do passado, discorrendo brevemente sobre os métodos para recuperar informações do "Paleoclima". Deixarei para outras a discussão dos fatores que influenciam o clima em diversas escalas de tempo (que são diferentes, quando vamos de séculos até milhões de anos) e como cada uma dessas escalas nos traz lições para os dias de hoje. Abordarei das mudanças em milhões de anos, que fizeram a Terra passar por estados de "Terra-estufa", isto é, sem calotas polares e "Terra-geladeira", como hoje, até a chamada "Terra bola de neve", até mudanças bem mais sutis, até as variações relativamente recentes no "Período Medieval Quente" versus "Pequena Era do Gelo", passando pela alternância, na escala de centenas de milhares de anos, entre períodos glaciais (as verdadeiras "Eras do Gelo") e interglaciais. O que posso adiantar no momento é que todos esses estudos paleoclimáticos apresentam, na verdade, evidências muito fortes de que a influência antrópica sobre o clima de hoje é de fato profundamente significativa e que o risco de disparar mecanismos não-lineares de retroalimentação que tragam transformações de grandes proporções no sistema climático terrestre é bastante real.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Novo Recorde de Temperatura Global em 2013?

Ranking dos anos mais
quentes do registro
histórico, desde 1880
O UKMO (United Kingdom Meteorological Office) anunciou sua previsão de temperatura média global para 2013 e as chances de um novo recorde absoluto de temperatura globais são bastante significativas. Há alguns meses, uma análise prévia já indicava que 2013 deveria vir a estar muito provavelmente entre os dez mais quentes do registro histórico, com fortes indícios de que teria, pelo menos, alta probabilidade de ser mais quente do que 2012. O ano que se encerrou poderia até ter ficado, como indiquei em diversos momentos, fora da lista dos mais quentes, por ter se iniciado com uma La Niña intensa e este fenômeno resfria o Oceano Pacífico equatorial, com reflexos sobre a média de temperatura global. Mas encerrou como o nono mais quente.

Agora, a instituição britânica divulgou a sua previsão final para este ano que se inicia. A expectativa é a de que, em comparação com a média de 1961 a 1990, 2013 fique entre 0,43 e 0,71°C acima, com valor mais provável para anomalia de temperatura de +0,57°C. É quase certo que ele entra nos "top ten" (pois o 10º colocado, 2004 apresenta anomalia exatamente igual ao valor mínimo previsto para 2013). São altas, ainda, as chances de este ano bater o recorde de 2010 e seus 0,54°C de anomalia em relação a 1961-1990.

Transporte Individual: Contra-Mão, Beco sem Saída, Fim da Linha!


Há números que correm em paralelo aos recordes do clima e que com estes se entrelaçam. Vão da demanda e do uso de energia, ao consumo de agrotóxicos e fertilizantes; da extinção de espécies e perda de biodiversidade aos acidentes de trânsito; da área perdida de florestas à quantidade de rios represados; enfim, à concentração de CO2 atmosférico e demais gases de efeito estufa. Se forem feitos gráficos dessas variáveis em função do tempo, a marca comum a todas elas é o crescimento acelerado, ou, como é ensinado nos bancos escolares, um crescimento em progressão geométrica ou exponencial.

Neste texto, abordarei recordes e curvas exponenciais visíveis para qualquer pessoa que passa pelas ruas e avenidas de qualquer grande cidade brasileira (ou, na verdade, da ampla maioria de grandes cidades do mundo). Referem-se ao trânsito, uma das arenas de um dos fenômenos paralelos ao aquecimento global: o enlouquecimento global.

Copo "meio cheio" não salva uma casa em chamas

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